Entrevistas

No limiar do canto e da narrativa: Uma entrevista com Lucas Mattos por Ana Luiza Rigueto

Após publicar seu quinto livro, ‘Na estrada’, o poeta e performer Lucas Mattos reflete sobre ritmo, narrativa, o espaço do poema e a paixão pela canção brasileira.


O poeta e performer carioca Lucas Mattos lançou em novembro de 2025 seu quinto livro, Na estrada (7 Letras), reunindo poemas apresentados para plateias ao longo dos últimos dez anos. A publicação marca uma trajetória em torno da experimentação com a oralidade e a performance. Seu caráter narrativo, satírico, sonoro e autobiográfico dá indícios da busca por convocar um público presente, como no palco.

Nascido no Rio de Janeiro em 1985, Lucas Mattos atua como profissional do campo das artes há 15 anos. As influências para o seu trabalho vêm não só da literatura, mas do teatro, da música e das artes em geral. Entre as suas referências mais evidentes: a estadunidense Laurie Anderson, que trabalha entre performance, canção e artes visuais, produzindo narrativas. 

Na entrevista, o autor fala do papel da repetição e do ritmo no seu trabalho, da importância de preparar o espaço do poema, da relação com a canção brasileira, da formação como ator e de como atuar como professor de literatura na Educação Básica se reflete em seu fazer artístico.

Confira a entrevista na íntegra:

“Acho difícil imaginar uma característica que os poetas, todos, compartilhem”, diz Lucas Mattos, autor de ‘Na Estrada’

Ana: Lucas, qual é a magia da repetição e do ritmo no texto?

Lucas: O ritmo, num primeiro momento, é algo que acontece sem que a gente se dê conta. Por exemplo, no nosso corpo, há movimentos que têm alguma organização rítmica. A gente, no dia a dia, não controla exatamente nem está completamente consciente disso. Escolho começar lembrando disso porque, quando a gente vai direto falar sobre textos ou obras, é comum confundir o ritmo com uma das estratégias para produzir ritmo. Existem estratégias narrativas, poéticas, musicais, algo que a gente pode desenvolver como técnica, tecnologia ou magia, como você diz na pergunta, né. O problema que essas estratégias abordam é sempre algo na linha de “como organizar recorrência e variação” num conjunto de movimentos. A vida cotidiana parece caótica porque seus padrões de organização de movimento são inconstantes ou aleatórios ou desarticulados, na nossa percepção. Então, um texto para ser percebido de outra maneira precisa desse trabalho. No caso específico do Na estrada, eu notei que a maioria dos textos que eu vinha fazendo se estruturavam a partir de um refrão qualquer, que eu falava quase sempre no limiar do canto, em contraponto a trechos narrativos, que se aproximavam mais ou menos da velocidade mais fragmentada da fala. Pra mim, essa forma dos poemas vem de uma vida de paixão pela canção brasileira.

Ana: A poeta Angélica Freitas, que é uma forte influência pra você, inclusive, já falou em entrevista que “Poetas são sensíveis demais, poetas precisam ser sensíveis demais”. Você concorda?

Lucas: Antes de concordar, lendo essa declaração, eu lembro é de Bethânia cantando. Olha, eu conheço um bocado de poetas porque lancei uma revista de poesia, Bliss, com Marcio Junqueira e Clarissa Freitas em 2009. Trabalho com poesia desde então. O trabalho do coletivo Bliss sempre foi um trabalho de poesia voltado pro convívio. Não só dos editores, inclusive devo mencionar que desde 2013, além do trio inicial temos o Thiago Gallego também no grupo. Mas convívio com outros poetas a partir de convites de participação, gravação, publicação. Acho difícil imaginar uma característica que os poetas, todos, compartilhem. Talvez eu sugeriria deslocar a frase dos poetas pros poemas. Poemas são sensíveis demais na medida que poemas nos sensibilizam. E aí, valem os dois sentidos de sensível – nos sensibilizam como o que sentimos, emocionalmente, e nos sensibilizam como o que percebemos, o que entra no círculo da atenção dos nossos sentidos.

