
8 anos sem Victor Heringer: ‘O amor dos homens avulsos’ em 2026
Em 7 de março de 2026 completam-se oito anos da partida de Victor Heringer, que aconteceu vinte dias antes dele completar trinta anos. Em agosto, fará uma década da publicação de seu romance O amor dos homens avulsos.
Por Kaio Phelip.
Foto: F. R. Negrão (Reprodução).
No dia 7 de março de 2018, minha mãe me ligou perguntando se eu sabia quem era Victor Heringer. Eu não sabia muito, nunca tinha lido nada dele, nem mesmo Glória, romance que venceu o Prêmio Jabuti em 2013. Já tinha visto O amor dos homens avulsos em alguma prateleira de livraria, e o deixei em uma lista mental e infinita de próximas leituras. Minha mãe contou que o Victor tinha morrido e meu pai, que trabalha em uma funerária desde que eu era criança, estava naquele instante em Copacabana, tratando do serviço funerário dele.
Naquele mesmo dia, fui a uma livraria Leitura procurar O amor dos homens avulsos, furando a fila dos livros que gostaria de ler. O livreiro já sabia da notícia, “ele morreu hoje, né?”, e me informou que não havia nenhum exemplar disponível naquela loja, mas que tinha em outras unidades. Não sei exatamente o que explica o aumento nas vendas de livros quando seus autores morrem, se é a cobertura da imprensa, alguma falha no nosso entendimento do que é literatura ou qualquer outro motivo. Mas comprei o livro e pedi que fosse transferido para aquela unidade, para que eu pudesse retirar depois.
Naquele período, eu ainda tinha pouco acesso a livros com temática queer. Lembro de ler Caio Fernando Abreu, Nelson Luiz de Carvalho, Cassandra Rios e Luís Capucho, mas não muitos outros. O amor dos homens avulsos chegou a mim com algo novo, todas as páginas são atravessadas por um calor que ultrapassa 31°C, e a história de Camilo e Cosmim se desenrola no subúrbio do Rio de Janeiro, o cenário que eu encontrava todos os dias quando saía de casa. Victor Heringer fez um trabalho lindo com referências a Carlos Drummond de Andrade e Machado de Assis e um hipercuidado estético, e li em um único dia o livro que eu gostaria que tivesse durado bem mais.
Meu exemplar está inteiramente sublinhado da leitura que fiz lá em 2018, o reli no último mês, tendo pensado bastante no Victor, e fiz mais grifos. Toda a narrativa é marcada por um tom de saudade e amadurecimento, duas coisas que sempre me prendem a uma história. E além de ser um romance queer, é também um livro sobre morte, o anúncio da crise climática e outras tragédias, apresentando debates que hoje nos são urgentes.
Achei que lembrava pouco do que aconteceu entre Camilo e Cosmim, porém, logo nas primeiras frases, me dei conta que recordava quase tudo. Não poderia esquecer algumas frases como “Não tem lei depois da passarela seis da avenida Brasil, o portal dos subúrbios. O homem puro é aquilo mesmo, um bicho esperto o suficiente para inventar a faca e tirar dela a conclusão mais óbvia: o assassinato.” e tantas outras, a ponto de não conseguir selecionar uma, sobre o amor que um menino sentia pelo outro.
O mais curioso dessa segunda leitura foi me deparar com passagens como “Em Copacabana morre muita gente.” e “Sempre achei que tinha vindo ao mundo não para estar nele, mas para ter estado, ter sido, ter feito. Nasci póstumo.” No entanto, acredito que, depois de alguns acontecimentos, é natural enxergar na obra algumas coincidências com quem a fez.
Victor, ainda em vida, conquistou um lugar muito sofisticado na literatura e era visto como uma “grande promessa”, que pensando agora talvez seja um termo injusto, mas não deixo de imaginar os livros que poderia ter escrito. Victor marcou uma geração que estava por vir e, mesmo com uma obra breve, deixou um rastro luminoso. Às vezes tenho a impressão de que anda sendo pouco lido, e por isso, aqui, nos convoco a lembrá-lo.
O amor dos homens avulsos, de Victor Heringer
Companhia das Letras, 2016
160 pp.


Kaio Phelipe é escritor, editor, bibliotecário e autor de O que entendemos da noite e Todos nós sonhávamos em ser Carmen Miranda, com o qual foi semifinalista do Prêmio Oceanos.
