Entrevistas

Vera Saad e a coreografia das palavras: em “Dança sueca”, escritora explora gênero, afeto e alteridade

Autora de ‘Dança Sueca’, Vera Saad reflete sobre racismo intrafamiliar, homoafetividade e o papel da literatura como espaço de liberdade e autoconhecimento.

Entrevista por Marcela Güther.


No romance “Dança sueca”, a escritora e doutora em Comunicação e Semiótica Vera Saad parte de um encontro casual entre duas pessoas que, ao revelarem segredos íntimos, desencadeiam acontecimentos que transformam a vida de todos ao seu redor, inclusive do narrador, uma voz sem gênero definido. Dividido em três partes (Dueto, Ciranda e Quadrilha), o livro é construído como uma dança narrativa, alternando vozes, tempos e perspectivas. Cada parte reforça a ideia de movimento coletivo, onde ninguém dança só: personagens se ligam uns aos outros em laços de afeto e dor. 

Vera Saad nasceu em Ourinhos (SP) e vive em São Paulo. Sua carreira literária começou em 1997, ao vencer o concurso de contos Sesc On-line, com júri de Ignácio de Loyola Brandão. Foi finalista do VI Prêmio da Jovem Literatura Latino-Americana com o romance Estamos todos bem. Publicou ainda os livros Mind the gap (2011), Telefone sem fio (2014) e Dança sueca (2019) e A face mais doce do azar (Claraboia, 2023).

Embora aborde temas como racismo intrafamiliar e homoafetividade, a autora ressalta que essas questões aparecem como parte da experiência das personagens, e não como eixo central da obra.  A história ainda traz a música clássica como metáfora para a vida das personagens, em que dor, beleza e afeto coexistem. 

Confira na íntegra a entrevista com a autora:

‘Há dois temas que movem o livro, o racismo e a homoafetividade’, diz Vera Saad sobre ‘Dança Sueca’

Vera Saad, autora de ‘Dança Sueca’ (Foto: Divulgação).

Quais são os principais temas de Dança sueca e o que te levou a explorá-los na narrativa?

Há dois temas que movem o livro, o racismo e a homoafetividade. São temas que me tocam: o racismo na própria família, racismo que minha bisavó sofreu na família, e a homoafetividade. Por entender que ainda hoje existe muita homofobia, eu quis trabalhar com essa liberdade de Birá, que deveria ser de todos. Ainda hoje acho um absurdo uma pessoa ter que prestar contas para quem quer que seja sobre algo que só deve diz respeito a ela, ter que dizer aos pais, por exemplo, que é gay, como se fosse algo errado e que os pais deveriam aceitar mesmo assim. Por que eu devo dizer a quem quer que seja por quem sinto atração? (aquele famoso “ter que se assumir”). O mundo ainda é visto sob o prisma do homem branco hétero.   

Como nasceu a ideia do livro e de que forma foi o processo de escrita?

Em 2011, eu pensei em criar um personagem sem gênero, pelos motivos que citei na resposta anterior, por sempre me sentir incomodada com os estereótipos, que encerravam a mulher em uma figura caricata, com a qual nunca me identifiquei. Criei Angel pensando no sexo dos anjos. Filipa Maria surgiu depois, em 2014, quando comecei a pensar no racismo na família que tantos sofrem e que é tão cruel.  

Quais reflexões ou mensagens você acredita que o livro desperta no leitor?

Penso, sobretudo, na questão do gênero, que impôs um modelo de vida à minha geração muito diferente de como nos entendíamos no mundo e alheio a nossos desejos, era preciso muita coragem para nos bancarmos por inteiro (eu não tive essa coragem, e já sofri muito por isso). Há também o racismo no seio familiar, o que é tão cruel.  

O narrador sem gênero é uma das marcas mais potentes do livro. Como foi o desafio de sustentar essa voz sem cair em neutralizações artificiais?

Muito obrigada, foi um grande desafio. Criei Birá em 2011, quando não se falava em linguagem neutra. Na língua portuguesa há flexão nominal de gênero, o que limita a construção do personagem. Comecei a lidar melhor com a construção textual quando passei a pensar em Birá antes da escrita. Birá não é nem ele, nem tampouco ela (não se falava em elo), mas também pode ser ele e ela ao mesmo tempo, ou apenas ele, ou apenas ela. Antes do pronome, já existia o desejo. Antes do pronome, já existia Birá. Tive como ponto de partida essa ideia e a escrita fluiu melhor.  

