Ensaio

Virar do avesso para existir como bicho: o feitiço da linguagem em duas autoras latino-americanas

Tanto Mónica Ojeda quanto Camila Sosa Villada são grandes exemplos de como bruxas e travestis podem guiar nosso caminho pelas matas fechadas de um paganismo que faz virar do avesso para transformar gente em bicho.

Foto: À esquerda, Mónica Ojeda e à direita Camila Sosa Villada (Reprodução).


Certo dia, na Festa Literária de Muniz Ferreira, entrei em um diálogo poderoso com uma fascinante poeta, Neide, que me perguntou, de repente, o que eu escrevia. Tateando as palavras em busca de um resumo, comentei que fazia algo na linha do realismo mágico: “falo muito de gente que vira bicho”. Na hora, ela me responde: “mas oxe, isso não é realismo mágico, é a minha vida”. Fiquei boquiaberto e ela reagiu: “sou descendente dos negros fujões, que viravam bicho na mata para fugir da escravidão”. Uma fala desse tipo é capaz de tirar de órbita alguns sóis sagrados do cânone literário. Afinal, qual é o espaço do fantástico diante das torções que a vida tem de tomar para sustentar subjetividades cerceadas? Guardei a sabedoria de Neide como algo a manter em alto relevo para pensar sobre literatura fantástica, seja realista ou não, mas, especialmente, sobre o fantástico que acontece todos os dias, em todos os cantos em que a vida precisa torcer a si mesma para sobreviver e, não apenas sobreviver, mas encantar a realidade, de modo a vicejar em verdades selvagens.

Meses depois, em uma espécie de disposição oracular, acabei lendo dois livros de contos, recentemente publicados no Brasil, de duas autoras latino-americanas que praticam formas singulares de realismo mágico. Nestes dois livros curtos e poderosos, encontrei linguagens torcidas e cosmopercepções dilaceradas, que se reinventam para transmutar e transgredir o tecido sufocante do real. Eles me fizeram lembrar da fala de Neide e desse espaço em que as metamorfoses servem à libertação de situações de opressão avassaladora, como respiros em ambientes rarefeitos, que não romantizam a luta ou a força de quem é oprimido, mas dignificam sua forma de ver o mundo e de escapulir, na força da feitiçaria, para novos mundos. Vozes aberrantes e livres como uma batata-doce arrancada em suas nevralgias cheias de terra do chão. É assim que percebi o modo como o pau e as bolas dos clientes de uma travesti se transformam em jóias preciosas a serem colecionadas, e foi assim que senti a poeira fina de bruxas-mariposas que entram pelas janelas noturnas e nos fazem sentir que “o mistério é uma prece que se impõe…”.

O mistério é uma prece que se impõe

Voladoras, de Mónica Ojeda/ Editora Autêntica, 2023/ Tradução de Silvia Massimini Felix/ 136 pp.

Essa é uma frase da Mónica Ojeda que, em Voladoras (Autêntica Contemporânea, 2020), mobiliza a cosmologia andina e a ancestralidade latina para mostrar opressões dilacerantes e revoluções animalescas, especialmente de meninas e mulheres, que produzem alquimias e feitiçarias revolucionárias (ou monstruosas) contra pessoas ou contra as morais que as oprimem (e que às vezes fedem como carniças). Em um dos contos mais fortes da coletânea, “Sangue Coagulado”, a autora equatoriana pinta um cenário pulsante, nos olhos de uma menina abandonada pela mãe e fascinada por sangue. Criada pela avó, uma bruxa aborteira que vive numa paisagem rural e afastada, a menina é abusada logo na primeira menstruação por um homem mais velho, um agregado da avó. Mas Mónica nos insere nessa fábula de terror indescritível através da linguagem salpicada e enfeitiçada da menina. Ela nunca diz “eu menstruei”; ela diz: “Se você é mulher, pode sentar nas pedras e manchá-las”. A vovó diz, sobre os abortos que pratica, sem nunca tocar nessa palavra: “A morte também nasce”. O abusador, chamado de “Réptil”, em outra página diz, com hálito de legumes rançosos, quase como resposta: “A vida come a vida”. Toda essa torção da linguagem produz uma poética macabra, que fede e que muge, grita, pia, entre os animais daquela roça, na qual a morte é cotidiana. Assim, a paisagem de horrores se transforma em uma espécie de música grotesca, mas que atua de modo a preservar a subjetividade vivaz e incontível da menina.

