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‘Você não precisa ser a favor da Palestina, basta se perguntar se você aceitaria isso’, diz autor palestino Atef Abu Saif em mesa na FLICA

Antigo ministro da cultura em Gaza, o autor palestino Atef Abu Saif falou na FLICA, em Cachoeira, sobre o seu desejo de não precisar mais escrever sobre guerra.

Fotos de Guilherme Boldrin.


Uma das atrações internacionais desta edição da FLICA – a Festa Literária Internacional de Cachoeira – o escritor palestino Atef Abu Saif chegou para a mesa “Literatura, Memória e Gramática Profunda”, que dividiria com o professor vencedor do Prêmio Jabuti João Carlos Salles, aparentando certa timidez.

Na breve entrevista que fiz com o autor, minutos antes dele subir para o palco da FLICA, Saif falou pouco, mas manteve o tom acolhedor. “É sempre bom que a guerra acabe”, me disse quando perguntei a respeito dos recentes acordos pelo cessar fogo em Gaza mediados pelos Estados Unidos. “Mas vamos ver o que acontece depois, porque não há nenhuma garantia de que isso vá acabar para sempre”, concluiu. 

Quando perguntei a respeito de uma possível solução de dois estados, citando a entrevista que fiz com a jornalista portuguesa Alexandra Lucas Coelho, autora de ‘Gaza está em toda parte’ (Alexandra não acredita nessa possibilidade de solução), ele recuou e disse que preferia não falar. “Não gostaria de falar sobre o que eu não sei”, me disse. 

‘Todo mundo ama o Lula na Palestina’, diz autor palestino Atef Abu Saif em entrevista à revista O Odisseu

O editor da revista O Odisseu, Ewerton Ulysses Cardoso, e o autor palestino Atef Abu Saif na FLICA. Foto: Guilherme Boldrin (O Odisseu).

A última pergunta que eu fiz foi sobre o presidente Lula: “O que você tem achado sobre as ações de Lula na defesa da Palestina” e foi então que eu ganhei um sorriso dele. “Todo mundo ama o Lula na Palestina, ele é um grande herói”, disse sorrindo timidamente. “Ele é um grande homem, todos o conhecem nas ruas, até mesmo as crianças”. 

Terminei a entrevista com um abraço e uma foto e retornei para assistir a mesa que começaria em instantes. Pouco a pouco as pessoas começaram a aparecer, mas o público ainda estava “frio”. Diferentemente da mesa das 15h, com Aline Midlej, Yeyé Kintê, Sueli Kintê e Luana Souza que lotou o auditório da Tenda Paraguaçu, a mesa com Saif e Salles teve aderência de público, mas com algumas fileiras de cadeiras vazias. 

Igualmente frio foi o início da mesa. O mediador, Ernesto Marques, leu uma breve e ótima introdução falando das relações entre a filosofia dos “acordos profundos”, de Carlos Salles, e a escrita testemunhal de Saif. Mas o tom de camaradagem, tão comum nas mesas literárias aqui no Brasil, não pareceu deixar o convidado internacional menos tímido. Quando Marques pede para que ele fale sobre os seus livros, falando que gostaria de afastar da guerra como uma centralidade da mesa e dar ênfase aos romances de Saif. Mas o convidado internacional recuou: “o que eu posso falar dos meus livros?”, questiona. E a pergunta ficou sem respostas.  

Os primeiros minutos então fluíram mais com a conversa com o professor João Carlos Salles, antigo reitor da UFBA e autor de “Gatos, peixes e elefantes: a gramática dos acordos profundos”, que venceu o Prêmio Jabuti na categoria filosofia. Com excelente desenvoltura, como sempre, Salles conseguiu ligar a própria produção filosófica com o momento que vivemos de genocídio na Palestina. 

‘A palavra genocídio parece ter perdido a sua força’, disse João Carlos Salles na FLICA 2025

Da esquerda para a direita: João Carlos Salles, Ernesto Marques e Atef Abu Saif na FLICA 2025. Foto: Guilherme Boldrin (revista O Odisseu).

Ao falar dos “acordos profundos”, onde reflete o momento atual de divergências entre diferentes correntes ideológicas e a necessidade da construção de um diálogo possível, Salles responde à provocação do mediador Ernesto sobre a possibilidade de levar esse pensamento dos acordos profundos para pensar a situação entre a Palestina e Israel. “Eu até gostaria de usar Wittgenstein para pensar sobre tudo, mas não me parece possível”, diz. No caso, o termo aplicado em seu livro se encontra em uma carta de Ludwig Wittgenstein ao economista italiano Piero Sraffa.

Mais à frente, ao tocar exclusivamente no ponto da “gramática”, convidou o público para pensar sobre a questão do uso das palavras. “A palavra genocídio parece ter perdido a sua força”, disse João Carlos Salles ao mencionar a questão da Palestina. Para o filósofo cachoeirano, seria preciso pensar em palavras que dessem conta do horror que o mundo assiste em Gaza, uma vez que denunciar o que acontece enquanto um “genocídio” não parece mais ter a eficácia para produzir o choque necessário.

O autor Palestino Atef Abu Saif na FLICA 2025. Foto de Guilherme Boldrin (revista O Odisseu).

‘Eu quis ser escritor para escrever a história da minha avó’, conta Atef Abu Saif

De forma tocante, Atef Abu Saif conta que inicialmente não desejou começar a escrever para se tornar um porta-voz da causa palestina. À plateia da FLICA, ele conta que desejou começar a escrever para resgatar a história da sua avó, mas que a guerra o força a falar de violência e destruição. Ao mencionar esse encarceramento do seu tema à guerra, o autor fala não apenas de si, mas de vários outros autores palestinos que desejam viver uma vida que não os force a ter que lutar por o básico. 

Sua fala então soa com um tom de apelo no qual convida os espectadores a se unir em prol da causa da Palestina. Retomando a fala de Salles, ele fala sobre como a humanidade está sendo conduzida ao ponto máximo de sua desumanização com o genocídio palestino. “Você não precisa ser a favor da Palestina, basta se perguntar ‘eu aceitaria isso?’”, enfatiza Atef Abu Saif.

Ao fim da mesa, a plateia entoou gritos de “Palestina livre!”. Atef Abu Saif é autor de “Quero estar acordado quando morrer: diário do genocídio em Gaza”, que sai pela Editora Elefante com tradução de Gisele Eberspächer.