A distração possível

Toda diferença é uma chance

Há todo tipo de gente — e essa é a graça. A soma das diferenças é a prova dos nove. O que fazemos a partir disso talvez possa nos orientar nesta existência.

Arte de Andreas Gursky(Paris, Montparnasse II, 2025, inkjet print, Diasec © Andreas Gursky/ADAGP, Paris, 2025).


Mestre não é quem sempre ensina, 
mas quem de repente aprende.
João Guimarães Rosa

Responda assim, na lata: quem você já julgou hoje? O tombo de braço no metrô, o olhar triste na fila do banco, a risada despretensiosa no elevador, seu chefe (a), colega, pai, mãe, irmão(ã), companheira(o)? Quem passou sem deixar de levar uma bifa moral no pé da orelha? Calma, estamos todos nessa — a medida da mudança é o tom da nossa dor de cabeça no fim do dia.

O nome mais longo de uma cidade vem do País de Gales, em Anglesey. Com cerca de 3 mil habitantes, chama-se Llanfair­pwllgwyngyll­gogerychwyrn­drobwll­llantysilio­gogogoch. Eu sei, é impronunciável, mas talvez aí é que more a distinção entre um nome e um nome. O que provoca nas pessoas é sempre uma oportunidade.

Há quem goste de abrir os braços quando pedala. Há também quem cheque todas as portas e janelas da casa antes de dormir. Existe um tipo de pessoa para cada dia e um tipo de dia para todas as pessoas. É nesse exercício diário de aceitação que penso morar o segredo de declinar a qualquer verdugo destino, ou de repetir sem questionar, ou simplesmente me deixar levar fechando os olhos para as dores do outro, muitas vezes ao nosso lado. Há tempos tento seguir uma postura difícil: observar, me colocar no lugar e não julgar. Há todo tipo de gente — e essa é a graça. A soma das diferenças é a prova dos nove. O que fazemos a partir disso talvez possa nos orientar nesta existência.

Descobri há pouco que o cérebro de Albert Einstein é mantido em uma solução de etanol e álcool etílico. A ambição sempre foi estudar o órgão e tentar descobrir explicações para sua genialidade. Isso dividiu opiniões, pois nada se sabe sobre o cientista ter permitido experiências e estudos com seu corpo depois da morte, nem sobre o consentimento de sua família. Eu prefiro lembrar de uma característica que até hoje me fascina pelo estranhamento que causa nas pessoas: Einstein separava uma hora diariamente apenas para pensar — só ficar lá, paradão, de papo para o ar. Acho que essa seria uma salvação para um grande número de patologias que percebemos hoje nas cidades. Será que você acredita mesmo nisso?

“Existe um tipo de pessoa para cada dia e um tipo de dia para todas as pessoas.”

Tiago D. Oliveira

Certa vez encontrei alguém que tinha, no céu da boca, um sol. Toda vez que a abria, cegava os olhos de toda a gente. Calou — seria a sua religião. Como as frutas no quintal, tinha uma imagem simples. E assim foi se moldando diante dos olhos dos cimos da cidade. Sua idade se perdia, mas guardava um ar primaveril à riste. Toda a força de inquisidores sucumbia diante de respostas que lembravam Macondo: O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e, para mencioná-las, era preciso apontar com o dedo. O primitivo dançava como um deus, e só de lembrar tenciono o instinto frágil da saudade. Ele foi um grande amigo. E, da mesma forma que surgiu, se foi na imensidão de uma tardinha. Depois, se achegaram outros durante toda a minha infância e juventude: Bira, Tá Limpo, Seco, Gilbert, César, Lizete, Téia. O escritor português Mário de Sá-Carneiro tinha uma afirmação muito interessante sobre isso. Dizia ele que “loucura é questão de maioria”. Ou seja, se a minoria é acometida por questões mentais e a maioria é tida como “normal”, logo essa é a grande loucura — loucura é questão de maioria. Assim gira o contexto e a semântica do que todos consideram loucura. Novamente: um diferente, uma oportunidade para nós. Os estranhos sempre foram uma faculdade inteira.

Na tardinha de ontem, me comoveu a forma como um jovem escalou a grade da jaula de uma leoa no zoológico de João Pessoa, na Paraíba, e, de repente, se lançou para a própria morte. Depois lemos que ele já havia passado por prisões e outros tipos de tentativas de contenção. Mas como conter o que a sociedade condena ao ridículo, força ao limite, até às últimas consequências? Como conter aquilo que você não reconhece como um ser que precisa de outro olhar, e não apenas de contenção? A bandeira do amor pode sempre começar pelo olhar, pela atenção de ler verdadeiramente o outro.

Muitas vezes já me tomaram por tolo, por causa do silêncio, do delay, do déjà vu, dessa coisa mansa que não se detém e acaba me salvando. Eu gosto do mistério que há em Clarice. Também da psicografia em Hamlet: “There are more things in heaven and earth, Horatio, than are dreamt of in your philosophy.” Tudo me parece possível quando o coração está aberto e ainda não se perdeu diante dos dias, pois o correr da vida embrulha tudo, como disse Guimarães Rosa. Precisamos aproveitar as pequenas chances.

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