Esse tipo de linguagem é apenas o meio pelo qual sentidos são sutilmente trocados debaixo de nossos olhos. Os contos de Ojeda parecem anunciar, desde o início, a possibilidade de algo terrível acontecer, e não devemos duvidar de que realmente vai acontecer: as cabeças voadoras vão aparecer diante de si, e Bárbara, em algum momento, vai realmente cortar a língua de sua irmã gêmea.

Não há spoiler aqui, pois a estrutura de fim e começo não busca te chocar com base na descoberta do mistério sutil, como nos melhores contos de Borges ou de Cortázar. Aqui, o que vai te surpreender é o modo como a autora consegue esconder, diante dos seus olhos, aquilo que você já sabe, porque, na real, deu para sentir, ali, atrás do recanto das palavras, socos de sentido em poesia performática que tomam de assalto a sua compreensão. Eu entendi, perfeitamente, por que, no conto “Caninos”, o pai começa a ficar cada vez mais parecido com um cachorro, na medida em que adoece e envelhece, babando, latindo. Não sei explicar como ou por quê, mas eu entendi, de algum modo sutil, que a irmã e sua culpa de não saber cuidar reverberam o abandono da mãe alcoólatra. Há um cenário perturbador na “sexualidade vermelha” dos pais. Mas, no meio da trama da família fraturada e da responsabilidade pesada e impossível que recai nas crianças, é o uso da linguagem fantástica que preserva a sua subjetividade. A criança, mais uma vez, dona de sua fantasia que desfigura o real para falar de traumas e baques sem entregá-los às definições vigentes. “Meus traumas Freud não explica”, já disse Mateus Aleluia. Ou será possível que alguém vai chegar e violentar, com o Complexo de Édipo, mais um pouco aquele Papi que sorri com sua dentadura de cachorro? “Você tem que castigá-lo a cada dois dias, porque é disso que ele gosta”.

É claro que a gente pode interpretar tudo isso como uma metáfora, no gênero do terror, para questões atuais e importantes, como a divisão desigual do cuidado para as meninas e mulheres. Mas esse é o caminho mais fácil de seguir, e corremos o risco de transformar cenários magníficos em meras ilustrações usadas em fundos de tela de computador. E será que explicar demais não seria trair um pouco o movimento que a autora propõe de forma tão singular em sua literatura, que engasga, que tosse, que nos diz claramente, nas primeiras páginas do livro: “São os outros que acham que eu tenho de baixar minha voz, diminuí-la, transformá-la numa toupeira que desce, que avança para baixo, quando o que eu quero é subir, sabe?”.

Um cão com patas de cavalo

O sentido de transmutar a linguagem em busca de salvaguardar a subjetividade é ainda mais evidente em alguns dos pontos mais surreais do livro Sou Uma Tola Por Te Querer (Tusquets, 2022), da argentina Camila Sosa Villada. A escritora constrói tramas que começam a tresloucar diante dos seus olhos, que se invadem de mirações de jardins de delícias metamórficos. Isso acontece especialmente nos momentos em que suas travestis beiram à destruição de seus corpos e, especialmente, de suas subjetividades. Aí chega a linguagem, que performa, trança e transa para transformar mesmo os momentos mais pacatos e novelísticos de suas histórias. O texto prolifera e encanta o real, endurecido e estéril. Praças cheias de viciados, beiras de estrada, carros de playboys, matas escuras e lares destruídos: ambientes em que circulam, cheias de glamour e animalidade, suas personagens.

No conto “A Casa de Compaixão”, Camila traça com frieza o perfil de um tio pedófilo e abusador, descrito em linguagem pulsante, fétida, impossível de ser lida sem náusea: “apertando o pau até ejacular um líquido cinzento, pegajoso e malcheiroso nesse pedaço de trapo”. A jovem heroína, Flor de Ceibo, cresce vítima do “longo crime, feito com toda a paciência” e acaba como prostituta de beira de estrada. Flor de Ceibo investe sua subjetividade de um modo em que até mesmo esse cenário desgraçado acaba encantado por sagacidade e glamour. Até que tudo muda no dia em que periga perder a vida na mão de dois clientes revoltados por um fio-terra não requisitado. Numa fuga de tirar o fôlego, ela deixa os homens feridos no motel e acaba sendo salva por um grupo de freiras com pernas peludas, que cuidam dela e a estabelecem na “Casa de Compaixão”, o convento no qual é tratada com belas refeições e rituais noturnos de feitiçaria. “Tratam-na como uma rainha, como uma estrela de cinema”. Nesse cenário digno de pintura surrealista, emerge uma espécie estranha de cão, gigante e com patas de cavalo, da qual um exemplar chamado Nené faz convívio com as freiras, em rituais de bebedeira e gritaria: “Nené sobe na pedra, em cima do corpo de Flor de Ceibo, e a lambe, de ponta a ponta, com sua língua arenosa”.

