Ensaio

‘Réquiem ao Nefililim’, por Dênisson Padilha Filho

Publicado originalmente em 11 de dezembro de 2024.      

A partida de Dalton Trevisan representa a morte de um ícone da Grande Arte Literária, livre de balizas, epifanias e moral. 

      Por uma estreita e compreensível afeição a ‘ser do contra’, no Ensino Médio, tentei evitar a leitura de Cemitério de elefantes, já que todos na classe o estavam lendo. Até que, a certa altura, a professora determinasse a leitura obrigatória daquele livro do ‘Vampiro de Curitiba’. Àquela época e com a idade que estava, ler me aproximava da regra, do hegemônico e do normativo e, de certa forma, isto me associava a greis, salas-de-aulas ou figura paterna. Talvez por isso eu costumava recusar as leituras que vinham por essas vias. Mas isso mudou quando fui introduzido à obra de Trevisan. Ele conferia à rua, ao sangue e à chuva cinzenta a dádiva da antilíngua chamada Literatura. Tudo o que um rebelde e esquivo de 16 anos procurava.

      Mais tarde e um pouco mais maduro me debrucei sobre 99 Corruíras Nanicas, A Polaquinha, Duzentos ladrões entre outros. Dalton Trevisan era escritor de uma época sem computadores ou recursos periféricos que diluíssem a importância do fazer literário ou mesmo dispersassem a atenção do artista ante o seu ofício. Talvez haja em sua morte um mau agouro ou profecia subliminar, como pista de que, daqui pra frente, a Literatura é uma estátua impassível, em redor da qual influencers abanam a cauda e se abraçam enquanto distribuem panfletos e textos agradáveis de afeto e de justiça social. 

      Por sorte, o desamparo da perda tem um grande consolo: o Vampiro deixa sua obra, sempre dotada de humor, agilidade, deboche e apuro estético, para qualquer tempo, e por gerações a se perder de vista. Estará conosco a arara bêbada, a redonda lua azul de olho amarelo, o seio de olhinho aberto, um para cada lado. E assim a morte segue, surrupiando mestres e legando a nós outros, que ficamos, uma vertigem de página em branco. Mas já não tanto assim. 

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Dênisson Padilha Filho é escritor de ficção. Seu mais novo lançamento é Fúria talvez (P55 Edição, 2024, contos). É mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA. É autor de Rock Circus (P55, 2022, contos), Um Chevette girando no meio da tarde (Mondrongo, 2019, contos), Eram olhos enfeitados de Sol (Penalux, 2017, novela), Trilogia do asfalto (P55 Edição, 2016, contos), O herói está de folga (Kalango, 2014, contos), Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012, contos e novelas), Carmina e os vaqueiros do pequi (2003, romance) e Aboios celestes (1999, contos). Participou de algumas antologias e tem textos publicados em diversas revistas literárias. Foi vencedor do Prêmio Internacional Cataratas de Contos – 2015.

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