A distração possível

Petricor

“Pluviofilia”, diz o nome de um jeito musical, com um sorriso na voz. Que não é uma patologia, e sim um vibrar enorme do seu coração quando vê a chuva — o som das gotas caindo, o céu cinzento, nublado.

Arte de capa de Maria Capelo, da série ‘Vermelho Fulvo’ (2023/ Reprodução).


Algumas palavras têm a particularidade de não poderem ser traduzidas. Elas crescem no som das estrelas do mar. Servem ao afeto e ao que há de libertador, e sabem do que passou até o que ainda vai existir. Como “mbuki-mvuki”, do bantu, na África, que designa uma vontade imensa de tirar as roupas durante a dança. Ou “kilig”, do tagalo, das Filipinas, que descreve uma tremedeira de nervoso quando falamos com quem amamos. E ainda, o que dizer de “uitwaaien”, do holandês, que pode falar dos efeitos marcantes de uma caminhada ao vento. Todas também guardam, em seu âmago, a verve que é poesia.

Em 2016, o pesquisador Tim Lomas, da Universidade do Leste de Londres, desenvolveu, a partir do projeto “Lexicografia Positiva”, e publicou no periódico Journal of Positive Psychology os primeiros resultados de sua busca por catalogar os diferentes “gostos” de sentimentos positivos encontrados pelo mundo afora. Essa seria uma maneira de trazê-los ao nosso cotidiano. De lá para cá, já foram inúmeros contributos valiosos. Acredito que, dentro da semântica dessa busca, existam já lugares ermos, porém conhecidos, que podem ressignificar momentos de maneira marcante.

Entendo aqueles que escolhem o vento forte nos olhos fechados e que assim dizem de uma forma de sentir a vida. Mas há a paisagem, as pedras cálcicas, e a forma como também nos compõem. Prefiro o gênio brando que flerta com a espada certa a ter que cortar a montanha à bruta. Que palavra melhor poderia desenhar essa certeza?

Um dos sentimentos que mais me chamou a atenção quando cheguei a Lisboa foi o frio. É uma expressão coletiva que ecoa como um traço. Um amigo brincava, dizendo que escrevia mais e melhor no inverno. Outro aspecto interessante: é que, com a sua chegada, não vinha com ele virose alguma, nem gripe aparecia à tiracolo. É como se o frio fizesse parte da cidade de alguma maneira e a sua chegada na estação não fosse lá nenhum novo bicho de sete cabeças. O corpo até o acolhia — como em São Paulo, onde o frio de chuva também é quase um bem corpóreo, um trânsito.

Não demora muito e alguém pega o telefone para dizer que está ilhado, sem conseguir ver a cara da rua. Pois bem, Salvador não se bota na chuva. E é um tal de desenterrar capote, edredom, sem falar do vento que vem como redemoinho. Tudo isso vai lembrando do histórico de uma cidade que já teve muita dor nos desabamentos ao longo do tempo. Na década de noventa e nos anos dois mil, houve uma época em que os meus professores paravam a aula para saber se havia alguém precisando de ajuda, se existia algum caso na nossa rua ou na família. A memória da chuva é um trânsito de sensações por aqui também. Mas, mesmo assim, não tem jeito: escutar Maria Bethânia cantando “Eu sou a chuva que lança a areia do Saara sobre os automóveis de Roma” instala uma virada no meio do aguaceiro, e aquilo vai minando a gente.

A pessoa mais marcante do prédio em que moro não revela a sua idade. Ele se apega a gestos que me fazem entendê-lo como alguém de outro tempo. Sua calma no trato, a consideração que tem com os verbos, o passo de rádio quando caminha. Tudo respira sob a tutela da inteligência de quem vive um dia de cada vez. “Pluviofilia”, diz o nome de um jeito musical, com um sorriso na voz. Que não é uma patologia, e sim um vibrar enorme do seu coração quando vê a chuva — o som das gotas caindo, o céu cinzento, nublado. “Venha”, ele diz e sai andando na direção da água, abrindo os braços e rindo. E eu esqueço o que estava pensando enquanto me abrigava. Se abre, se anuncia grande, o cheiro de terra molhada, como quando ela caía lá em Sete de Abril, na porta de casa, em uma tarde de dia de semana.

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