Crítica

Raízes, memórias e movimento: primeiras impressões de toró, de Ari Sacramento

“O livro que lança Ari Sacramento como poeta é um deleite para quem gosta de pensar sobre e dançar com imagens poéticas de afeto em diversas perspectivas.”

Há livros que continuam ressoando na nossa mente mesmo dias depois da leitura e toró (2025), de Ari Sacramento, é um deles. Ari, professor da UFBA, conhecido por seu ritmo único e sua generosidade ímpar, consegue imprimir exatamente essas duas qualidades nos seus poemas. 
toró é um livro dividido em quatro partes, cada uma com o aprofundamento em uma perspectiva do tema “Afetos”. A primeira, “Micélios”, traz poemas que remetem aos afetos relacionados às raízes, principalmente às raízes familiares. O título dessa parte já dá uma dica, pois Micélios são o que os fungos tem de mais próximo de raízes: são os pequenos fios que ligam os fungos à terra, os fios que ajudam os fungos a crescer e se comunicar. Nessa parte, encontramos poemas sobre a relação da voz poética com a escrita, com o pai, com a mãe, com o corpo, com o espelho, com o movimento, com a fé e os dias. 
É principalmente na parte inicial de toró que temos as marcas da origem do autor, que é Soteropolitano de nascença, com a palavra “mainha” tão bem usada para marcar a presença materna nesse exercício lírico. Também temos “vixes” e “oxes” localizando geográfica e culturalmente os poemas do professor Ari. Para mim, também baiana, é como ler um poema que convida e aconchega.
Ainda em “Micélios”, também encontramos a forte relação do autor com as Letras, provável reflexo da sua formação e atuação docente em Linguística e Filologia. Um exemplo é o poema “Halitose”, em que as palavras, os fonemas e o aparelho fonador aparecem construindo sentidos a respeito do que se fala e do que se retém no discurso.
A segunda parte do livro se chama “Quarta de cinzas”. Nessa parte de toró, estão mais presentes os poemas de um afeto sensual. Aqui, a voz poética fala do amor sozinho, dos espaços entre o apaixonamento e as dúvidas de relações amorosas e, claro, um pouco dos amores de Carnaval. São poemas com ainda mais ritmo, mas que se leem às vezes como sonetos, às vezes como canções de amor. Esses poemas constroem imagens parciais, pois o autor entrega algumas dicas e cabe ao leitor a completá-las para criar as paisagens das relações contadas na página. Em “Quarta de cinzas”, também abundam as imagens aquáticas, principalmente para falar do que muda no plano do real, mas permanece na memória. Por fim, é a parte do livro que mais fala sobre o corpo: suor, sangue, lágrimas, boca, língua e pele veem montar essas imagens-mistério que o poeta constrói.
“O vento” é a terceira parte de toró. Considero esta parte uma miscelânea do ponto de vista da voz poética. Quando a voz do poema olha pela janela ou pelo espelho, o que vê? Um pouco de filosofia, um pouco de pinga, um pouco do corpo do outro, um pouco de si mesmo, sempre trazendo as sensibilidades da pele para o centro da conversa.
Por fim, a última parte “Espólios de amor próprio” é uma prosa poética. Dentre todos os textos do livro, esse é o que mais aproxima o leitor da vontade de esquecer a divisão pessoa/leitor e pensar sobre a vida de Ari Sacramento. Será que ele se mudou mesmo? Como será que essa mudança aconteceu? Que luto foi esse? Qual era o filme. Esse jogo de desfazer o véu que separa realidade da arte é mais um sinal da maestria com que Ari usa as palavras para levar o leitor para onde ele deseja levar. O texto termina com uma frase que evoca o afeto da amizade.  
O livro que lança Ari Sacramento como poeta é um deleite para quem gosta de pensar sobre e dançar com imagens poéticas de afeto em diversas perspectivas. Mal posso esperar para ler mais poemas de Ari.

toró, Ari Sacramento
Editora paraLeLo 13S, coleção anêmona

Lourdes Modesto é professora de Língua Inglesa no Estado da Bahia (SEC-BA), Mestre e Doutoranda em Literatura e Cultura na UFBA. Publicou o livro de Ensino de Língua Inglesa “Novas Práticas para o Ensino Médio – Inglês” pela Editora do Brasil, com coautoria de Senaria Santana. O livro foi contemplado pelo PNLD e está disponível na Amazon. Revisou o livro “Nenhuma Língua é Neutra” de Dionne Brand (Bazar do Tempo, 2023).