Sou uma tola por te querer, de Camila Sosa Villada/ TusQuets, 2022/ Tradução de Joca Reiners Terron/ 208 pp.

Essa sexualidade animal e opaca é o veículo pelo qual aportamos em um movimento que testa os limites do insólito: “entre os aleluia, aleluia e o fedor de cachorra, vê Nené ficar de pé e se converter lentamente nela mesma. Em Flor de Ceibo”. É assim que descobrimos que a cachorra gigante toma a sua forma e vai em direção à estrada e aos clientes, enquanto a Flor de Ceibo original fica presa no convento, com lençóis bem cheirosos.

Aqui, a ideia do duplo e a da metamorfose se misturam e são indistinguíveis em uma performance ficcional da sobrevivência, através de alianças aberrantes com a natureza. É a capacidade travesti de transformar a si levada às últimas consequências. O transformar, a princípio uma inversão de gêneros codificados entre homem e mulher, pode facilmente transmutar-se para o que Deleuze & Guattari chamam de “núpcias antinatureza”, ou seja, relações de íntima mistura que vão além do funcionalismo pelo qual enxergamos o mundo natural, sempre preocupado em procriar, evoluir e comer. A espécie de aliança infernal chega a seu ápice no conto “Seis Tetas”, no qual o cenário distópico de uma cruzada antitravestis acaba gerando um êxodo delas e de seus companheiros para uma área de mata selvagem, em que criam uma comunidade alternativa. Entre as relações e micropolíticas desse país das maravilhas nas margens do ódio, as intimidades com o mundo natural despedem-se dos lacres morais daquela civilização que as expeliu:

“Que fazem todas essas travestis trepadas numa árvore, como ninhos de pássaros cobertos de lantejoulas e couro sintético? Que fazem ali como frutos de perfumes baratos, cabelo ralo e maquiagem grosseira que rebrilha debaixo da lua? Parecem panteras. Parecem morcegos que pendem, ensonados. Que fazem ali, naquela árvore de córtex escuro que as sustenta como uma mão que leva entre os dedos o emaranhado de travestis? Escondem-se da polícia, é o que fazem. Sentem pavor da polícia, por isso sobem nas árvores como felinas do fim do mundo”. (p. 194)

As misturas se tornam mais e mais delirantes na medida em que esse povoado toma forma, e uma das travestis começa a botar ovos. Outra travesti, Lilith, tentou conter, sem sucesso, a sexualidade de sua filha, que se embrenhou na mata e virou amante de um homem sem cabeça, e acabou grávida de filhotes de cachorrinho. Nesse mundo, as transmutações acontecem ao sabor das revoltas, e a própria natureza se rebela, como se demonstrasse que ela não se importa nada com as funções morais e o esforço de séculos para classificar, distinguir e ramificar jeitos de ser e de estar. A natureza dá o foda-se para toda essa dinâmica, e a ciência dos hormônios e dos desejos se esfacela quando o corpo goza para fora de si uma vida pulsante e resistente a toda censura, na medida em que é protegida pelo feitiço inefável da linguagem.

Qual bicho? Qual pessoa?

