Crítica

85 anos de Annie Ernaux: ‘A narrativa de todas nós’: uma resenha de ‘Memória de Menina’

Sei que um livro me tocou profundamente quando o número de frases sublinhadas se torna excessivo. Memória de menina tem apenas 136 páginas, mas tamanha é sua profundidade que não consegui lê-lo de uma só vez. As memórias da autora, em muitos momentos, confundiram-se com as minhas próprias lembranças da adolescência. Embora algumas décadas nos separem, as questões femininas que enfrentamos foram praticamente as mesmas.

Neste romance recém-lançado no Brasil, somos levados ao verão de 1958, quando a jovem Annie Duchesne sai de sua pequena cidade para trabalhar como monitora em um acampamento de férias. O que logo me chama a atenção é o distanciamento que a escritora impõe entre si e a jovem Duchesne, seu nome de solteira. Ernaux escreve em terceira pessoa porque entende que essa jovem já não se parece em nada com a mulher que ela se tornou após aquele verão.

Logo na primeira página, ela afirma:

“Só existe o Outro, mestre da situação, dos gestos, do momento que vem depois, e ele é o único que sabe o que vem depois. Depois o outro vai embora, você deixou de satisfazê-lo, ele não se interessa mais por você.” (p. 7)

E assim somos apresentados àquele que moldará os acontecimentos seguintes: H. Um rapaz pouco mais velho, que lhe rouba um beijo, e a partir daí vemos uma menina que se submete às suas vontades, sem nunca o questionar. Em sua busca por agradá-lo, Ernaux escreve que sentia uma necessidade dele, de fazer dele o mestre de seu corpo, afastando qualquer resquício de dignidade.

lhe parecia natural ser tratada com agressividade

H. não demonstra respeito algum. Ridiculariza-a diante dos demais monitores e até dos jovens monitorados. Annie sofre bullying (inclusive de outras colegas), num verão que deveria ser divertido. Mas parece não se ofender. Escreve que lhe parecia natural ser tratada com agressividade. No fundo, achava que precisava suportar para pertencer. Impossível não me identificar.

Na segunda parte do livro, Annie Duchesne se encontra em outro momento da vida. Agora, monitora em acampamentos femininos, ela não sofre como antes. Logo depois, entra para a Escola Normal, enfrenta a bulimia a fim de parecer tão magra quanto as outras jovens de sua idade e tem seus primeiros contatos com a filosofia feminista. A partir disso, começa a questionar comportamentos e a repensar o verão de 1958. Percebe que o presente é opaco, e que só o distanciamento permite compreendê-lo.

Mais madura, escolhe não ser professora primária, mas tornar-se universitária. Passa as férias com uma amiga da faculdade, lê Nietzsche e recorda sua frase:

“Temos a arte para não morrer da verdade.”

A escrita de Annie Ernaux não se limita a ser um reflexo de sua experiência pessoal, mas se estabelece como obra – plena em si mesma, mesmo quando surge dos meandros da memória.

Essa compreensão nos convida a pensar que a escrita de Annie Ernaux não se limita a ser um reflexo de sua experiência pessoal, mas se estabelece como obra – plena em si mesma, mesmo quando surge dos meandros da memória. Afinal, conforme ensina o filósofo Maurice Blanchot, a literatura ocupa um espaço específico, tendo em vista ser autossuficiente e habitar um mundo particular, recusando-se, assim, a se tornar tributária da realidade que a cerca, bem como da realidade de quem a produziu, pois “[…] a obra – a obra de arte, a obra literária – não é acabada nem inacabada: ela é.” (BLANCHOT, 2011, p. 12).

Nesse sentido, a literatura pode ser compreendida como a capacidade da palavra de se desdobrar em probabilidades e nunca numa certeza, já que, ao contrário da realidade, onde todos temos um fim, o texto literário resiste à passagem do tempo e, diante das perspectivas que se abrem a partir de cada leitura, não morre, podendo, na verdade, sempre se renovar: a cada leitura, a cada tempo, a cada leitor.

