
A metamorfose na/da literatura contemporânea: uma leitura de ‘ASMA’, de Adelaide Ivánova
ASMA (Nós, 2024) aproxima-se de um épico, mas não chega a sê-lo. Não poderia: os gêneros são relativamente estáveis e se articulam a partir de dinâmicas sociodiscursivas. E ser menor em nada deveria ofendê-lo: ao contrário, evidencia sua potência na contemporaneidade.
Crítica por Ana Gábri.
Fotos de Lucas Soares (O Odisseu).
“A metamorfose é o contrário da metáfora”
Deleuze e Guattari em Kafka por uma literatura menor
Essa citação para começar o texto porque li uma crítica que diz que “Vashti metaforiza, em sua condição de asmática, a história de muitos que podem ser reunidos nesta categoria denominada ‘Outro’, aqueles que invariavelmente parecem ter um alvo estampado no rosto e que não conseguem realizar uma passagem amena neste mundo vil”. Me incomodou dizer de metáfora. Tenho desconfiado de que as categorias clássicas já não parecem servir tanto à literatura contemporânea ou ao menos a toda ela, convenhamos, então é preciso que atualizemos os parâmetros. Isto é: há coerência em utilizar dispositivos clássicos para tocar em tantas obras contemporâneas? Sejamos, com coragem, criativos! Não fazer o que parece mais fácil a fazer tendo a nossa frente objetos que são, como disse Florencia Garramuño, frutos estranhos. É por isso que escrevo esse texto: para dizer que ASMA é um fruto estranho sim e há algo de complexo que se possa dizer de sua estrutura frágil, móvel, menor, e não metafórica: e essa é a sua potência, a potência de sua estrutura que está mais para um épico-reportagem, pensando agora de improviso enquanto reviso o texto (brincadeira, mas melhor que dizer épico às avessas e insistir em dizer de metáforas – quando o que há é uma possibilidade sim de estabelecer relação entre a condição de trauma da pessoa asmática com tantos outros traumas de muitos que enunciam através da voz de multidão que é a de Vashti, mas que não está para um “como se” e sim para um “é”).
(Continua após a foto)

Entendo, aliás, que ASMA elabora uma complexidade quanto às categorias simplificadoras: vide o encontro com seu Leônidas, que abre o livro 6: “No meio do caminho dei um braço a seu Leônidas / que no outro carregava um rádio / seus olhos azuis e a cabeça lisa, branca / serão chamados na cidade grande / por onde caminhávamos / por acadêmicos nascidos em bairros / arborizados e que foram a escolas particulares / de privilégio” (p. 167). Isto é, um “agricultor nordestino aposentado” ser colocado na caixa de “privilegiado” ou mesmo de “branco” sem situar as devidas diferenças é a simplificação. Falar de ASMA só ressaltando ser épico e dizer de metáforas? É a simplificação. Vão dizer de tal obra: “um épico às avessas” seguido já da justificativa de que “não porque temos uma heroína menor do que os heróis clássicos” ao que se seguem pontos articulados às questões sociais, pelo que se deixa de lado a estrutura: é a simplificação.
(Continua após a foto)

“É um poema porque está todo escrito em versos, mas, como obra contemporânea que está para além dos limites dos gêneros, podemos chamar de tantos modos, por exemplo, por narrativa.”
Ana Gabri
ASMA de Adelaide Ivánova (minha conterrânea, recifense) foi publicado em 2024 (São Paulo: Editora Nós) e foi semifinalista dos prêmios Oceanos e Jabuti na categoria Poesia, além de ter sido vencedor do prêmio APCA 2025 na categoria Poesia. Talvez não tenha chegado às duas mencionadas finais por ser uma literatura menor? Sem querer me deter quanto às polêmicas (extra-literárias, aliás) que envolvem esses prêmios, o fato é que ASMA não passa batido. A obra tem como principal enunciadora Vashti, rainha persa expulsa do reino por não se submeter a capricho do rei, ela que enuncia uma multidão – não a metaforiza1 – e logo nos incorporará como incorporou Sete Bestas, seu sobrenome. ASMA aproxima-se de um épico, mas não chega a sê-lo. Não poderia: os gêneros são relativamente estáveis e se articulam a partir de dinâmicas sociodiscursivas.2 E ser menor em nada deveria ofendê-lo: ao contrário, evidencia sua potência na contemporaneidade. É menor sim: está mais à desterritorialização da língua, à ligação do individual no imediato-político e ao agenciamento coletivo da enunciação – justo esses os três pontos que caracterizam uma literatura menor, segundo Deleuze e Guattari.3