Em “O Mundo de Cima e o Mundo de Baixo”, último conto de Voladoras, encontramos uma situação muito triste: um homem e sua esposa, morando em uma casinha entre montanhas e vulcões andinos, sofrem com a morte de sua filhinha. É um desconsolo que se demonstra em poéticas que, percebemos aos poucos, são um tanto quanto roubadas dos nativos pelo protagonista, que vê os “índios” — que observam à distância — com desconfiança e preconceito. Ao mesmo tempo em que o protagonista diz “fui uma águia, um veado, uma alpaca…”, vozes roucas chegam à distância, dizendo: “Não és um xamã, mas um homem”. Aos poucos, vamos percebendo que o pai enlutado planeja uma espécie de necromancia para trazer de volta a sua filha: a mãe vai morrer e a menina morta vai tomar seu corpo e voltar à vida. A questão é que essa espécie de profanação dos mistérios lacrados da morte é vista com desconfiança pelos nativos e até pelos animais, que lembram ao protagonista: “um xamã deve respeitar o ciclo da vida, honrar a morte”. Em outro momento, o protagonista demonstra sua posição nas políticas dos Andes com transparência: “Invasores, chamam-nos. Terra-tenentes que brincam de andinidade”.

Há muito a tirar dessa situação em que forasteiros habitam o território, mas também buscam funcionalizar os saberes tradicionais para alcançar seus objetivos. O pai e a mãe enlutados recorrem às magias daqueles que desprezam para reviver sua filha em um mecanismo profano. Os “índios”, que observam de longe, não interrompem o procedimento; apenas aconselham, avisam; em outros momentos, “olham como abutres à espera da carniça”, como nos diz o pai. Há aqui uma inversão brutal na montagem do livro de Mónica Ojeda, quando finalizamos o volume não com a poética que protege e prolifera o modo de vida das meninas e mulheres, mas na magia de transmutação forçosamente roubada por um sujeito invasor. Vemos que aqueles que roubam e profanam acreditam piamente em suas motivações e acham justo transformarem-se eles também em animais, ainda que sejam estrangeiros às dinâmicas de respeito aos ciclos naturais.

Se pensarmos nos percursos literários e nas dinâmicas de transformação como as trazidas pela poeta Neide — a respeito de seus ancestrais vertidos em animais para fugir dos escravizadores, trocando saberes nas matas com os povos originários dessa terra roubada —, podemos localizar saberes mágicos que brotam de vivências insondáveis, mas preservadas no corpo, algo que Leda Maria Martins explora enquanto linguagens performáticas incorporadas em gestos e práticas coletivas. Quando a literatura retoma essa dinâmica, como nos dois livros que orientaram esse pequeno ensaio, percebemos que a linguagem indireta, poética, cheia de imagens e delírios, não está aqui para afastar as leitoras, mas para conectá-las em subversões que criam mundos alternativos como hologramas sobre o deserto de sentido de nossa civilização autodestrutiva. Além disso, são palavras que enredam e protegem. Protegem subjetividades — sejam elas insanas, puras ou profanas — contra quem quer violar, invadir e roubar.

Recentemente, em uma entrevista para a Odisseu, a respeito de meu livro O Cuidado dos Sonhos, Ewerton Ulysses Cardoso me provocou a respeito do papel da literatura fantástica no cenário literário brasileiro. Falei para ele sobre colocar a “imaginação no centro” e, com isso, estava remetendo minha literatura, cheia de transmutações e de bichos, à linhagem da ficção científica orgânica de Octávia Butler e aos surrealismos do terror de transmutação que permeiam a literatura, especialmente a feita por mulheres na América Latina. Mas vale considerar todas essas intenções a partir de minha posição como um homem branco latino-americano. Preciso cuidar e pedir licença a quem preserva, desde o tempo insondável, as magias e técnicas de transmutação, a quem preserva os saberes originários e as medicinas da mata, a quem precisa virar do avesso e existir como bicho para sobreviver como gente, em um mundo que desumaniza ao sabor dos aspectos. É possível dizer, sim, que “colocar a imaginação no centro” é uma meta central, na medida em que isso também seja colocar no centro as pessoas e comunidades que fazem da imaginação o pilar pelos quais existir no mundo seja partilha e comunhão com todos os seres. Saberes que destronam a cosmofobia, para citar o conceito preciso de Nego Bispo.

Tanto Mónica Ojeda quanto Camila Sosa Villada são grandes exemplos de como bruxas e travestis podem guiar nosso caminho pelas matas fechadas de um paganismo que vira do avesso para transformar gente em bicho, algo que nunca deixamos de ser, por mais que tenhamos esquecido disso depois de tantos filmes feitos nos Estados Unidos e arranha-céus que parecem falos enormes, mas nunca joias cultivadas na boca dos rios.

Conteúdo publicado originalmente no n27 da revista O Odisseu, em breve disponível na íntegra aqui no site.