Entrevistas

O direito de brincar no ‘Terreiro Enluarado’ de Rádi Oliveira e Carol Fernandes

Uma conversa com Rádi Oliveira, que junto com Carol Fernandes é autora do livro para as infâncias ‘Terreiro Enluarado’ (Editora Quatro Cantos, 2024).

Ilustração de Carol Fernandes.


É noite, mas é noite clara, de lua cheia.

Dá para sentir o frescor do sereno no ar e o silêncio pintado de sons de bichos. As crianças querem sair para brincar na noite. Pedem para a mãe, com jeitinho, dizendo que a lua está lá no céu para iluminar os caminhos e protegê-las.

“Lá fora não está tão escuro, mamãe, tem lua pra clarear!”

A noite, essa mesma, tantas vezes sinônimo de medos e perigos. A noite na qual a severa tradição dos adultos ordena que a criança deve estar dormindo, protegida dos malefícios do invisível.

Mas esse não é o caso em “Terreiro Enluarado” (Quatro Cantos, 2025), livro para infâncias, escrito por Rádi Oliveira e ilustrado por Carol Fernandes. Obra de frescor em proposta e encantamento, na qual a noite é um convite da lua, para que as crianças descubram — entre o céu e a terra — o espaço em que são livres para brincar e descobrir o mundo.

Na força de uma cantiga com jeito ancestral, a conversa saborosa entre poesia escrita e visual povoa de deslumbre a amplidão dos sentidos. E faz isso sem exagerar em magias espetaculares, mas apostando em rimas e cores elegantes, que revelam sabedorias simples a partir do olhar encantado das crianças. Um barquinho de papel na lagoa nos lembra dos pescadores que se guiam pela lua, as folhas abundantes amaciam os gestos do povo que faz roçado, os sapos coaxando criam escopo para cantorias antigas, ecoando no uivo dos cães que se enamoram da lua tanto quanto os poetas.

Não há fantasias delirantes ou piscadelas de astros, ainda que seja noite também de crenças vivas, sob a proteção de São Jorge e das suas espadas verdes nas mãos das crianças, que descobrem os caminhos dos antigos para superar o medo do desconhecido.

A poesia de Rádi Oliveira também retoma a observação empírica dos astrônomos enquanto os cabelos das crianças, com seus penteados africanos, redondilham planetas através da mão generosa de Carol Fernandes, que produz uma visão elástica do enredo. Em um dos momentos mais belos do livro, a poesia dá a volta nas bordas das páginas e o livro vira objeto, que nos envolve para girar para descobrir a sensação da lua acompanhando os movimentos do nosso brincar.

“Se eu corro, ela corre e se eu pulo, ela pula”.

Sempre digo que magia de criança é a mais poderosa e nesse livro que se dispõe a ser brinquedo e portal, começo a perceber o terreiro. Um campo aberto, cheio de sentidos possíveis, abrindo a trilha do quintal para o mundo. Um espaço seguro, físico, mas também imaterial.

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“O próprio território/natureza é o brinquedo que cuida da gente lá fora”, conta Rádi Oliveira, autora de ‘Terreiro Enluarado’

Rádi Oliveira, autora de ‘Terreiro Enluarado’ (Divulgação)

Guilherme: Rádi Oliveira, com sua licença, pode nos falar um pouco mais sobre os terreiros que permearam sua escrita nesse livro?

Rádi: Sim. Ainda mais quando se trata de infâncias, esses terreiros serão tantos, principalmente pra gente que se esqueceu e desaprendeu de brincar, de se assombrar ou se encantar com a Natureza.

E os terreiros que caminhei, (re)visitei ou imaginei para essa escrita, passam pelo terreiro da minha própria infância até a dos meus filhos (sou mãe de três) terreiro-passado, terreiro-presente, terreiros possíveis de toda gente brincar de qualquer idade ou lugar… Onde o próprio território/natureza é o brinquedo que cuida da gente lá fora, mesmo no escuro, aos sons dos mistérios — e o que faz esse jogo é a magia de se conectar nessa tecnologia de recursos extremamente sofisticados para os nossos cinco sensores naturais: a natureza, nessa escrita-convite, lembrança ou alerta para que a gente não se distancie ou esqueça que somos e fazemos parte dela.

