
Vinícius Galindo Farias questiona o que pode a poesia diante da falta em ‘Face de quem perco’
Em entrevista à revista O Odisseu, Vinícius Galindo Farias conta como foi transformar a convivência com as lacunas nos versos de “Face de quem perco” (Mondru, 2025).
Desde que o mundo é mundo, poetas vêm questionando o sentido da existência e a origem dos afetos através da poesia. De certa forma, essas dúvidas ajudaram a produzir a maioria dos mais belos versos, seja de Shakespeare a Hilda Hilst ou Caetano Veloso. A cada geração, essas incógnitas ganham novas roupagens com as especificidades dos novos tempos e das novas dinâmicas sobre o amor. Na poesia de Vinícius Galindo, os sentimentos são questionados quanto à fluidez dos tempos de internet e desapego emocional.
A estreia do poeta pernambucano tem como marca o desejo e o amor, duas instâncias que geralmente relacionamos, mas que podem acontecer em movimentações bem diferentes. Na verdade, é bem fácil confundir as duas. Essa confusão entra de forma consciente na poesia de Vinícius Galindo Farias que afirma não escrever para encontrar respostas e sim para dar vazão aos conflitos da alma. Em depoimento para a revista O Odisseu, Farias disse que tanto desejo quanto amor são palavras que atravessam a sua poética de formas variadas:
Para o “Face de quem perco”, quis trazer o amor como algo que, de tão idealizado, se corrompe com a realidade e com os comportamentos abusivos combinados de duas pessoas que julgam se gostar muito. E sim, fui cuidadoso o suficiente para não colocar o eu lírico como uma vítima, tornando-o agente disso também; ele perde algo e alguém, mas não é plenamente inocente nisso. Exploro o amor e o desejo muito por esses patamares de loucura, obsessão, idealização e, aproveitando a pergunta, fragmentação e liquidez. Bauman trouxe um pioneirismo muito forte com essa definição de relações líquidas, porque hoje podemos abordar isso na ficção e na vida real com muito mais embasamento e profundidade. – Vinícius Galindo Farias para a revista O Odisseu.

“A poesia nem sempre preenche os espaços vazios”, diz Vinícius Galindo Farias, autor de “Face de quem perco”
O vazio também é uma grande questão na poética de Farias. Versando em tempos em que as pessoas estão cada vez mais desconectadas das relações sólidas, mais dispostas a viver performances em redes sociais que algo mais profundo, o autor encontrou nesse mal-estar um caminho para o desenvolvimento de sua literatura. Em entrevista, afirma: A poesia nem sempre traz preenchimento desses espaços vazios, mas nos traz alento, talvez um norte para que se continue na caminhada da existência humana — que é, por si só, constituída por ela, A Falta.
Na orelha do livro, Renata DeCastro, escritora e professora, escreve que na poesia de Farias, “olhar para dores passadas é trazer significado para as dores iminentes. É encontrar um túnel de volta para si. Olhar para um vaso quebrado e dar margem à reflexão: No desencaixe de inteiros, o que é amar as faltas?”.
Para a O Odisseu, Vinícius conta que Renata e ele compartilham os versos sobre amor, erotismo e emancipação (ele a emancipação quanto ao gênero e a religião, e ela quanto ao gênero e ao patriarcado). De modo geral, os dois se encontram enquanto poetas que confrontam o vazio.
A poesia que fazemos, assim como a que todos os poetas fazem, trata de trazer sentido às coisas que nem sempre conseguimos nomear. Trazer sentido às lacunas. A melancolia que trago em minha escrita é resultado de tantas lacunas que vejo naquilo que sinto e transmito às páginas, é resultado de minha investigação narrativa constante, de uma busca por significados. – conta para a O Odisseu.
A poesia do encontro
Na conversa com Vinícius, perguntei se ele acreditava na poesia enquanto possibilidade de encontro. Isso porque encontrei em seus versos o desejo do toque, da presença. De certa forma, é um sintoma do tempo. Talvez estejamos todos em busca do outro, mas a dinâmica da vida individual parece dominar o nosso tempo. O poeta acaba sintetizando a urgência por essa presença em sua fala: O desejo — do beijo, do toque, do amor — é algo tão estimado por nós enquanto sociedade que, se pararmos para observar, raramente escutamos ou cantarolamos músicas que não sejam de amor. Aonde quer que estejamos, somos rodeados por mensagens subliminares (ou não) de que há algo a se desejar, a se esperar.
Para mim, a poesia é mais uma forma de alcançar a si mesmo antes de a quaisquer outras pessoas. Quando o poema sai da boca, do fundo da gaveta, e atinge outras pessoas e outras mentalidades, comovendo-as e potencialmente as transformando, sinto que ele atinge seu objetivo máximo. O escritor deseja ser lido, compreendido, mas, também, deseja causar uma boa impressão. E é sempre muito bom quando conseguimos escrever e deixar para que o leitor termine de escrever para a gente, com suas próprias interpretações e releituras daquilo que lhe é apresentado. – concluiu o autor.
Você pode comprar o livro “Face de quem perco” no site da editora! Além disso, aproveite para seguir o autor no instagram no @vinigalindof.

Face de quem perco, de Vinícius Galindo Farias
Editora Mondru, 2025.