O livro toca em temas como racismo intrafamiliar e homoafetividade sem didatismo. Como equilibrar o engajamento político e a sutileza literária?

Agradeço mais uma vez, fico muito feliz que o tenha conseguido. Como já afirmei, tanto o racismo intrafamiliar quanto a homoafetividade não são temas centrais do romance, talvez por isso tenha tido mais facilidade para escrever sem didatismo. Você usou o termo exato: sutileza. Procuro provocar o leitor de forma sutil, nunca direta, evito o discurso pronto, fácil de ser reconhecido. 

O que Dança sueca representa na sua trajetória e de que forma a escrita te transformou?

Ele representa um momento muito importante para mim, quando passei a questionar uma série de valores. A escrita do livro me ajudou a me entender melhor e compreender melhor minha própria família.

Em que medida suas obras anteriores contribuíram para a criação deste romance?

Posso afirmar com certa segurança que em ‘Dança Sueca’, eu encontrei meu estilo literário, ainda tímido em meus outros livros. 

O romance é o gênero que mais te atrai? Como é essa relação com a forma narrativa longa?

Gosto muito de escrever romances, conviver com os personagens por mais tempo, amadurecer com eles, vê-los ganhar forma ao longo da escrita.

Quais autores e autoras marcaram sua formação e influenciaram diretamente a escrita de Dança sueca?

São tantas! Vou permanecer no campo brasileiro, até porque minha escrita também atravessa meu país. Tenho o que chamo de tríade: Márcia Denser, Elvira Vigna e Adriana Lisboa, as três escritoras alcançaram uma excelência na escrita que persigo (ainda bastante frustrada). Não posso também deixar de citar Milton Hatoum, cuja obra me influenciou demais. Faço uma menção a ‘Cinzas do Norte’ em ‘Dança Sueca’ (amo homenagear meus escritores favoritos quando escrevo). Jarid Arraes também me influencia demais. 

Como você descreveria seu estilo literário e as escolhas estruturais que orientam sua escrita?

Gosto de construir personagens, pensar em construí-los a partir da relação com outros, por isso a família é sempre presente em meus romances, e o papel múltiplo e ao mesmo tempo enrijecido que ocupam: a mãe, que também é filha, irmã, tia, mas que se cristaliza em uma figura da qual não consegue fugir, por mais que tente, seja como ovelha negra, filho exemplar, preferido, preterido. Trocando em miúdos, meu estilo literário brinca com a alteridade (tema da minha vida!).

A estrutura de Dança sueca é dividida em partes com nomes de danças. Como surgiu essa ideia e o que essa metáfora coreográfica representa para você?

As três partes do romance são exatamente as três partes da dança sueca, que existe. Achei muito curiosa essa disposição, primeiro em dueto, depois em ciranda e depois em quadrilha. A ciranda está muito presente na vida de Angel, porque é a última lembrança que ela tem da vizinha, quando esta dá as mãos a Angel e à sua mãe para girarem em uma ciranda com o disco Dança Sueca de Max Bruch na vitrola, um pedido que havia feito antes de morrer. É uma imagem bonita e triste: as três em uma ciranda, enquanto a vizinha tenta esquecer da dor, por um minuto que seja.  Ela tinha câncer, e só quem teve ou viu pessoas próximas com câncer sabe o quanto a dor pode acabar com alguém, aos poucos. 

Que tipo de liberdade você busca — como mulher, escritora e leitora — quando escreve?

Que pergunta linda. Acho que quando escrevo eu deixo de ser o que os outros querem que eu seja (mãe, esposa, bem-sucedida na carreira, como se a mulher só tivesse essas três opções) para ser eu mesma: esses mil e um personagens que fui, sou e serei. Além disso, ler e escrever é minha única forma de me entender com o mundo. 

Você pode adiantar algo sobre seus próximos projetos literários?

Estou escrevendo sobre o trabalho. Um funcionário morre um dia antes de se aposentar e, a partir de então, ocorrem demissões em massa. A empresa é também uma plataforma de empregos. O momento mais cruel será quando os ex-funcionários passam a pagar essa mesma empresa que os demitiu para procurar emprego.

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Marcela Güther é jornalista, gestora de comunicação e especialista em relacionamento com a mídia e influência na Editora Orlando e na Com.tato, empresa especializada em comunicação para editoras e autores independentes. Com mais de 10 anos de experiência no setor de comunicação, atua também como mediadora de clubes e mesas literárias, combinando paixão por leitura com expertise em comunicação e curadoria de conteúdo literário.