
A livraria da cidade vizinha
De posse do livro, xícara à mesa, teve a sensação de que aquele talvez fosse o lugar mais confortável da cidade.
Imagem de capa: montagem com ilustração de Bego Tojo, s. d.
Foi parar na cidade vizinha a contragosto. A concessionária onde teve de levar o carro era lá. Arrependeu-se de ter comprado um veículo daquela marca. Um sacrifício que poderia ter sido evitado. O serviço ia demorar um bocado e o deixaram no centro para passar a manhã e parte da tarde.
Era uma cidade de interior bem menos turística que a sua. Os municípios não chegavam a ser rivais, mas havia um desdém mútuo que alimentava comentários depreciativos de vez em quando.
Iniciou uma caminhada exploratória pela avenida principal, que concentrava o comércio. Em plena sexta-feira, ainda havia vendedoras sorridentes em lojas de departamento, talvez animadas com a chegada do fim de semana.
Os cafés que encontrou, possíveis refúgios, ainda não estavam abertos. Nem a livraria da cidade, onde também funcionava uma cafeteria conforme um letreiro indicava. Parecia recém-inaugurada ou reformada. A fachada exibia pintura nova verde-escuro que emulava livrarias inglesas. Para reforçar, o nome era em inglês. Curioso.
Cogitou enrolar num banco da praça da igreja. Por algum motivo, nunca teve esse hábito. E a praça possuía bancos nada convidativos, de cimento, malcuidados.
Pouca gente caminhava pelo centro naquele horário. Tampouco havia tráfego. Uma calmaria que não existia em sua cidade, que tinha só um terço a mais de habitantes, mas um complexo de grande centro urbano que chegava ser irritante.
Uma esfirraria ocupava um ponto espaçoso da avenida, bem na esquina. Estava vazia, mas resolveu entrar. Sentou-se numa mesa colada à parede, quase no fundo. Notou um botão para acionar o atendimento. Olhou em volta e viu uma moça no balcão. Preferiu acenar. Pediu um suco de laranja e uma esfirra de queijo. O café, ia beber depois nalguma cafeteria mesmo, para não estragar o ritual.
Enrolou o máximo que aguentou no lugar. Sentia um misto de impaciência e desprendimento.
Passava das dez quando saiu rumo à livraria. Três ou quatro quarteirões? Não importava. A caminhada era plana e o sol ainda não molestava. A livraria ficava do outro lado. Procurou uma faixa de pedestres. Ao se posicionar parar cruzá-la, tomou um susto. Um motorista parou para que ele passasse. Isso nunca aconteceria em sua cidade, onde teria sido atropelado ou levado uma buzinada rude.
Empurrou a porta da livraria. Antes que pudesse mirar algum livro, dois bolos enormes em reluzentes boleiras de vidro lhe chamaram a atenção. Estavam numa mureta que servia de apoio para alguns adornos, entre eles, uma caneta bico de pena dourada. Atrás, havia sofás alaranjados e mesinhas. Na parede à frente, um balcão para notebooks com tomadas.
No setor voltado aos livros, a impressão que teve é de que havia menos exemplares do que se deveria. Alguns clássicos da literatura mundial, best-sellers de auto-ajuda e livros de autores moderninhos estrangeiros como Elena Ferrante e Matt Haig. Nenhuma estante dividida em seções. Jogos de tabuleiros dividiam espaço com os livros. Um setor infantil ao fundo. Onde estavam os brasileiros? Continuou escaneando o primeiro balcão. Havia um no destaque. “Fogo nos Olhos”. Não, Pedro Mairal é argentino. Olhou para baixo. Os nacionais estavam na parte inferior, ao nível do chão. Jeferson Tenório, Carla Madeira e Itamar Vieira Júnior.
Já os tinha lido. Que livro comprar para ser companheiro naquele dia? O de crônicas do argentino parecia interessante. 65 reais. Meio caro… Foi até o caixa, pagou à atendente, uma mulher de óculos grossos na casa dos cinquenta, pediu um expresso e foi sentar-se numa das mesinhas.
De posse do livro, xícara à mesa, teve a sensação de que aquele talvez fosse o lugar mais confortável da cidade. Enquanto ensaiava a leitura e bebericava o café, apareceu um homem de meia-idade de cabelo descolorido. Comentou com a recepcionista que tinha notado a “nova livraria”. A mulher, então, que devia ser a dona ou gerente, teceu um breve histórico do estabelecimento ao cliente. Disse que antes o local era uma franquia e que tinham pouca liberdade para gerenciar o negócio, não podendo vender livros escolares utilizados pelos estudantes da cidade nem oferecer um cardápio mais interessante na parte do café. O homem comentou que se lembrava da outra livraria, resmungou algo e foi embora.
Depois, entrou uma velha. “Chegou o café?” “Livro do café?” “Não, o pacote de café especial.” “Chega semana que vem.” “Que bolo você tem?” “Bolo de cenoura com chocolate e de limão.” “Vou levar um pedaço do de limão.”
Observou a velha sair. Pousou o livro na mesa e pegou o cardápio. Pediu outro café, um croissant, uma água e pedaço de bolo de cenoura.
Faltava um capítulo para encerrar o livro quando se deu conta de que passava das três da tarde. Pediu um Uber. Ninguém aceitava a corrida. Cancelou e tentou pelo 99. Nada também. Será que ia ter que procurar um táxi? Tentou pelo Uber de novo. O aplicativo mostrou um carro elétrico chinês. Estava perto.
Tirou uma foto do livro segurando-o com a mão esquerda, guardou-o na sacola, despediu-se da mulher da livraria e saiu.
No carro, o motorista perguntou de onde ele era. Quando contou que morava no município vizinho, o motorista revelou que havia se mudado de lá fazia pouco tempo por causa do trabalho da esposa e que tinha vontade de voltar. Alegou que havia pouca coisa para fazer ali e que a cidade morria depois das dez da noite. Disse ainda que, às vezes, ia fazer corridas na cidade do passageiro.
Sentiu-se orgulhoso ao ouvir as palavras do motorista, mas pensou na livraria-café. Não havia nenhuma como ela onde morava.
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