A distração possível

Uma beleza triste

Quanto de silêncio é necessário para que se comece o sonho? Qual é o frame que fica no limite entre a vigília e a terra de Morpheus?

Imagem de capa: “A descida da pajé Jenipapo do reino das medicinas”, de Jaider Esbell (Reprodução).


Ora (direis) ouvir estrelas!
Olavo Bilac

Guardo o costume de sentar aos pés de um longo dia para ouvir as cigarras, encolher os dedos nas palmas das mãos e, lentamente, recordá-los de novo. Mas entendo que talvez, para muita gente, essa seja uma tarefa complicada: parar um pouco, medir, desacelerar. Afinal, a vida inteira parece agora precisar caber em 60 segundos, e corre-se tanto em busca de um lugar transitório. O mundo anda mesmo, Renato, tão complicado.

Redescobri o Jequitibá-Rei da novela Renascer, o da primeira versão. A pequena nota dizia que ele morrera, mas havia outro. Foi com este que a emissora gravou a nova versão. Em uma porção remanescente da Mata Atlântica fluminense, na Serra do Mar, passamos por um riacho. A caminhada é longa, mas no fim do trajeto encontramos o gigante de 40 metros e, no mínimo, 1.000 anos de existência. Fico pensando em como algo tão antigo pode resistir tanto sem perder a razão de estar inteiro. Será que, com o passar dos anos, é possível manter viva a essência?

E mesmo olhando aquela imagem apenas pela tela de um computador — o que reafirma o inevitável deste tempo — fico em silêncio por um momento. Quanto de silêncio é necessário para que se comece o sonho? Qual é o frame que fica no limite entre a vigília e a terra de Morpheus?

Talvez o silêncio que precede o mundo que conhecemos seja uma saída: o segredo mais simples e mais complexo da verdade. Pensar nos sonhos, no sono, no barulho dos sonhos. Li que cientistas no Japão inventaram um protótipo de dispositivo que, combinando ressonância magnética funcional ao monitoramento da atividade cerebral com inteligência artificial, pode gerar imagens — e assim gravar os sonhos. Mesmo em fase de testes, esse experimento já acelera muito o pensamento, as conexões e as reflexões sobre o desconhecido. Há um mundo novo a cada dia.

Mas não é sobre nada disso o ponto mais alto da montanha que escalamos. A busca, uma boa metáfora — grande pico, o esforço, a luta. No trajeto, esquecemos o motivo: todos os desafios eram para que, no fim ou em um novo início, contemplássemos a vista. O valor do que somos ou não, diante de mais um final de dia. Calor cadente que comove.

Rubem Alves, em uma de suas crônicas, escreveu: o pôr do sol é metáfora poética, e se o sentimos assim é porque sua beleza triste mora em nosso corpo. Somos seres crepusculares. Eu acrescento: somos “também” seres crepusculares.

Abro os olhos e a imagem do grande Jequitibá-Rei ainda está na tela do computador. Fico com a chance de que talvez ele tenha durado tanto por causa dessa beleza triste que o torna vivo e silencioso. Desligo. Vejo as inúmeras mensagens sem responder no WhatsApp, mas desligo. E saio pela janela enquanto o sol se põe.

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