
Entre as crianças, ratos, céus e infernos: ‘Os ratos vão para o céu?’, de Vitor Miranda
Na coletânea de contos ‘Os ratos vão para o céu?’, autor do movimento Neomarginais visita infâncias a partir do humor ácido, das crueldades e contradições do mundo adulto.
Foto: reprodução das redes sociais.
Uma criança relata o dia em que, pela primeira vez, viu um rato entrando em sua casa, da forma como seu pai deu um jeito de matá-lo e os últimos momentos do bicho enquanto tenta sobreviver. Depois que o “susto” havia passado, o garoto toma consciência de que ele é um animal e que assim como o pequeno ser, ele também tem a sua finitude. Então, ele resolve falar com Deus e pergunta: “Os ratos vão para o céu?”.
O conto, que dá nome à coletânea do escritor paulista Vitor Miranda, é só um exemplo da oferta generosa de camadas que a obra traz a quem a lê. O livro revisita a infância e as sombras que nos acompanham ao longo da vida por meio de narrativas que misturam humor ácido, realismo fantástico, crítica social e memória afetiva. Tudo em letras minúsculas, do começo ao fim, o que já é uma marca da escrita do autor.
Vitor é um dos expoentes do movimento Neomarginal. Criado em 2019, surgiu como uma crítica ao mercado editorial tradicional, propondo uma nova estética marginal, de forma a criar seus próprios espaços de circulação da arte. O grupo também é responsável pelo Selo Neomarginal, voltado à autopublicação de autores independentes, pela qual “Os ratos vão para o céu” foi lançado.
A obra conta com prefácio do jornalista Xico Sá, posfácio da psicóloga e professora Paula Akkari e um delicioso texto de orelha do escritor Aramyz. O livro é o sétimo título do autor, também conhecido por “Exatomos” (2024) e “O que a gente não faz para vender um livro” (2021).
Para crianças?
Embora o título, a capa fofinha e a presença de crianças possam sugerir uma obra infantil, o livro é voltado para leitores adultos. A infância aqui é composta por paisagens relativamente puras, que ora são impactadas pela “poluição” de um mundo desigual, cruel e desumano, ora são, de fato, engolidas por esse mesmo monstro. Mas essa mesma paisagem também tem algumas plantas venenosas, capazes de fazer estrago. Nós sabemos.
A escrita de Vitor costuma misturar de humor e crítica social. Provoca um intenso sabor de aspecto ácido, que mexe com a nossa mente e nos faz querer mais. Não sei você que me lê, mas tenho a impressão de que depois da geração de Rubem Fonseca e da “literatura brutalista”, várias escritas contemporâneas adotaram esse tom mais cáustico, com foco nas mazelas sociais. Alguns se tornaram mais do mesmo, pelo menos para mim. Eu, como escritor, já utilizei esse estilo. Vitor, a princípio, poderia ser mais um desses autores, mas ele carrega algo a mais. O jeito peculiar com que ele vê a vida, nada maniqueísta, cambaleando entre o humor, o sarcasmo e a sinceridade, nos desarma de pré-julgamentos.
“os ratos transmitem cerca de cinquenta e cinco doenças para o ser humano. resta saber quantas doenças os seres humanos transmitem para os ratos.”
– Trecho de ‘Os ratos vão para o céu?’, de Vitor Miranda
De todos os contos do livro, acho que o que mais me marcou foi “Por favor, enterrem o meu pai”. É a história de um menino, Joelson, muito pobre, que sai pelas ruas da cidade pedindo ajuda financeira para enterrar o pai que havia acabado de falecer. Se tem um conto que ilustra a crueldade do mundo com uma criança, na minha opinião, é este. É aquela situação que o brasileiro das grandes cidades, infelizmente, já se acostumou a conviver. Mas, a forma como os fatos se desenrolam na história, a brutalidade com que a infância desse garoto é roubada, é como se Vitor pegasse a nossa cabeça e enfiasse com força dentro dessa “água suja”, para vermos melhor as camadas que existem lá dentro e que, inclusive, vitimaram o personagem.
