Entrevistas

Um retorno às memórias em Bolhas de Sabão, de Cláudia Neves

“A Cláudia de hoje reencontrou a menina que queria ser poeta, e colocar em prática o exercício da escrita e a atenção às miudezas (passadas e presentes) é a forma que encontrei de mantê-la viva em mim.”


O Exercício de revisitar as nossas memórias pode ser um processo poético e doloroso, ao mesmo tempo que nos coloca diante de um espelho no qual vemos a vida ir passando enquanto nosso reflexo modifica-se para dar lugar ao nosso eu atual, que é a reunião de todos os “eus” que já fomos e dos que ainda seremos ao longo dessa aventura que é a vida. Experimenta-se, nesse processo, um pouco de tudo e, principalmente, o medo de pisar em solos sensíveis da nossa vida e que ainda machucam nossos pés, mesmo que já tenhamos aprendido a andar sobre eles.

É com esse sentimento de revisitar o passado de forma sensível que a escritora Cláudia Neves lança seu livro de estreia Bolhas de Sabão, pela editora Litteralux. Cláudia revisita a sua infância, adolescência e juventude e nos apresenta a personagens importantes de sua vida, como as avós Lica e Delphina, duas Marias que moldaram seus sentimentos em relação ao mundo e que, segundo ela a ajudaram a “ter uma visão mais ampla do mundo, a compreender a importância da tradição oral e do papel das mulheres como guardiãs e transmissoras dessa tradição.”

É um livro que nos ensina muito sobre afetividade, respeito e carinho pelo passado que nos molda, por mais dolorido que tenha sido. Em entrevista à revista O Odisseu, Cláudia nos conta um pouco sobre a sua experiência no processo de escrita de Bolhas de Sabão e como a leitura despertou nela o desejo crescente pela escrita.

CA: As duas “Marias”, Maria Lica e Maria Delphina, representam muitas das mulheres brasileiras e, principalmente, representavam as mulheres do seu tempo, atravessadas pelo machismo que, muitas vezes, inviabilizava a sua existência. O que você acha que essas duas mulheres têm a nos ensinar hoje?

CN: Minhas duas avós vieram de mundos diferentes: Vó Lica nasceu no sertão do Ceará, onde casou, teve dez filhos e viveu parte de sua vida até se mudar com a família para São Paulo, em busca de melhores condições vida. Nunca aprendeu a ler nem a escrever. Seu conhecimento não vinha da cultura letrada, era um conhecimento tácito, adquirido na experiência vivida no dia a dia e no que era oralmente transmitido. Minha avó Maria Delphina veio com os pais de Portugal ainda criança, também em busca de melhores condições de vida, e aqui teve a oportunidade de estudar e de se formar professora. Era apaixonada pela educação e uma mulher à frente do seu tempo: dividia as tarefas e responsabilidades da casa com meu avô e se dedicava a seu trabalho como educadora. O que as duas Marias podem nos ensinar hoje em dia é como suas diferentes experiências e conhecimentos são enriquecedores e devem ser valorizados e respeitados para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

CA: A escrita também nasce de um exercício de escuta e de observação do outro. Em “Memórias do Sítio”, você narra o momento em que sua mãe decidiu falar sobre a morte do irmão e afirma “Hoje já não me recordo mais do que eu relatei a ela naquela noite que a motivou a contar a história da morte de seu irmão”. Você sempre foi uma grande observadora e ouvinte da vida em família? Como isso despertou a escritora dentro de você?

CN: Sempre fui uma ótima ouvinte e sempre gostei de histórias, sejam elas ficcionais ou reais. Tive o privilégio de conviver com duas avós que eram ótimas narradoras das histórias da família. Minha mãe também me contava muitas histórias sobre sua vida, mas a contação de histórias da minha mãe seguia um ritual diferente, era um momento só nosso, de mãe e filha, de estarmos juntas. Já o meu pai era um contador de histórias nato, ele as contava em diferentes situações, sempre que houvesse ouvintes interessados. Mas não foram as histórias de família que primeiro despertaram a escritora dentro de mim. A vontade de escrever surgiu ainda quando eu era criança por causa do encanto com os livros. Eu era uma leitora voraz e tinha uma vontade enorme de escrever histórias como as que eu lia: fábulas, contos de fadas, narrativas de aventura. As minhas primeiras tentativas de escrita foram histórias com princesas, castelos, tesouros. As histórias de família que eu ouvia ficaram guardadas na memória, e apenas decidi colocá-las no papel após minha mãe ter sido diagnosticada com Alzheimer. Meu pai havia morrido alguns anos antes, e comecei a me lembrar das histórias de família que ele e minha mãe me contavam e de todas as histórias que havíamos vivido juntos e a pensar que não teria mais a quem recorrer para relembrar algum detalhe esquecido, tirar dúvidas. Fiquei com medo que essas histórias se perdessem e comecei a registrá-las no papel, sem a intenção de transformá-las em um livro, apenas com o intuito de não as esquecer.

