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Uma impostora em Harvard: As entranhas ridículas e tão ternamente infantis de todos nós, por Maria Homem

Talvez não reste pedra sobre pedra e sejamos mesmo esta espécie frágil e sonhadora, com muito medo de tudo e atônita diante do mistério. Só posso calar e me curvar diante da impostura que está em toda criação.

Foto: Divulgação


Querido JF – Jacques Fux


Agora que mergulhei no labirinto do Uma impostora em Harvard não consigo escrever mais nada. Você, com seu martelo de Nietzsche, não deixou pedra sobre pedra. Você, sempre sagaz e sarcástico, com o humor que te é característico – a você e à longa tradição judaica do chiste, como bem estudou Freud – revelou as entranhas ridículas e tão ternamente infantis de todos nós, sempre desejando cavar um imaginário lugar ao sol no panteão dos pretensos gênios que passam pelos templos sagrados da modernidade, como as academias e institutos, que continuam criando deuses, agora terrenos, que chamam gênios e ganham prêmios nóbeis ou ignóbeis. Este livro é a dessacralização crassa da pompa e circunstância da academia. O que eu poderia dizer? Que gostei de ter lido o livro por também ter passado um tempo em Harvard e reconhecido os prédios, as personagens, as emoções? Que me deliciei como uma voyeuse com a saborosa gama de histórias desse microcosmo complexo que você tão bem coletou? Mas isso é pouco e não faz jus a este livro. Nem à impostora nem a Harvard.

Que deveríamos te agradecer por jogar luz no labirinto das disputas, tão pequenamente
narcísicas assim como tão nobres, daqueles que amam decifrar o funcionamento das coisas do mundo? Mas como? Talvez este seja, afinal, o coração não somente da estrutura acadêmica, mas potencialmente de todas as instituições que nós, primatas falantes, conseguimos botar de pé. Instituir é a arte do impossível. Não sei o que escrever para você. E agora que eu prometi. Ainda mais agora que eu demorei tanto para te entregar as míseras quatro linhas. Afinal, o que é escrever? É você mesmo que parece ficar cutucando essa pergunta-ferida sem cessar, desde seus primeiros livros. Como justo eu vou conseguir sair dessa fatal pergunta: o que é escrever? Como construir um mundo com palavras? Já o século XX sabia que essa era a pergunta que atormentava. E este coitado do XXI então, nem se fale: sempre no espeto giratório da autoficção, a gente mergulha fundo na tarefa do Sísifo contemporâneo. Construir um mundo com palavras: voilà a fantasia suprema que move todo escritor – talvez todo ser falante. Como se vivêssemos o tempo todo falando falando falando para que as coisas pudessem ganhar vida, existir, permanecer, tentar vencer a morte, fazer história. Ao mesmo tempo que sabemos muito bem que tudo isso é ficção, fictio, falso. Mentira e impostura: as armas tão nobres da criação. Talvez eu devesse era começar assim:

Querida K., envelopada pelos insights lúcido-crítico-analíticos do seu alter-superego Dra. M.K., num livro trançado por J.F. e agora bordado por M.H. Um passeio elegante e erudito pelo humano, demasiado e patético humano de qualquer coletivo quiçá humano.
Talvez não reste pedra sobre pedra e sejamos mesmo esta espécie frágil e sonhadora, com muito medo de tudo e atônita diante do mistério. Só posso calar e me curvar diante da impostura que está em toda criação. Calma. Espera um pouco. Vejo uma pequena luz que eu queria guardar pra sempre neste pedaço ínfimo de imortalidade que pretende ser a escrita. Quero somente dizer que senti saudades dos encontros na casa da Gertrude Stein ou do Pub Boston. Ou de qualquer encontro real, criativo e erótico – no profundo sentido de Eros – que porventura recebem a graça de existir em alguns poucos momentos da história. Vejo também no céu as estrelas e Umberto Eco sendo tocado pelo êxtase de uma epifania e isso me arrepia. Desconfio que foi essa luz que te tocou em algum ponto da viagem e te fez tomar uma das decisões mais difíceis da vida: se tornar escritor.
Impostor do caos e da criação, sem a certeza do dinheiro e com o medo de sempre deixar de ser o que afinal nunca se tem a garantia de ser.

Uma impostora em Harvard,
Jacques Fux.
Editora‎ Faria e Silva, 2025, 152 pp.

Deste lado do espelho, só posso te agradecer e te desejar coragem.

Ainda e sempre,

MH – Maria Homem


Foto: Divulgação

Maria Homem é psicanalista, pesquisadora do Núcleo Diversitas FFLCH/USP e professora da FAAP. Cursou pós-graduação em Psicanálise e Estética pela Universidade de Paris VIII / Collège International de Philosophie e pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Foi professora visitante na Harvard University e palestrante no MIT, Boston Univ e Columbia (NY) e colunista da Folha. Autora de “Lupa da alma”, “Coisa de menina?”, “No limiar do silêncio e da letra”, entre outros.

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