
Carta-canoa para minha avó
Sim, vó, antes mesmo de saber do córrego, do riacho, do rio, eu tinha pensado em escrever essa carta-canoa e colocá-la para navegar pela correnteza até que se incorporasse à impermanência, ao torvelinho do rio, esse palavreio desordenado, essas aquocidades…
Arte de Aline Motta (série ‘Outros Fundamentos’) – Reprodução.
Vó,
Soube, agorinha mesmo, que a senhora falava sobre um córrego, riacho, rio – o Tuco não soube me dizer ao certo qual nome a senhora chamava, quando, com as mãos rentes à superfície da água, evocava as forças todas femininas, seus círculos infinitos. Movimentava os braços como quem molda um universo de maternidades, de avozidades, de ancestralidades pretas paridas a cada respiração, sintonizada com o trêmulo e tênue existir das folhas ao vento, das veias, da seiva, desse seu canto atemporal que faz nossas deusas dançarem sobre esse córrego, riacho, rio…
Isso, das forças femininas, das mãos que as evocavam, o Tuco não me contou não, foi fabulação minha. É que desde que nos reencontramos, Vó, o Tuco e eu, ele tem me embebido com memórias, em falas e fotos, e a essas se somam as minhas e, a elas, a imaginação. E quando, agorinha mesmo, o Tuco falou sobre o córrego, o riacho, o rio, sobre esse fluxo de palavras difusas, de significados margeados por incertezas, de intuições submersas em desejos de reabitar o Tempo, de sentidos molhados, Vó, eu me dei conta de que a ideia de entregar essa carta-canoa às águas foi arte das linhas escritas pelo Espírito. Sabe, o Espírito? Em sua disformidade, sua reticência… Foi Ele quem teceu, tece, tecerá esse presente desalinhavado, esse cosmos onde o seu e o meu Tempo são um só, um só, agora, agorinha mesmo. Como um obi alafiando a vida.
Sim, vó, antes mesmo de saber do córrego, do riacho, do rio, eu tinha pensado em escrever essa carta-canoa e colocá-la para navegar pela correnteza até que se incorporasse à impermanência, ao torvelinho do rio, esse palavreio desordenado, essas aquocidades… Deito-me sobre a superfície e me deixo levar, água rolando sobre si, água derramando-se em si, água desaguando-se, sendo água-palavra, palavrágua, náufraga na abissal Memória que emerge como presente da existência, esses tesouros cobertos de musgo, marcados pelos séculos, e que agora se apresentam para mim em falas e fotos e, somadas a elas, o Retorno ao não-Tempo das lembranças que fazem de nós, Vó, da senhora, do Tuco, de mim, partículas-palavras: materializam-se, materializam-nos… Como o ponto de pemba riscado no chão da nossa crença.
(Continua depois da imagem)

O gesto que a senhora fazia com as mãos, manipulando energias enquanto balbuciava rezas que eu não ouvia, mas compreendia, consigo sentir esse gesto, consigo tocar o sol que pousava sobre sua pele, tocar a sua pele, as veias, as seivas, os poros, o pouso de sua fé, da fé de nosso povo, consigo tatear a História, consigo me ver vendo, Vó, me ver sendo…
E é por isso que nesse rio, córrego, riacho, onde agora, agorinha mesmo, deixo essas palavras, a reverencio, Vó, ajoelho-me diante dessa voz-e-rio e beijo sua mão, mão de tantas águas, tantas bênçãos, tantas deusas, tetas pretas que alimentam nossas almas, amém e para sempre,
do seu neto,
seu “tranqueira”,
Antonio.
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