CA: Retomar o passado exige, antes de tudo, uma maturidade que só o tempo traz e certa condescendência para compreender as coisas que nos atravessaram/atravessam e que são fruto das escolhas dos outros ou das nossas próprias escolhas. Como foi a experiência de reviver as suas memórias e, principalmente, por que decidiu compartilhá-las?

CN: Em um dos textos do livro, eu escrevo que, “quando ficamos órfãos, independentemente da idade, sentimos que finalmente estamos por nossa conta e risco neste mundo, sem um colo ao qual recorrer”. Recentemente li o livro O último dia da infância, de Marcelo Moutinho, em que ele expressa uma ideia que, na minha leitura, complementa ou reforça o que eu escrevi. Em um texto sobre a morte da mãe, Moutinho escreve: “Talvez a perda dos pais seja o último dia da nossa infância […]”. Com a morte da minha mãe e, consequentemente, com o fim da minha infância, eu senti a necessidade de voltar a esse tempo/lugar para refletir sobre diversos sentimentos ali vividos e procurar entendê-los. Retomei histórias que já havia escrito, reescrevi-as várias vezes à medida que ia amadurecendo entendimentos e sentimentos sobre as vivências relatadas. Nesse percurso, resgatei dores e afetos que há muito estavam esquecidos, e novas histórias também foram escritas a partir desses resgates. Apesar de serem relatos pessoais, optei por compartilhá-los com o desejo de que eles possam proporcionar aos leitores o resgate de suas próprias memórias e histórias, como muitos livros fizeram e fazem comigo.

CA: Você fala com muito afeto da sua relação com seus avós. Como a convivência com eles moldou a sua visão de mundo e sua forma de compreender a vida?

CN: O que aprendi com as minhas avós me ajudou a ter uma visão mais ampla do mundo, a compreender a importância da tradição oral e do papel das mulheres como guardiãs e transmissoras dessa tradição. Aprendi que a capacidade de adquirir conhecimentos e de ensinar não se restringe à cultura letrada, mas que esta é uma importante ferramenta na desconstrução de padrões sociais pré-estabelecidos. Mas principalmente aprendi que somos diversos e que é possível construirmos um mundo a partir dessa diversidade, com amor e respeito.

CA: No capítulo sobre a Escola, vemos o impacto que uma leitura teve no coração e na mente da criança Cláudia que havia sido rejeitada para o papel de princesa. Como a leitura te ajudou/ajuda a lidar com o peso de um mundo nem sempre amável?

CN: Os livros sempre estiverem presentes em minha vida e foram grandes companheiros. Na infância, me transportavam para um mundo de fantasias, aventuras e possibilidades. Com as leituras, fui descobrindo personagens que sentiam as mesmas emoções que eu sentia, viviam situações parecidas com as que eu vivia e isso me ajudou a entender melhor meus sentimentos, a lidar com determinadas situações e a não me sentir sozinha.

CA: A narrativa de “A Foto de Família” tem um peso emocional muito grande, principalmente por tratar da figura paterna, que é um tabu psicanalítico na vida de muitas pessoas. Como você encara, hoje, a sua relação com essa figura e como a escrita te ajuda/ajudou a lidar com essa imagem paterna?

CN: Foi somente por meio da escrita que consegui rever meu relacionamento com o meu pai e refletir sobre ele. Em muitos momentos, foi uma experiência dolorosa, mas o que resultou dessa experiência para mim foi libertador. Ao colocar em palavras situações que vivenciamos juntos e os sentimentos suscitados por essas situações, foi como se eu estivesse passando nossa relação a limpo e ordenando o caos de emoções que há muito tempo estavam guardadas dentro de mim.  É impressionante o poder da escrita no processo de reflexão sobre nós mesmos, sobre como nos relacionamos com os outros e sobre como nos tornamos quem somos.