Ana: Sua publicação mais recente, Na estrada (7Letras), reúne poemas escritos e apresentados por você em performances ao longo da última década. Dá pra dizer que você é uma espécie de dramaturgo de si mesmo?

Lucas: Outra artista que eu amo é a Laurie Anderson, e em entrevistas recentes, ela comentando como já se definiu ao longo das décadas de trabalho, mencionou expressões que hoje considera inadequadas, como “artista multimídia”. De modo que é sempre um risco a gente tentar se definir quanto a nosso trabalho. Mas, hoje, Laurie se satisfaz com a ideia de que é uma contadora de histórias. Pessoalmente, eu gosto de pegar essa definição pro que eu faço, porque seja no palco, seja escrevendo, entendo que estou sempre contando uma história. Até porque é muito raro que escreva algo sem um elemento narrativo, ou pelo menos dramático. A cena e o texto têm como ponto em comum a falta de um material objetivo de trabalho, no sentido de que o trabalho do ator é sobre seu próprio corpo, e o de quem escreve sobre sua própria língua. Não tem um instrumento, não tem o que moldar separado de você. Isso não é necessariamente uma facilidade, como qualquer livro sobre a arte do ator diz logo de cara. É muito fácil você ficar perdido ou se sentir perdido. Ou então você pode entender que precisa escapar de si mesmo, e isso é o que é a arte. O que estou tentando dizer é que eu tenho uma dúvida aí – por um lado, não acho que as histórias que eu conto sejam sempre sobre mim ou sobre a minha vida. Por outro, não sei o quanto consigo contar histórias sem estabelecer uma relação, ainda que tênue, com o que vivi. O interesse de uma história, de qualquer forma, não está só no que se conta, mas em como se conta.

“As performances que fiz recentemente sempre tomei como ponto de partida a organização do espaço”, diz Lucas Mattos

Ana: O preparador físico e diretor teatral Jurij Alschitz defende que o preparo do espaço cênico no qual o ator trabalhará é tão fundamental quanto o seu preparo corporal: “É necessário preparar o ambiente que nutrirá energicamente o ator. Vocês precisam aquecer o ar no qual seu balão voará.” Sinto que nos seus poemas algo semelhante acontece. Primeiro um preâmbulo ou aquecimento, que se desdobra em progressões até que o balão aterrissa. Como você constrói o fôlego dos seus poemas?

Lucas: Eu gosto muito da ideia de que o espaço onde você se situa é muito importante. As performances que fiz recentemente sempre tomei como ponto de partida a organização do espaço. Mas mais que para apresentações apenas, acho que isso vale pra escrita e pro trabalho do artista como um todo. Onde você se encontra, onde você se situa quando usa a palavra? Se você desculpa o excesso de citações da Laurie Anderson (é ligeiramente uma obsessão, de fato), numa das suas Norton Lectures, ela dizia que às vezes sentia um incômodo com “realidades virtuais” porque faltava ar naqueles ambientes simulados. Acho que são perguntas fundamentais: de onde alguém está falando nessa história? Para quem? Como estamos nesse espaço, qual a sensação de estar aqui ou ali e como desse ponto no espaço os outros são percebidos?

Ana: Além de poeta e ator, você também é professor de literatura. Tem alguma coisa que a performance em sala de aula te ensinou para as suas performances artísticas?

Lucas: Acho importante dizer que sou professor de literatura inserido principalmente na Educação Básica. E talvez por isso, eu nunca penso exatamente no trabalho de sala de aula como uma performance. Agora, se existe uma coisa que o trabalho na sala de aula impõe é um aprendizado da escuta. É um aprendizado especialmente difícil quando os alunos se expressam de um modo inesperado ou de um modo que você não considera adequado. Isso nem sempre é ofensivo, muitas vezes é só extremamente desafiador. Dar aulas pra estudantes adolescentes significa que é possível que um dia alguém comece a chorar, sem motivo aparente em sala de aula. E você, como professor, não pode fingir que não viu e tocar seu planejamento ou continuar falando sobre conteúdo. Outras vezes, você não consegue não perder a paciência. Mas o que importa da sala de aula é que você vai estar ali de novo, e vai ter preparado seu material e vai voltar a conversar com os estudantes. Pode ser que amanhã consiga escutar o que não conseguiu hoje. É delicado, mas existe a chance de você chegar e falar “ontem eu errei, vamos tentar de novo”. Enfim, acho que isso pode trazer lições pra como lidar com uma situação de performance e se manter presente, ou atento.

