
Carta ao Poeta
Você seguiu em frente, poeta. Tenho em mim que, de alguma forma profunda, você confiou. Seguiu, pois confiou.
Arte de capa: “Eu vi o mundo… e ele começava no Recife” (Painel de Cícero Dias/ Reprodução).
Vai, Carlos! ser gauche na vida.
Carlos Drummond de Andrade
Para sempre, gauche.
Confio. Tinha tantas palavras que queria agora em minhas mãos, mas o coração existe na ponta da caneta que pulsa — sem que eu consiga controlá-lo. Sempre imaginei o som delas detidas em um ou outro tom da sua voz, em versos da lida, tão lidos em A rosa do povo ou no Claro enigma. Dizem que a menor distância entre dois pontos é uma reta, mas o que quase sempre se esquece é que isso só acontece se for em um plano. Qual seria o plano que acolhe a sua pena, poeta?
Tardei horas pensando no “colher a coisa oferta / que se abria gratuita”, liberta para o universo a partir de seu poema A máquina do mundo. Enigmei-me às tantas, por tanto tempo, esticando o elástico dos sentidos. Tentava recolher na imagem o que seria muito além: sua voz em constatações do paradoxo — o de ver entreabrir-se a máquina e, ainda assim, desdenhá-la, seguro e consciente. Isso também me faz pensar em Pessoa, ao criar seus heterônimos, como bem escreveu Antônio Cícero em outro momento, abraçando os inúmeros ângulos de um “outro eu” verossímil. Mas um poema sobre montar cavalos jamais será a própria raiz do vento no rosto quando o corpo balança ao cavalgar realmente, não é, poeta?
A ideia de que o mundo é uma máquina atravessa séculos, desde a Antiguidade até o Renascimento — e você sabia o quanto suas engrenagens são atemporais. Diante da linguagem, criou um arcabouço de imagens e sentidos para avistar uma “total explicação da vida” e, grandemente, não mais desejá-la. Você seguiu em frente, poeta. Tenho em mim que, de alguma forma profunda, você confiou. Seguiu, pois confiou.

precisamos de uma reinvenção possível…
Li recentemente que, desde junho de 2025, um dos objetos espaciais mais enigmáticos já observados pela ciência — o 3I/ATLAS — é o mais antigo objeto interestelar a passar nas proximidades da Terra, estranho por velocidade, composição e trajetória incomuns. Sua exposição na mídia foi suficiente para gerar inúmeros prognósticos sobre o fim da humanidade, além de tantos outros medos e mistérios inimagináveis. Numa semana em que o país ferve diante de notícias de violência, exibidas como mais um capítulo de um filme que arromba as portas da ficção e se impõe como realidade, lembro de um vídeo em que Chico Buarque dizia não saber o que seria de Vinicius de Moraes se ele ainda estivesse vivo — se aguentaria essa vida de hoje.
Diariamente, precisamos de uma reinvenção possível, sem grandes arpejos mirabolantes. Um contorno.
Em todo caso, penso sobre a luz líquida (este nosso mundo é mesmo de constantes descobertas): algo que contorna o obstáculo e se reconecta para seguir. Um superfluido. Mas o SPA insiste e parece água quando tentamos carregá-la nas mãos. Lembro de um senhorzinho levando, por entre os dedos em concha, até a sombra de um coqueiro, um pouco de água para que sua esposa, com dificuldade de locomoção, sentisse o mar mais uma vez. Um contorno, poeta? É bem assim.
Se a gente observar lentamente, algo desconhecido vem em amparo para criar uma nova perspectiva. Os cientistas chamam essa nova descoberta de Condensado de Bose-Einstein e a consideram o quinto estado da matéria — um contorno sob o filtro da grande corrente de informações.
Viver, pouco a pouco, segue a murmurar por menos informação. Nego que fui eu quem pegou o último pedaço de chocolate na geladeira. Amanhã, vou correr a 12 km/h, por 24 minutos. Dobro. Mas qual é o melhor repertório para um D1 sobre o tema da adultização e seus desafios no país? E a diferença entre conjunção e preposição, professor? Só daqui a 25 minutos terminam as aulas de hoje.
SPA é a Síndrome do Pensamento Acelerado. Está ligada também ao consumo de fluoxetina diariamente e de zolpidem para cavar o sono. Mas, como disse: superfluido. Imagino um contorno que reconduza de maneira mais orgânica e esperançosa, sem que sejamos todos experimentos, cobaias da constante busca pelas respostas salvadoras da máquina do mundo.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em Sociedade do cansaço, escreve que o sujeito contemporâneo não é mais o sujeito da disciplina, mas o da autoexploração. Viver, daqui para frente, será cada vez mais uma questão de conhecer as formas pelas quais a luz líquida transpassa nossos corpos e mentes — ensinando-nos com seu próprio curso. Pergunto-me o que você acharia disso tudo, poeta. Você, que nos legou a palavra mais certa, o verso que norteia como espelho o sentido de deixar para trás a “coisa oferta” e seguir o caminho de “mãos pensas”. E, assim, diluir o fechado achado em troca de um coração quente e ameno, confiante.
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