Eu quis escrever sobre ASMA porque queria apontar algo que tem atravessado minhas questões com as narrativas e que em ASMA tem muita força: sua implicação com a realidade. É um poema porque está todo escrito em versos, mas, como obra contemporânea que está para além dos limites dos gêneros, podemos chamar de tantos modos, por exemplo, por narrativa. Esse é um trabalho que, dando continuidade a um projeto de Adelaide que é o de usar “poesia e outras mídias para resolver BO interno4” – e externo, já que a sua militância também atravessa a obra, enfim, é de fôlego: mexe com muitos materiais e matérias. Neste ponto gostaria de frisar uma pergunta: mas será possível tocar o que aparentemente está ali e, no entanto, se move? Ou, melhor formulando a questão que ficou comigo quando, no lançamento do livro em Salvador, Adelaide reafirmou quase um pacto com a veracidade das histórias dentro da estória, das fontes de dados, informações, enfim, de uma pesquisa de tantos anos:
Por que trazer à tona uma pesquisa política – sobre migração, sobre mulheridades (e gosto de pensar que não só, ou seja, que mais ainda, nem sequer sobre, mas feita com pessoas dissidentes e mesmo animais5), entre migrantes, deslocadas, expropriadas, violentadas – a partir deste ponto, isto é, do ponto quase que não legítimo para lidar com a verdade, logo a Literatura? Sem dúvida que na literatura trata-se de tudo, mas não através de um pacto com a Verdade – tampouco com a mentira. É que, desde a Modernidade, à Literatura – que seria sinônimo de ficção – resta sempre um lugar que, justamente menor, só poderia estar desagregado de uma potência de vida que implique em qualquer índice de realidade: não tem legitimação para lidar com ela.6
(Continua após a foto)

A pesquisadora Luciene Azevedo, docente no ILUFBA, é uma das referências que tenho me interessado pelas investigações e que tem se dedicado a pensar nessa entrada do documento na literatura – ou, como diz, “o que ainda chamamos literatura” – e aponta ser ainda uma forma informe – ou seja, não capturada – essa contemporânea, que é muito mais especulativa e que (aí já é uma leitura minha) abre-se mais e mostra-se mais implicada no jogo da linguagem desfazendo a separação entre ficção e não-ficção: sabemos que esse é um jogo perigoso7. Diversas autorias realizam esse trabalho de diferentes perspectivas, especulam de distintas formas: vide as categorias que vão e seguem surgindo para dar conta disso, tais quais escritas de si, escrivivências, autoficções e tantas quantas surgem enquanto vão sendo intensificadas as experimentações feitas no limiar entre a vida que se vive e a vida que se escreve, o documento e a literatura, entre a história e a literatura ou mesmo entre a História e a Literatura.
Algumas lidam com a apropriação dos documentos sem lhes fazer reclame: ao contrário, solicitam o direito à potência do mistério sobre a veracidade das narrativas, apostando mesmo na força da palavra literária sem fundamentações ou uma lida tão direta com a realidade. Contudo, não é esse o caso de ASMA. Em ASMA há um comprometimento com a realidade de forma radical. E, apesar de não ser essa, pra mim, a potência da narrativa, esse dado é interessante aos estudos contemporâneos sem implicar em qualidade à obra. A qualidade desse trabalho está na lida com todo esse material: está em como faz da literatura uma máquina coletiva de expressão8 ao “opor um uso puramente intensivo da língua a todo uso simbólico, ou mesmo signitificativo, ou simplesmente significante”9 nessa escrita que tem recifês (entre “digaí”, “boga”, “toba”, “oiti”, “fiofó”, “furico” – rico vocabulário para tratar de ‘cu’ –, “feche seu cu”, “virada num mói de coentro etc), oralidade, uma escrita da internet (com “kkk” e “tá on”), crítica à academia ou às práticas acadêmicas não comprometidas (lê-se hipócritas), um deboche quanto às violências impostas (de modo que até podemos rir), várias respostas e questões que são compartilhadas (que literalmente foram compartilhadas com Adelaide, como demonstra sua pesquisa).
“Em ASMA há um comprometimento com a realidade de forma radical. E, apesar de não ser essa, pra mim, a potência da narrativa, esse dado é interessante aos estudos contemporâneos sem implicar em qualidade à obra.“
Ana Gábri
Isto é, a potência, acredito, está na invenção que se faz a partir da pesquisa – para além de tantos dados, informações, referências, tudo que uma pessoa artista necessita coletar para realizar suas criações, seja isso mais ou menos explícito. Vashti, fiquei pensando, é um Frankenstein contemporâneo: faz-se da Vida, no entretanto.