CA: As histórias do livro são atravessadas por questões sociais e políticas de um tempo em que o Brasil vivenciava um período conturbado e, por vezes, sombrio. A forma como as narrativas são construídas ajuda o leitor, mesmo aquele que não vivenciou esses momentos, a criar uma identificação e a revisitar, dentro de si, as suas próprias lembranças. Como foi para você construir essas narrativas que são, ao mesmo tempo, suas vivências e fragmentos das vivências de todos nós?

CN: Depois da publicação do livro, algumas pessoas me relataram que algumas das histórias fizeram com que elas resgatassem lembranças que estavam esquecidas há muito tempo. Uma leitora me contou que a cena dos netos fazendo fila em frente ao fogão para esperar que a avó colocasse uma colherada de molho no pedaço de pão que lhe estendiam, narrada no texto “As duas Marias”, que abre o livro, a fez lembrar – e até sentir o cheiro – do molho que sua avó italiana preparava aos domingos e da disputa entre ela e os primos pela ponta do pão bengala, para tirar o miolo e poder colocar mais molho. Outra leitora me escreveu para contar sobre como o livro A fada que tinha ideias também foi importante na sua infância. Um amigo me disse que seu pai, que participou das greves dos metalúrgicos no fim dos anos 1970 no ABC paulista, se emocionou muito com a leitura do texto “O tio”, em que escrevo sobre esse período. Algumas pessoas me escreveram para contar sobre o Alzheimer de um dos pais e como se identificaram e se emocionaram com os textos sobre minha mãe em que abordo esse tema. Tudo isso me faz lembrar que a nossa história de vida faz parte de uma história coletiva. Para Maurice Halbwachs, a memória individual é estruturada a partir de diferentes pontos de referência que existem fora do indivíduo e que são determinados pela sociedade. São esses pontos de referência que inserem a memória de uma pessoa na memória dos grupos ao qual ela pertence. São eles que ajudam a ativar essas lembranças relatadas pelos leitores.  São eles que fazem com que o relato de uma vivência tão pessoal crie no leitor uma identificação com suas próprias vivências e lembranças.

CA: Ao longo dos textos, você cita algumas referências, como Caio Fernando Abreu e José Luís Peixoto. Como essas leituras influenciaram no seu processo de escrita?

CN: Caio Fernando Abreu foi a grande descoberta da minha adolescência. Me encantei pela forma como ele transformava sentimentos em narrativas, pelo modo como ele convertia o que para mim era quase indizível em diálogos, paisagens, personagens. Já Morreste-me, de José Luís Peixoto, me ajudou (e ajuda) a refletir sobre a dor, a ausência e a memória desencadeada a partir da morte. Durante o processo de escrita de Bolhas de sabão, reli todos os livros de ficção e memória da Lygia Fagundes Telles, observando como ela trabalhava a relação entre elas. Também reli João Anzanello Carrascoza, que transforma, por meio de suas narrativas, experiências corriqueiras da infância, como uma ida à praia com os pais ou o momento em que se conhece um novo vizinho, em pura poesia. Todos esses textos me ajudaram a encontrar o caminho que eu gostaria de percorrer ao contar minhas histórias. Outra influência importante no processo de escrita de Bolhas de sabão são os livros do escritor angolano Ondjaki em que ele mistura ficção e memória para escrever sobre sua infância vivida nos anos 80 em Luanda. Esses livros me ajudaram a revisitar esse lugar mágico chamado infância e a entender a importância da memória e do papel das avós na constituição da minha identidade.

CA: O texto de encerramento do livro é uma narrativa sensível do lugar da memória e da escrita em sua vida. O que restou da menina que queria ser poeta na Cláudia de hoje?

CN: A Cláudia de hoje reencontrou a menina que queria ser poeta, e colocar em prática o exercício da escrita e a atenção às miudezas (passadas e presentes) é a forma que encontrei de mantê-la viva em mim.

Leia também: Apocalypse Ever: resenha crítica do livro “Os Interiores”, de João Matias – O Odisseu

Bolhas de Sabão, Cláudia Neves
Editora Litteralux