
‘Ser existoso. (Arco de Almedina)’, poema de Safira Ferreira
A ida havia sido certeira, ver o arco de Almedina, mas/este encanto encabulado me teve em si como se/
precisasse – e muito lhe fui. Logo, perdida me decidi/seguir o som, mas sem dar contraste a principal ideia.
Imagem de capa: St. Anthony of Olivais church azulejo panel, autor desconhecida, s. d.
Me sentia parte úmida a minha volta, como se fosse
também o cheiro. Por uma rua eufórica me chamavam as
cores, essas vinham com camadas, de texturas e sabores,
a vida em voz alta no tal centro de Coimbra.
Avistei logo chegando, uma escultura de músicos
passados. Eram 3 homens, 2 instrumentistas e um cantor.
Os passados por ali eram tantos que percorriam também
o som, pois dado o pouco que ali estava pude ouvir, a
música – fado – vindo direta deles.
Música esta que me tocava os poros ao passar primeiro
dentro, como se também parte.
Não contive os apavoros internos que me submetiam
também os olhos. Eles ainda cantavam.
A ida havia sido certeira, ver o arco de Almedina, mas
este encanto encabulado me teve em si como se
precisasse – e muito lhe fui. Logo, perdida me decidi
seguir o som, mas sem dar contraste a principal ideia.
Ali senti que não a abandonara.
Porque guiada por este som, me encontrei com o arco
que procurava.
Todos os detalhes em mim não lhe são suficientemente
gratos por ver, ouvir e viver aquele lugar. A música cada
vez mais alta inundava a imagem que – por um milagre –
meu ser fazia parte.
A princípio não consegui encarar por muito tempo, não
me permiti digna de ver, não pronta para comtemplar o
todo. Precisei me afastar, atrás de mais uma estátua e,
naquele beco típico europeu com paredes altas, entrei
numa livraria de mesmo nome.
Lá fui chorar.
Os livros de plateia e parceiros; podia ouvi-los cochichar
amontoados incentivos para que eu olhasse, para que eu
estivesse; também físicos como matéria me faziam
acreditar que sim, ali estava. Observava então de longe o
arco pela porta de vidro – ali estava.
Decidi me aproximar, a música tão próxima que meus
ouvidos não mais ouviam sozinhos, minha pele também
cantava; meu ser se desprendia de mim para habitar e
encontrar os passados habitantes, encontrar espaços ao se
prenderem nas paredes altas.
Olhei, vi, enxerguei, passei.
Estava atravessando o arco, com a música, passando o
passado ali, me deixando viver me deixando ali.
(Minha mãe disse, antes de eu embarcar na viagem, para
não viver em correria e sim, sentir o tudo que
vivenciava. – Não presumi a intensidade).
Me demorei ao atravessar, apesar de que no outro lado
também habitava beleza – e ainda mais. Toquei as
paredes e – como de costume em lugares antigos – fechei
os olhos, senti o passado através delas e música, me fiz
lá e cá.
Por minutos me sentei numa pouca escada que havia ao
lado, para admirar o arco de frente – ou só recuperar o
fôlego que me fugiu em espantoso deleite. E o som
presente me ajudava a manter a ficha – que até hoje se
demora a cair.
Ali serviu de lar, notei também a movimentação para não
me perder naquelas paredes do arco. Abracei o tempo
fora, dentro e de longe, mas tão perto que me levou
consigo.
Logo no início do arco havia uma loja de pasteizinhos de
nata – típicos -, após muito observar precisei conhecê-los
também de perto. Uma brasileira simpática me atendeu.
Disse ter acabado de assar uma fornada.
O cheiro que muito me cobriu e ali, com todos os
sentidos satisfeitos em habitar o lugar, vivendo.
Provei o pastel, que me foi acometido de experimentar
com canela em pó por cima, quente, anestesiando o que
sobrou dos meus sentidos.
Pedi alguns para viagem – assim, os meus poderiam se
sentir tão amados com isso ao notar o quão especial fora
para mim.
Espiei ainda mais o arco, passei e repassei, até me ver
segura e guardar de ti em memória. Assim existi. Logo
adiante, segui a linda rua dos restaurantes com decoração
de tecidos no céu.
…

Safira Ferreira
Jornalista que é poeta de berço. Tem 25 anos, é autora de 2 livros e pesquisadora na área cultural e linguística. Também trabalha com internet no nicho de cultura – cinema e literatura.