Guilherme: Dá para perceber. Em “Terreiro Enluarado”, a gente relembra que a brincadeira é também um modo de conhecimento, uma ciência. As crianças querem contar as estrelas no céu, querem descobrir se ela é feita de coco ou de queijo com pedaços de rapadura. Se essa curiosidade não é a base de todo conhecer, se a criança é esquecida, o conhecimento vilifica e serve aos interesses de quem desmonta a natureza em pedaços de minerais, desfazendo suas redes.

Inclusive, Rádi, fiquei com vontade de te ouvir mais. E ouvir mesmo, já que “Terreiro Enluarado” tem clima de cantiga. Você trabalha há tempos trazendo à musicalidade da poesia à tona. Também já te vi cantando partes da poesia de “Terreiro Enluarado”. Queria que você falasse um pouco sobre a musicalidade e a poesia neste livro e como essas expressões se encaixam num livro voltado às crianças.

Rádi: Há uma musicalidade e uma poesia na minha vida que eu não sabia que era bonita, importante a ponto de ser apresentada. Havia de existir simplesmente e eu gostar. O Terreiro é parte dessas coisas que a gente viveu ou vive e só a gente consegue e pode contar.

Tem um trecho da escrita do livro que eu passei a cantar para os meus três filhos (Celena, Lísias e Tereza) cada um a seu tempo — sempre falei da lua e mostrava a lua para eles e você me fez lembrar agora que pra Celena eu cantava de ninar a música “A Lua Girou “gravada por Milton Nascimento, a do Lísias foi “A Lua” aquela com MPB4 e, para Tereza, todas as luas anteriores e mais as cantigas de ninar de cada um que eu criei. Assim o TERREIRO vem de pedacinhos das coisas que eu ia falando, mostrando para eles e dizendo como era no meu tempo de criança. O trecho do livro que eu ia falando para os dois mais velhos e depois passei a cantar como introdução para Tereza foi:

“Lua  lua nova
Lua lua cheia
Lua no seu quarto minguante
Lua crescente brilhante
Lua que nos clareia”

Um chamamento para procurar e se encontrar com a lua toda noite, até quando ela “não estava lá”.

Então eu já tinha musicado todo o texto antes de virar livro, ele já tinha “roupinha ou travesseiro de canção” me vestindo de ideias e me fazendo sonhar.

E chega assim mesmo né — um livro cantiga de brincar para ninar.


Guilherme: É bonito demais pensar em toda essa música e oralidade na voz maternal, que embala o livro para nos dar bons sonhos. Inclusive, pensando nessa comunicação entre as diferentes artes, há uma grande harmonia entre a sua cantiga-poema e a ilustração de Carol Fernandes, que não apenas ilustra as palavras, mas conversa com elas. Acho interessante, por exemplo, quando o texto diz “rua”, mas nós vemos um espaço que mais parecem colinas na roça, em que uma casinha solitária faz paisagem. Pode nos falar um pouco sobre o encontro entre a poesia escrita e a poesia visual desta artista?

(Continua após a ilustração)

Ilustração de Carol Fernandes para o livro ‘Terreiro Enluarado’ (Reprodução).

Rádi: Carol Fernandes é genial, não apenas pelas competências técnicas que envolvem suas pesquisas, profissionalismo e escolhas. Quero dizer que mais que profissional ela é essencial de ESSÊNCIA mesmo, de profundidades, poéticas logo, humano-maravilhoso.

Ela traz essa rua, espaço aberto assim como o frescor da noite e essa luz de lua que dá um tom divino na pele negra das crianças retratadas. E sua autoria narrativa visual é um livro a parte da palavra/poema escrita — a surpresa do não dito, do humor, das referências que estão em coisas como a espada de São Jorge brincando com o cachorro lobo dragão da lua ser a espada de Ogum nas mãos de três crianças, que trazem em suas cabeças penteados de um povo africano se tornando outros astros e mundos possíveis no universo do Ori dos erês.

E assim a poesia escrita com letras se encontra com a poesia de luz em tintas não para se misturarem e serem uma coisa só, mas apontarem uma coisa ou outra, sugerir… se abraçarem numa boa conversa… sem fim de acabar, porque a gente fica, com a ajuda de Carol, quando as crianças dormem, elaborando seus sonhos e até o romance dos sapos.

