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Sobre Valter Hugo Mãe, Pérsia e empatia

O encontro na FLIPOÇOS abordou outros assuntos, como o hábito da leitura, preço de livros e, claro, a obra de Valter Hugo Mãe.

Publicado originalmente em 28 de abril de 2025.

Fotos de Fernando Baldan

Pedro Pacífico bem que tentou fazer um pingue-pongue com Valter Hugo Mãe na parte final da entrevista, mas o prosador poeta, prolixo por natureza, diminuiu o ritmo com respostas longas, para deleite da plateia que os acompanhava na primeira noite da Flipoços, em Poços de Caldas, MG.

Uma das perguntas foi qual livro ele indicaria aos leitores. Mãe citou “A Metamorfose”, de Franz Kafka. “Ao contrário do que as pessoas discutem, o Gregor Samsa [protagonista] não é sobre o absurdo de alguém que vira uma barata, uma coisa ‘sci-fi’. Não. ‘A metamorfose’ é um desafio ao amor, à capacidade de amar. Para mim, a pergunta que está colocada ali é ‘que capacidade você tem de amar uma pessoa que você deixou de entender’. É isto que está em causa no Samsa e na família, o Samsa deixa de ser entendido”, disse, sob aplausos. 

Em outra resposta, o escritor voltou a abordar o exercício da empatia, desta vez, em viagens. A pergunta foi qual viagem tinha sido inesquecível para ele. “Irã […]. É preciso distinguir os regimes dos povos. Às vezes, me perguntam ‘como você conseguiu viajar para lá, com aquele regime’ […]. Os iranianos estão desesperados para ver aquele regime cair. Eles ficam tão gratos que alguém tenha coragem de fazer turismo no país. É um país absolutamente seguro. […] E barato. […] Além de tudo, o país tem uma música deslumbrante e é antiga Pérsia, né?”

“Cheguei a um ponto da minha vida em que aceito perfeitamente aquilo que me falta, aquilo que não deu certo”, diz Valter Hugo Mãe na Flipoços 2025

Pedro Pacífico e Valter Hugo Mãe na Flipoços 2025. Foto: Fernando Baldan/ O Odisseu

Aproveitando o comentário de Valter Hugo Mãe, é possível desmitificar um pouquinho mais a imagem que se tem do Irã. No Ranking Global da Paz, o antigo império persa não fica muito atrás do Brasil. Ocupa a 143ª posição entre 163 países, enquanto o Brasil está na 131ª.

Mais um dado para defender o escritor português em sua paixão pela Pérsia: Em 2024, o Irã recebeu cerca de 7 milhões de turistas, segundo o Ministério do Patrimônio Cultural, Turismo e Artesanato do país. Mais que o Brasil, que somou 6.657.377 turistas estrangeiros. Ambos são números recordes e respondem a contextos diferentes, como a maioria dos turistas que vão ao Irã serem de países vizinhos, mas fazem a gente pensar.

Pedro Pacífico, após a resposta de Mãe à sua pergunta, deu uma dica para quem não pode ou não quer ir ao Irã, por qualquer motivo que seja, mas tem vontade de conhecer a cultura do país. “Leiam ‘Persépolis’ [livro em quadrinhos da iraniana Marjane Satrapi]”. O autor português concordou.

O encontro abordou outros assuntos, como o hábito da leitura, preço de livros e, claro, a obra de Valter Hugo Mãe. Pacífico perguntou se o autor está satisfeito com quem ele é, mote do livro “O filho de mil homens”. “Não vou dizer que estou contente, porque eu falho em muitas coisas. Não faço muita coisa que eu deveria fazer […] Estou cada vez mais encalhado”, brincou. “Cheguei a um ponto da minha vida em que aceito perfeitamente aquilo que me falta, aquilo que não deu certo. A gente chega a um ponto em que tem que se perdoar”, prosseguiu. “Não quero ficar complexado e achar que sou um bicho anormal. Não. Eu até acho que sou mais normal que vocês todos.”

Teve espaço também para elogios à cultura brasileira, da qual o escritor é fã declarado. Em tom descontraído, Mãe chamou Machado de Assis de “Gucci da literatura” e contou que ouvia muito Legião Urbana na adolescência. “Já fui do rock […] O Renato Russo me impactou muito.”

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