Outras histórias também mostram como as violências perpassam as infâncias como navalhas (e balas). O conto “Porrinha”, por exemplo, traz uma consequência da política de armamento da população, defendida e propagada como entidade divina por grupos de direita. Em “Todo domingo acaba em pizza”, há um retrato da banalização da violência que começa no trânsito hostil de São Paulo, com um plot twist de tampar a garganta.
Nem tudo é dor
Importante dizer que nem todos os contos são soturnos ou abordam mazelas. Alguns vão mais para o lado do humor, ainda que a crítica esteja presente. É o caso de “A primeira palavra”, por exemplo, em que um bebê, ao começar a murmurar os primeiros sons, cria expectativa na família sobre qual a primeira palavra que ele vai dizer. O resultado, um único nome pronunciado, já mostra qual o objetivo do conto.
Certas histórias me lembraram a irreverência de Luís Fernando Veríssimo na arte de refletir e tratar sobre aspectos humanos e do cotidiano. Em “Batizado”, conto capaz de deixar cristãos fundamentalistas de cabelo em pé, vemos um Jesus Cristo “sincerão”, que desabafa atitudes de certas pessoas que presencia na igreja onde ele fica e que, pelo menos para o personagem da história, parecem sem sentido. Talvez seja a “contificação” daquela frase famosa na internet “Jesus é um cara legal, o que estraga é o seu fã clube”.
Em certas histórias, Vitor imprimiu bastante o olhar das crianças, cheias de imaginação, ao reagirem a determinadas situações e ambientes. Em “Pessoas felizes leem revista comigo”, por exemplo, vemos as reações do garoto ao se consultar com uma psicóloga, por insistência da mãe, pelo fato dele adorar conversar com seus brinquedos, e como ele absorve o ambiente do local, especialmente na sala de espera.
Já em “leite condensado” Vitor brinca com as mentiras que os pais gostam de contar para os filhos na tentativa de conter suas traquinagens. Este conto foi o que mais me remeteu à minha infância, visto que eu, formiga até hoje, tinha o sonho de devorar uma lata de leite condensado inteira, e me recordo das tentativas da minha mãe em conter esse meu desejo. Inclusive, o método utilizado pela mãe do personagem não me pareceu estranho.
Já o conto “Iorv” me lembrou o estilo de Lygia Fagundes Telles, ao mostrar a relação de uma menina com seu possível padrasto. Narrado em primeira pessoa, pela criança, traz camadas em que é possível visualizar a situação tanto pelo prisma da pequena, quanto o desenrolar do relacionamento entre a mãe e o tal rapaz.
Luta
Já acompanho Vitor há algum tempo no Instagram, em que ele compartilha pílulas da sua produção literária. É presença frequente em diversos eventos literários, principalmente os alternativos. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente na A Feira do Livro, em São Paulo, neste ano. Costuma aparecer sério nas fotos com os leitores. Já trocamos nossos livros, por iniciativa que partiu dele, ao saber que também sou escritor. Vez ou outra, ele compartilha a sua luta diária para fazer o seu trabalho chegar aos leitores, dentro dos caminhos alternativos e valores que o direcionam. Já enfrentou censura de feira, foi perseguido por conservadores, viveu situações delicadas. Isso é o que eu sei, mas imagino que tem muito mais. Enquanto é ácido na escrita, é muito doce no trato, inclusive nos comentários.

Ler “Os ratos vão para o céu” fortificou ainda mais em mim a imagem de Vitor como um exemplo de escritor independente (como tantos) que, fugindo dos modelos tradicionais e enlatados de publicação, está construindo o seu caminho de forma bastante plausível. Na minha humilde opinião como leitor, jornalista e escritor também autônomo, tenho certeza de que ele ainda fará muita história.]
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