Ana: Festa estranha é uma performance poética que você tem levado a palcos e eventos literários. Conta um pouco como tem sido essa experiência.

Lucas: Olha, não foi exatamente planejado dessa maneira, mas essa performance acabou sendo um reencontro com o palco, com o fazer teatral. Desde Jardins Portáteis, espetáculo da Cristina Flores que fui fazer uma participação e fiquei o resto da temporada por lá, quer dizer, desde 2015 que eu não estava num palco, num espetáculo mais longo. Além disso, Festa estranha tem a intenção de trazer elementos diversos da minha carreira. No Festa estranha, tem poemas que eu fiz há muito tempo, e poemas mais recentes, que fiz pra essa performance e outros que ainda não saíram em livro. Mas também quis trazer elementos da minha carreira de ator. Então, eu trouxe os mamulengos da Companhia Teatral Nosconosco, onde trabalhei 10 anos, dirigido pela Célia Bispo e pelo Roberto Dória. Há também outras referências, implícitas. Logo no início, faço um poema em uma cena com lanternas que foi pensada a partir da montagem da adaptação de Através do espelho que a gente fez em 2009. E nesse reencontro com o palco tem outras descobertas que estamos elaborando no momento. Por exemplo, é importante destacar que, como todo fazer no palco, é um trabalho coletivo, dividido num primeiro momento principalmente com a Gabriella Ehms (co-produtora, aderecista, contrarregra) e com o Dimitri BR, que fez a trilha e que sempre que pode participa de alguns poema-cenas. Quando a gente se apresentou no teatro da Queerioca, Nádia Mello, minha irmã mais nova, também participou de perna de pau no final. O fato é que tudo isso causou na gente uma vontade de estar em teatros, também, e por isso estamos no momento trabalhando pra aumentar o tempo do espetáculo e a equipe.

Ana: Quais são os seus livros de cabeceira, aqueles que você sempre torna a ler ou que te constituem de alguma maneira?

Lucas: Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, e Fernando Pessoa, principalmente O guardador de rebanhos. Tudos, do Arnaldo Antunes. Angélica Freitas, tudo, mas em especial, Rilke shake. Nelson Rodrigues, tudo, mas em especial, O beijo no asfalto e Senhora dos afogados. E vou incluir um disco de canções (teria tantos outros), mas não pode faltar Caymmi, em especial, Canções praieiras

Ana: Já tem planos para um próximo livro ou performance?

Lucas: Festa estranha encerra com alguns poemas do que estou chamando de Os poemas da morte. Comecei a escrever esse conjunto de poemas em maio de 2024, pensando em fazer uma série de até 7 poemas, e isso tomou a minha produção de uma tal maneira que virou uma seção de um livro e finalmente um livro inteiro. Durante algum tempo, eu só pensava em novos poemas pra esse livro. Cheguei a me dedicar a um percurso de leitura de uns 30 livros com “morte” ou “mortos” no título. E tirei licença neste segundo semestre de 2025 para poder trabalhar nisso. O livro já está, de certo modo, completo. Estou na terceira versão, polindo, tirando poemas, enfim trabalhando. Também tenho vontade de pegar os poemas de Na estrada e montar uma apresentação pra rua. Mas isso ainda preciso elaborar mais.

Na Estrada, de Lucas Mattos
Editora 7letras, 2025
80 pp.

Ana Luiza Rigueto é poeta e jornalista, doutoranda em Literatura (UFRJ), crítica literária, criadora da Trampolim e autora das plaquetes TeatrinhoBodybuilder e Maria & Maria.