“Venho descobrindo que escrever um texto para crianças é muito diferente de publicar um livro para as infâncias”, diz Rádi Oliveira, autora de ‘Terreiro Enluarado’

Guilherme: Já que estamos mergulhando nos processos. Sei que o seu encontro com a editora foi muito precioso. Pode nos contar um pouco sobre esse mundo de criar livros para crianças?

Rádi: Essa pergunta vale um TCC. Por que venho descobrindo que escrever um texto para crianças é muito diferente de publicar um livro para as infâncias. Como venho aprendendo — não sei dizer (risos).

A Editora Quatro Cantos é feita de gente-ESSÊNCIA também — Renato Potenza Rodrigues o fundador/editor e Rosana Martinelli,  publisher e diretora de arte — eles são um presente de Ananda Luz (Curadora de Artes, Mediadora de livros e Leitura, Mestra em Ensino e Relações Étnico-Raciais. Especialista n’O Livro para Infâncias: processos contemporâneos de criação, circulação e mediação — Casa Tombada…) madrinha do Terreiro Enluarado. Foi ela quem apresentou um texto meu para Rosana e o texto era outro, que será livro ano que vêm — vixi — falei em primeira mão aqui que já tem outro bebê sendo gerado…

Então a Quatro Cantos e eu já estávamos conversando sobre livros e de uma forma muito bonita eles me receberam e cuidaram de tudo, principalmente de uma gestante de livro de primeira viagem, como Ananda madrinha disse que eles fariam: “Rádi, eles são maravilhosos. Não tem melhor lugar para seu livro e você nascerem”.

Rádi Oliveira, autora de ‘Terreiro Enluarado’ (Divulgação)

É emocionante lembrar. E desde então eu posso dizer que o mundo de criar livros para as crianças com eles tem sido maravilhoso de descobertas e saberes compartilhados. A Quatro Cantos tem uma escuta atenta, respeitosa e afetuosa de seus autores (da palavra e da imagem) e envolve a gente em todos os processos, participamos de conversas e escolhas sobre o projeto do livro. Carol Fernandes compartilhava o processo dela também… Uma importante oportunidade que eu tive em aprender algumas coisas como, quais perguntas fazer para mim mesma do que pretendo ou sinto do livro e sua potência de vir a ser, mais de que forma? Defendendo o quê? Para quem?

Guilherme: Rádi, muitos livros infantis trabalham com algum tipo de moral ou ensinamento. O de vocês parece seguir um caminho diferente e falar de forma natural sobre a lua e sobre a cultura ao redor dela em uma brincadeira inocente. Não temos vilão, conflito ou moral da história de forma direta, mas uma sensação de libertação dos medos da noite, que vibra o tempo todo na história. Como você vê esse aspecto mais “educacional” do livro, como poeta e como educadora?

Rádi: Aspecto “educacional” como poeta, educadora, mãe, e criança — o único mais importante é o aspecto humano de viver. No caso do livro, de viver o brincar.

O direito de brincar!

A gente não precisa escrever ou ilustrar o excesso de tela, por exemplo, para dizer que um livro como esse faz pensar no tema ou discute a importância de sermos natureza estando com ela.

E fazer um livro é escolher como dizer e nesse caso eu não disse sozinha. Ananda, Carol, Celena, Lísias, Radi, Renato, Rosana, Tereza… minha vó.  E todas as crianças, que existem viu, que estão brincando nesse exato momento em todo tipo de rua, viela, quintal terreiro, trincheiras de guerras daqui e de lá… Por que brincar é ESSENCIAL de uma maravilhosa forma divina e ancestral que livros e aspectos educacionais não explicam.

Será, o mundo todo

que cabe bola e lua,

um divino brinquedo

ou um livro

de poesia

nas mãos de uma “Criança-Deus”?

Tem coisas que não precisa explicar nada

Haha, né.

Obrigada.

Leia Também: Tesouros Escondidos no cotidiano: o texto sensível de Luciana Konradt em ‘Excesso de bagagem e outras crônicas’

Terreiro Enluarado, de Rádi Oliveira e Carol Fernandes
Editora Quatro Cantos, 2024
40 pp.