Afinal, “quando narramos nossa vida ou algum acontecimento dela, alimentamos autoficções. São elas que garantem nossa estabilidade como sujeitos individuais, que nos permitem dar um sentido a nosso passado e planejar nosso futuro.” (PERRONE-MOISÉS, 2016, 174).

Não à toa, me vi em muitas páginas da primeira parte do romance. Na adolescência, eu também queria agradar — principalmente aos homens. Nos anos 1990, as conversas entre meninas giravam em torno de como deveríamos agir para sermos levadas a sério, para sermos escolhidas. Como explica Valeska Zanello em A prateleira do amor, eu também tentei pertencer, mas só percebi isso na vida adulta, depois de inúmeras leituras, inclusive Simone de Beauvoir, a qual também foi importante para a jovem Duchesne.

Como a personagem autoficcional de Ernaux, eu também não tinha consciência, no momento, do mal que aquilo me fazia. Tive um namorado que regulava minha comida. Nos fins de semana, perguntava se eu tinha engordado. Foi assim que a bulimia começou, da qual só me livrei quando pus fim ao namoro. ‘Que roupa usar para disfarçar a gordura que ele dizia ver?’, eu pensava em frente ao armário, horas antes de encontrá-lo. Hoje olho as fotos e não havia nada de errado; eu era apenas uma menina de 14 anos. Mas ele era o homem, mais velho, e portanto “sabia das coisas”.

A década de 90 me moldou e me transformou, embora eu só tenha descoberto isso quando comecei a escrever e revisitar minhas memórias. “É preciso sair da ilha para enxergar a ilha”, já dizia Saramago — e é isso que venho fazendo na última década, desde que escolhi, verdadeiramente, a profissão de escritora.

Identifico-me também com o que Ernaux escreve na página 84:

“De que maneira nós existimos na vida dos outros, na memória deles, no seu jeito de ser, até nos gestos?”

Nós, mulheres, fomos ensinadas a pensar muitas e muitas vezes antes de dizer qualquer frase ou fazer qualquer gesto, porque tudo poderia se voltar contra nós. Enquanto isso, os homens — eternos meninos — podiam ser quem quisessem, falar, agir, nos tocar, como se fôssemos produtos.

dissipar a névoa de momentos antes incompreensíveis

Mais uma vez me reconheço quando ela escreve, na página 79, que a memória é uma forma de conhecimento. Nos últimos anos, essa tem sido minha prática: dissipar a névoa de momentos antes incompreensíveis. Hoje, consigo compreendê-los graças à leitura de inúmeras mulheres que têm iluminado minhas dúvidas e traçado novos caminhos — caminhos em que eu me respeito, sobretudo, como mulher.

Em outra passagem, Ernaux escreve:

“Mas para que serve escrever, senão para desenterrar as coisas — ainda que uma só — impossível de ser reduzida a qualquer explicação psicológica ou sociológica? Uma coisa que não venha de uma ideia pré-concebida, mas de uma narrativa. Algo que surja dos meandros expostos da narrativa e que ajude a entender — a suportar — o que acontece e o que fazemos.”

E talvez seja isso que a literatura nos permite: escrever sobre o que mais nos feriu, com a temperatura certa para acender os outros. Como escreveu Elena Ferrante num de seus ensaios:

“[…] acredito que devemos escrever sobre aquilo que nos marcou profundamente, mas procurando dar às histórias a temperatura capaz de acender os leitores. Um livro tem sucesso e dura se a história de nossas feridas mais incuráveis captura um pouco daquilo que antigamente se chamava, de forma pomposa, o espírito do tempo.” (FERRANTE, 2017, p. 229)

Ou ainda como tão bem proclamou Marguerite Duras: “[…] encontrar-se em um buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total, e descobrir que só a escrita vai te salvar” (DURAS, 2021, p. 30).

Obrigada, Annie Duchesne e Annie Ernaux, por contribuírem para que mais de mim mesma fosse revelado através deste ensaio/depoimento. A narrativa de si pode ser também a narrativa de todas nós.

Memória de menina, de Annie Ernaux
Fósforo, 2025
Tradução de Marina Delfini
144 pp.