A potência que brilha para mim é essa, o ato de “abrir a jaula de uma monga, para ela alaursar o mundo com seu desejo de movimento e de comunhão” (p. 8): essa monga, enunciação sempre em primeira pessoa, alarga a primeira pessoa – o eu – a tal ponto de fazer caber em um “eu” uma multidão. Mais do que uma comunidade homogênea, fechada em si, o “eu” que enuncia em ASMA, a voz de Vashti, é coletiva. Mais que humana, aliás. Quando fala, expõe-se: é uma ficção (ou não?) insurgente, informe, a tensionar diversas ficções que já foram eleitas como realidade: para desfazê-las. A potência da narrativa – que leio como uma performance de Ivánova – não como representação de nenhuma personagem, de nenhuma situação, enfim, me parece, está aí: contar uma história de fôlego, grande, a partir de uma multidão de vozes menores, mínimas, cotidianas. E levantar suspeita sobre a legitimidade de documentos, apesar de usar tantos: responder às ficções racistas anti-Nordeste, por exemplo – publicadas em tantos jornais do século XX e expostas em ASMA como prólogos de poemas – com uma invenção que quer abrir fronteiras. Essa possibilidade e esse desejo, parece, de colocar em suspeita o que se chama realidade a partir da ficção, fazendo ficção: produzindo presente na fábrica da realidade.10

Editora Nós, 2024
200pp.
A especulação de ASMA volta-se à questão dos fluxos migratórios junto aos problemas de gênero (inclusive humano), é o que estrutura provisoriamente esse jogo que é o livro. Não são, essas, questões contemporâneas apenas – porque são da humanidade desde o exílio de Adão e Eva, quer dizer, desde as primeiras mitologias ocidentais –, como a própria narrativa elabora, mas são questões fundamentais para compreendemos a contemporaneidade: então há esse centro provisório, mas que, como a vida, transforma-se em mais ou menos evidente a partir de atravessamentos, presenças, relações. É assim que se destaca (a questão dos fluxos migratórios e do gênero) como centro provisório entre o tribunal, o cárcere, o bestiário, as doenças, as revoltas e a própria asma. Vamos andando em torno de, ou melhor, entre! essas questões que acumulam em si ironias, críticas e reflexões frente a encontros que parecem ativar ou mesmo requerer um estado de presença que tem mais a ver com a experiência11 do que com o tempo acelerado em que vivemos nesse mundo de informações que solicita muito mais opinião, lacre, fechação, ao invés de qualquer aprofundamento ou consideração quanto a complexidades.
Vashti não metaforiza porque é. Mais que Adelaide, mais que narradora, mais que personagem: o procedimento é de metamorfose. E seguirá acontecendo enquanto pudermos lê-la.
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Ana Gábri ou Ana Gabriella Aires é artista-pesquisadore. Está doutorande no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia (UFBA) na linha de Teorias e Representações Literárias e Culturais.
Notas
- A metáfora é sempre “como se”, não tem implicação na realidade: aqui, melhor que isso, entendo que a narrativa é. ↩︎
- Cf. Marcuschi e Bakhtin sobre isso, por ex. ↩︎
- Cf. Kafka, por uma literatura menor. ↩︎
- IVÁNOVA, Adelaide. Lançamento de ASMA. Salvador, livraria do Galuber: 03/outubro de 2025. ↩︎
- Como é o caso da jumenta que atravessa a linha do trem! Eu chorei vendo a notícia (na bibliografia do livro 1) e relendo o poema (p. 18). ↩︎
- E mesmo antes da modernidade – momento da autonomia da Literatura justo por essa relação mais direta que assume com a ficção – a Literatura ou o fazer do poeta sempre foi menor, desde Platão. Diz o filósofo nA república que é o poeta que confunde e indistingue “o que é maior e o que é menor, […] considera grandes ou pequenas as mesmas coisas, conforme as circunstâncias, apresta simulacros e se encontra infinitamente afastado da verdade” (PLATÃO, 2000, p. 449). Vejam: desde esses tempos remotos, eis o problema do menor frente à “Verdade”. ↩︎
- Muito se discute hoje quanto à relação da ficção e factóide, sendo que a primeira lida com a experiência e a reflexão enquanto o segundo lida com o binômio verdade x mentira e quer dizer sempre que detém a verdade, diria eu, simplificando a discussão. Esse ponto merecia mais que uma nota de rodapé, porque é como um “contraponto às fakenews” que Adelaide, com formação em jornalismo, organiza suas referências, leituras, documentos todos, e nos apresenta o que consegue, como um bônus – sendo arrepiante, depois de fazer uma primeira leitura, mais livre, fazer uma segunda ou terceira ou quarta etcétera consultando a bibliografia: como disse Adelaide na ocasião do lançamento em Salvador: “o que mais parece absurdo é que é verdade mesmo”. ↩︎
- Cf. Kafka, por uma literatura menor. ↩︎
- Ibidem. ↩︎
- Cf. Aqui, América Latina – uma especulação de Josefina Ludmer. ↩︎
- Cf. Notas sobre a experiência e o saber da experiência de Jorge Larrosa. ↩︎