‘Tenho urgência de não negociar com o que sinto’, diz Vitor Andrade, autor de ‘Todo dia o silêncio do mundo repousa em mim’
Em entrevista para a revista O Odisseu, Vitor Andrade (‘Todo dia o silêncio do mundo repousa em mim’) conta como a poesia é o seu lugar de plena liberdade.
Fotos de Amanda Tropicana (Divulgação).
Ano passado estive no lançamento de mais dois livros da série histórica “Cartas Baianas”, da excelente editora p55 no Rio Vermelho, em Salvador. Fui, principalmente, movido pela presença do meu amigo Saulo Dourado que também estava lançando um livro pela Cartas Baianas na ocasião. Não conhecia ainda Vitor Andrade, que também lançava o livro naquele dia. Fui rapidamente surpreendido pela fila que chegava até os autores e em especial ao Vitor que recebia abraços emocionados, congratulações repletas de afeto. Lembro de ter pensado que o rapaz certamente seria muito querido e logo nasceu a curiosidade pelo livro que recebi naquele mesmo dia.
Andrade é jornalista, assessor de comunicação e poeta. Foi finalista do Festival de Poesia de Lisboa e é um dos novos autores proeminentes da cena literária baiana. Sua escrita é marcada por um potente viés catártico. Num exercício de compromisso com os próprios sentimentos, o poeta não está disposto a escrever apenas sob o viés estético. “Eu realmente escrevo sobre o que sinto, quase que como exercício terapêutico mesmo, para dar vazão ao que está em ebulição por dentro”, me contou na entrevista que você lê a seguir. Uma conversa saborosa sobre o nascimento da poesia e sobre liberdade.
‘A poesia é um reflexo das minhas emoções’, diz Vitor Andrade autor de ‘Todo dia o silêncio do mundo repousa em mim’

Ewerton: No texto que abre o livro, você escreve Este livro é acima de tudo minha defesa de liberdade. Meu Manifesto. E também relaciona a escrita da poesia a partir da sua vivência enquanto pessoa LGBTQIA+. Gostaria que você falasse mais um pouco sobre estas coisas: liberdade e poesia. Como elas se relacionam na sua vida?
Vitor: A poesia é a ferramenta por onde consigo melhor expressar o que sinto, sem esconder nada. E acho que, nisso, ela se torna uma aliada da minha liberdade, um espaço por onde a vida pode ecoar livremente. Na poesia, eu me sinto absolutamente livre para estar sem medo, sem preocupações, dando voz até aos desejos que nem sempre consegui verbalizar fora dela. Acho que eu tenho mais coragem na poesia. A minha poesia é íntima e, ao falar das coisas que falo, pratico a liberdade.
Ewerton: Tua poesia tem uma sensualidade interessantíssima e um forte viés homoerótico também. Este último fator, sabemos, foi sempre algo muito recriminado na escrita e na publicação de livros. Como foi, para você encontrar a sua liberdade para escrever sob esse viés homoerótico?
Vitor: Acho que essa liberdade veio pelo cansaço, pela exaustão de me esconder. Por isso também digo que é uma defesa da liberdade. Não é algo inato, eu acho que fui percorrendo esse caminho com coragem e me fortalecendo para que a minha arte estivesse livre de concessões. Eu ainda tenho mais tempo de vida tendo escondendo minha homoafetividade que vivendo-a, então sinto que, no que eu escrevo, há urgência de não negociar com o que desejo. Ali é meu espaço sagrado onde quem dita as regras sou eu, não o outro.
Ewerton: No poema daquele beijo no rio vermelho, você começa com um eu te amo, o que eu achei muito bonito. Atualmente, sinto que os poetas têm evitado falar de amor tão abertamente com medo de ficar piegas, mas a sua poesia não nega romantismo. Noutras palavras, muito romântico. Versar a partir de um viés romântico nunca te preocupou em soar piegas?
Vitor: Não. Eu realmente escrevo sobre o que sinto, quase que como exercício terapêutico mesmo, para dar vazão ao que está em ebulição por dentro. Então me preocupa menos sobre como vai soar, porque aquilo tem que atender primeiro a mim, à minha necessidade de pôr pra fora. E como são escritos a partir das coisas que eu vivo ou desejo ou sonho, vai estar ali um relato honesto comigo, com a história, que às vezes vai ser piegas mesmo rs, outras vezes mais tórrida, outras mais sombria… É um reflexo honesto das minhas emoções.
‘Os não ditos inspiram demais minha poesia’, conta Vitor Andrade
Ewerton: Uma palavra se repete em diversos dos seus versos e também está no título: silêncio. Mais uma vez, no texto de abertura, você se apresenta como alguém que é do silêncio. Nesse sentido, gostaria de perguntar em que medida o não dito pode ser tão importante quanto aquilo que é dito na poesia.
Vitor: Os não ditos inspiram demais minha poesia. Eu acho que ela existe para suprir o não dito, porque nela eu posso tudo. Eu posso dizer tudo. O silêncio fez parte de muito do que vivi, e isso permanece, eu sou uma pessoa que falo pouco sobre o que sinto, mas só escrevo sobre o que sinto rs. Talvez eu precise dos silêncios para que a poesia exista e fale por mim.
Ewerton: No início do livro, há uma referência ao poeta Augusto de Campos no título do primeiro poema pós-tudo. Gostaria que você falasse de Augusto, se ele foi uma influência para você. E também quais as tuas referências na poesia.
Vitor: Nesse caso foi mais uma coincidência feliz do que uma inspiração. As minhas principais referências são Hilda Hilst, Vera Gondim, Myriam Fraga, Allen Ginsberg, Drummond…
‘Demorei muito para me reconhecer poeta’
Ewerton: Na sua apresentação do livro, está escrito que você é poeta desde a infância. Tão cedo assim você se reconheceu poeta ou percebeu posteriormente que sempre foi poeta?
Vitor: Demorei muito para me reconhecer como poeta, aceitar esse título é algo realmente recente para mim. Mas eu escrevo desde criança, acho que as minhas primeiras poesias eu tinha menos de dez anos e, apesar da óbvia falta de repertório (de vocabulário e de vivências), já tinha algum entendimento — por ver como eram as poesias — de um caminho estético, de preocupação com rimas, divisões, estrofes…
Ewerton: A cidade de Salvador e o cenário da Bahia como um todo é também algo recorrente nas suas imagens poéticas. Como este cenário do qual fazemos parte te inspira?
Vitor: Não tem como viver em Salvador e não se sentir inspirado por tudo o que acontece aqui. Eu tenho certeza que ser daqui e escolher viver aqui é algo que alimenta totalmente o que escrevo. Mas como escrevo a partir do que vivo e acho que é uma poesia muito imagética, é impossível não trazer o cenário para ela.
Ewerton: E depois deste teu lançamento, gostaria que você falasse do que vem por aí. O que você tem construído atualmente?
Vitor: Já trabalhando em reunir as poesias que vieram pós “Todo dia o silêncio do mundo repousa em mim” para um novo livro. Tenho gostado muito do que tenho escrito e acho que, essas poesias reunidas, vai ser um livro interessante de se ler. E permanece sendo poesias íntimas, quase que um diário confessional, que acho que é a única forma que eu sei escrever.

Todo dia o silêncio do mundo repousa em mim, de Vitor Andrade
P55, 2024
52pp.
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