
A Literatura como antídoto ao esquecimento
Ao devolver a palavra àquela que a história tentaria calar, Hatoum transforma sua trilogia em meditação sobre o poder da memória e, sobretudo, sobre a violência do apagamento.
Foto: Hamyle Nobre/ Reprodução
A trilogia O Lugar Mais Sombrio, de Milton Hatoum, composta por A Noite da Espera, Ponto de Fuga e Dança de Enganos, consolida-se como uma das empreitadas mais significativas da ficção brasileira contemporânea. Ao finalizar o arco narrativo com Dança de Enganos, o escritor amazonense reafirma sua vocação para transformar a intimidade de um personagem em leitura crítica da história do país.
A trajetória de Martim configura uma narrativa de formação em que o drama privado e o trauma coletivo caminham sobrepostos. Sua juventude se desenrola sob a sombra de duas ditaduras: a que enrijece o corpo e a alma de sua família, e aquela que, instaurada em 1964, deforma o horizonte de toda uma geração. Assim, a ficção de Hatoum evidencia como a brutalidade do poder infiltra-se nos laços afetivos, convertendo o espaço doméstico em extensão do autoritarismo estatal.
No primeiro volume, A Noite da Espera, Brasília surge como o estuário de um projeto nacional inacabado, um gesto modernista grandioso, mas erguido sobre o concreto duro da exclusão e da repressão. A cidade, cuja própria construção guarda traços de violência, torna-se o cenário simbólico da formação sentimental de Martim: um jovem submetido ao autoritarismo paterno e marcado pela ausência da mãe. A intimidade ferida espelha a cisão do país: enquanto o regime militar desmantela sonhos coletivos, o personagem vê sua própria família esfacelar-se.
Em Ponto de Fuga, o deslocamento para São Paulo amplia o espectro do romance. Estudante de arquitetura, Martim insere-se em um ambiente intelectual efervescente, mas progressivamente sufocado pelos sucessivos AIs. O jovem tateia formas de pertencimento à cidade, à militância, a um amor inicial, enquanto a ausência da mãe permanece como ferida aberta. O íntimo e o político se entrelaçam: a busca de liberdade, de sentido e de identidade é sempre atravessada pelo medo e pela clandestinidade, compondo o retrato de um sujeito fragmentado, difícil de decifrar até para si mesmo.
É somente em Dança de Enganos que o ciclo se ressignifica. Surge enfim a voz de Lina, a mãe desaparecida, cuja sombra havia guiado a memória dos volumes anteriores. Ao conceder-lhe a narrativa, o autor realiza um gesto ético de restituição: aquela que esteve silenciada retorna para iluminar o “lugar mais sombrio”, que é também o território apagado da memória. A voz feminina reabre o passado, interroga-o e subverte a ordem do esquecimento.
Ao deslocar a figura materna do lugar previsível da eterna abnegação, Hatoum recusa o estereótipo da mãe-salvadora. […] É nesse ato de recusa que o romance instaura uma crítica pungente ao ideal materno patriarcal: amar pode significar partir e sobreviver.
Lina vive em estado de luto amoroso permanente. Antes de renunciar ao filho, já renunciava aos próprios desejos desde a juventude, atravessada pela presença de uma mãe narcisista, depois na vida adulta, para sobreviver em meio à violência conjugal e aos condicionamentos patriarcais que a empurram para fora da vida que lhe caberia. O exílio que ela experimenta não é apenas geográfico: é um exílio afetivo, emocional. Em Fragmentos do Discurso Amoroso, Roland Barthes descreve esse “exílio do imaginário” como a dor de permanecer longe de quem se ama, exatamente o que atravessa Lina. Sua resistência está no gesto de afastar-se, quando permanecer significaria sucumbir.
Ao deslocar a figura materna do lugar previsível da eterna abnegação, Hatoum recusa o estereótipo da mãe-salvadora. Lina encarna uma alteridade radical, movida pela necessidade de preservar-se. É nesse ato de recusa que o romance instaura uma crítica pungente ao ideal materno patriarcal: amar pode significar partir e sobreviver.
Nesse ponto, vale lembrar o que afirma Olga Tokarczuk, em Escrever é Muito Perigoso: “A literatura, ao criar mundos de surpreendente condição ontológica, nos faz ir além de nós mesmos e permite que participemos de uma experiência que, caso contrário, não seria acessível para nós.”
Quando Tokarczuk defende essa abertura radical ao outro, sublinha aquilo que a trilogia de Hatoum realiza exitosamente: o livro como lugar de experiências que não vivemos, mas que nos atravessam. A literatura amplia nossos horizontes morais e afetivos, oferece acesso a vidas e dores que, de outro modo, permaneceriam invisíveis. Se nossa leitura de mundo muda, é porque os mundos criados pela ficção nos deslocam e, nesse deslocamento, nos transformam.
Ao fazer o leitor habitar os silêncios de Lina, a perplexidade de Martim e a fratura de um país sob repressão, Hatoum confirma essa potência. Não se trata apenas de narrar o passado, mas de permitir que nele entremos, com tudo que essa aproximação tem de inquietante. Em tempos em que o autoritarismo ainda ronda o imaginário nacional, Dança de Enganos nos recorda que a literatura é uma das poucas instâncias capazes de nos tirar de nós mesmos, para que possamos reconhecer o outro e recusar o esquecimento.
Hatoum nos lembra que, diante da violência, escrever é mais que insistir, é negar o apagamento. O Lugar Mais Sombrio existe, enfim, para iluminá-lo.
Ao devolver a palavra àquela que a história tentaria calar, Hatoum transforma sua trilogia em meditação sobre o poder da memória e, sobretudo, sobre a violência do apagamento. O gesto de narrar não é aqui mero registro; é resistência. O autor escreve com precisão: nenhuma palavra sobra. Sua prosa confia na potência do não dito, do que se insinua nas ruínas dos afetos. Ele dança com a língua, e, como lembra Barthes, a dança pode ser o rastro de uma luta. A luta com e contra as palavras, porque para o escritor a língua sempre é insuficiência e resistência ao mesmo tempo.
Essa trilogia, ao final, não se revela apenas como saga familiar. É um registro da fratura brasileira, uma reflexão sobre o que permanece quando o Estado tenta calar e quando a memória ameaça se perder. Hatoum nos lembra que, diante da violência, escrever é mais que insistir, é negar o apagamento. O Lugar Mais Sombrio existe, enfim, para iluminá-lo.
Além de ser uma das vozes mais potentes da ficção brasileira de hoje, Milton Hatoum carrega consigo a força de quem, em boa parte de sua obra, escreve o Amazonas — essencialmente a capital Manaus — sem jamais permitir que essa origem seja reduzida ao exotismo ou ao clichê da floresta como espetáculo. A entrada (recente) de Hatoum na Academia Brasileira de Letras tem um peso simbólico enorme: é como abrir uma fresta de luz sobre tantas outras autoras e autores que vivem e criam no estado, mas que ainda não alcançam o mesmo espaço no cenário nacional, apesar da qualidade imensa de suas obras.
Embora Hatoum não costume destacar outros artistas amazonenses em suas entrevistas, algo que considero uma falha, mas pode decorrer simplesmente de escolhas pessoais ou de seus próprios focos temáticos, sua obra, pela força e pela visibilidade que alcança, acaba funcionando como um convite para que leitores se interessem por novas vozes do Amazonas. Assim, espero que, aos poucos, a literatura do estado se torne mais amplamente descoberta, reconhecida e celebrada como merece.
Leia também: A alma em flor de Florbela Espanca


