A distração possível

Um espinho que crava a carne

Ser pai de meninas é um lugar que me recria. Sou posto à prova de fogo toda semana. Desconstrução. Desconstrução. Desconstrução — repito em silêncio de frente para o espelho do banheiro.

Arte de capa: Guilherme Almeida (Reprodução).


Meu recado às mulheres: contem suas histórias. 
Descubram o poder de milhões de vozes que foram caladas por séculos.
Ryane Leão

Recordo-me de um tempo em que Mainha me ensinava a respeitar todas as meninas da sala de aula. Levantar a voz para alguma delas era motivo de castigo e conversa ao pé do ouvido quando eu chegava em casa. Cresci guardando as bonecas da minha irmã no final do dia. Havia uma regra implícita que não podia ser quebrada.

Meia-noite, girei a chave na porta e entramos em casa. Tínhamos passado horas no atendimento da emergência infantil. Conversando com um amigo, fiquei pensando se os vírus estão mais fortes, se nós estamos mais fracos, ou os dois juntos.

São motivos que nos fazem pensar no agora. Uma das características de viver neste tempo é a impressão de que estamos percebendo as mudanças no durante. É tudo gritante e imediato. Antigamente, notávamos só depois do acontecido. Sempre havia mais tempo. As transformações chegavam a ser românticas. Mas vivemos um tempo de barbaridades, e a única salvação, penso, está nas subjetivas reações diárias, em pequenos gestos de esperança.

Ainda há pouco, na emergência de um grande hospital em Salvador, fomos tomados pela espera. E mesmo com plano de saúde, a sensação de descaso, de medo, invadia esse híbrido que é precisar e ter que esperar não só a ordem de chegada — o que é normal —, mas por um ato de boa vontade dos atendentes, enfermeiros, médicos. O que nos empurram goela abaixo são expressões, imagem fechada de algum desconforto ou infelicidade estampada.

E como faz falta a presença de um sorriso no rosto de quem acolhe neste momento de tensão. Como faz falta uma voz que passe confiança na prescrição dos medicamentos, na leitura do raio-x dos pulmões. Mas nem todos que trabalham na saúde são assim, o que torna essa uma conta de mãos pensas diante de nós. Você consegue lembrar daquele sentimento instalado entre a necessidade, o medo e uma crescente repulsa que aperta o ouvido atento e o coração?

Agradeço pelo atendimento, pela alta, pelas horas de espera, pelo medo da sala fria e pelo som das chaves na porta de casa abrindo, com o nosso pet anunciando a saudade. Não quero julgar; só eles sabem o que passam em cada plantão durante a madrugada de uma emergência infantil em uma grande cidade deste país. Mas o que me sonha a carne trêmula é a vontade louca de sair correndo e levar as minhas filhas para perto de Mainha, para os chás, o xarope de folha, a colherada de mel com limão, as palavras de infusão, palma com palma das mãos. A voz espiritual trêmula das nossas, a recriar a coragem em nós.

Ser pai de meninas é um lugar que me recria. Sou posto à prova de fogo toda semana. Desconstrução. Desconstrução. Desconstrução — repito em silêncio de frente para o espelho do banheiro.

Ainda lembrando da noite na emergência, havia um homem alto que segurou forte no braço de uma das médicas. Ele tinha o desespero no olhar, mas havia algo pesado e antigo, encruado como um espinho que cria galhos ao entrar na pele, algo a mais. Segurou e apertou com uma certeza de impunidade, como se tivesse o direito de causar violência naquela mulher, que tinha a tarefa mais importante para ele naquele momento: cuidar de sua filha. E diante da coação, a médica chorou e o homem largou o seu braço.

O filósofo francês Jean-Paul Sartre escreveu que “A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota.” Esse foi o sentimento que se instalou quando aquele homem saiu com sua filha. Todos nós perdemos um pouco diante de cenas como essa, que crescem como uma avalanche e acabam subtraindo não só a vida de uma mulher, mas pouco a pouco a de todos nós.

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