Conto

‘Reciclagem’, um conto de Laís DePaula

Arte de capa: ‘Crabs Storm North Americade Ai Weiwei’s.


A radiografia comprovou que ela não vivia mais sozinha. O médico, homem de gestos treinados trouxe um copo d’água. Estendeu. Ela não bebeu.

Pensava que caranguejos precisavam do mar — maré que vai e volta. Prendeu a língua entre os dentes na boca salgada. Mais tarde, descobriria: os seus eram caranguejos de rio.

A gente ouve. Ouve o que precisa ser feito, o que evitar, para quem ligar. Mas as gotas de suor tomam o lugar da voz. 

— Entendeu?

Precisaria desabrigá-los. Levou a mão preocupada aos seios.

— Não dá para tocar. Estão muito fundo.

O médico disse que ela já podia ir. O corpo se ergueu sem saber para onde. Misturou-se, no corredor, aos azulejos brancos. 

  — O que é isto, mamãe? — na praia. A primeira vez.

— Uma ninhada de caranguejos. Tome cuidado para não pisar neles.

— Eles moram aqui?

— Não. Estão procurando o mar.

Criou uma trilha na areia para guiá-los, mas os bichinhos a ignoraram.

Agora, já velha, eles acharam a trilha. Corriam dentro dela. No diafragma. Ela nem sabia que tinha um, mas onde ia, eles iam.

— Recomendo radioterapia.

Ela seguia as ordens. Ligava o rádio. Música baixa, cantos de sereias. Mas os crustáceos, amarrados a seus mastros, não cediam. 

— Não entre no mar sozinha, ouviu, Maria?

Não ouvira Aos cinco anos de idade, ouvia pouco e corria muito. Entrou. Acordou com um sopro da mãe em seus lábios.

— Por que está chorando, mamãe?

Os caranguejos brincavam por horas nos quintais de seu corpo. Indiferentes às varas de pesca dos médicos-cirurgiões e à imagem de Santa Rita de Cássia, posta com velas em sua cabeceira — pobre Santa, parecia exausta. Malcriados, viravam a cara para os medicamentos. Os nomes longos. Mas que peixe comeria uma minhoca assim com gosto de Novalgina?

O médico disse que o diafragma é como um véu. 

— Quero casar na lua cheia, Ramiro. Lá no açude.

— Ninguém casa em açude, Maria.

— Eu caso. Sinto falta do Paraná. Da praia. 

Depois que Ramiro foi embora, a lua ficou pequena. Os caranguejos iam e vinham. À noite, notava as patinhas de pinça, por travessura, puxarem os fios do couro cabeludo, um por um, até cansarem. Quando dormiam, ela varria os chumaços do chão sem fazer barulho, porque também aprendera a minguar.

Olhava-se no espelho para ver o mangue e a cada biópsia se perguntava se: um pedacinho de carne bem cortado, com cuidado botânico, poderia se comportar como semente de gente?

— Vou te colocar na fila do transplante, Dona Maria. 

— Se você trocar todas as tábuas o resultado ainda será o barco de Teseu, Doutor? 

Ele riu. Ela se lembrava que esta foi a primeira vez que o médico riu com ela — mas não lembrava o que ele havia respondido. 

As larvas de caranguejo — zoéias — foram renomeadas: neoplasia pulmonar com metástase. Estágio IV. A vida de quem tem caranguejos é distinta. Dorme-se e acorda sabendo da matemática. Ela não era boa com números. Sabia pintar. Pegava suas telas e tintas e ia criando, grão por grão, uma praia.

Esqueceu-se de comer. Depois, de dormir. Passava o dia inteiro no projeto de britagem das suas histórias.

— Quando a sua mãe nasceu, eu e Ramiro viajamos de ônibus por dias para o Paraná só para ela ver a praia. Ela comeu areia, pensou que era farinha.

—  Você  ja contou isso, vó. Como é que você faz para desenhar água feito vidro? 

— Com areia. 

Nesta época, ela trocara o “tchau” por “eu te amo”.

Caranguejos têm brânquias adaptadas para extrair oxigênio do ar, mas precisam de ambientes úmidos para respirar. Ela estava marejando. 

— Pode chorar na minha frente, filha — mentia. 

Queria vomitar , e se vomitava, nauseava e se ofendia. 

— Que inferno!

Gritava alto, depois baixo e com o tempo, aprendeu a marejar em silêncio. 

Uma noite, veio a lua nova. Sentiu que era tempo de muda. Dirigiu-se para à praia que criara, carregando todos aqueles ovos em seu corpo — que agora era toda bagagem. 

Cavou uma toca profunda na areia branca, à mercê das correntes, e despiu-se das roupas de mulher. Abriu-se sob as ondas, longe dos predadores, e, com movimentos leves, foi retirando os excessos. Permitiu-se jorrar em água. Banhou com ternura: a palha do milharal no Paraná, o cheiro da flor de laranjeira nos cabelos, o véu molhado de açude, a filha escorrendo do meio vermelho de suas pernas.

Tudo ficou azul. Limpo. Quase paz.

Nus diante do mundo, romperam dela milhões — às vezes milhares — de zoéias.

Os caranguejos comem folhas caídas do mangue-vermelho, digerindo o que os grandes organismos não conseguem. Fazem reciclagem.  Estes bichinhos, no abrigo do rio de seu peito, achavam que a água era doce, que o mundo era contenção. Mas saíram do mergulho no outro: o mar, salgado e imenso.

Quando experimentaram o sal pela primeira vez, a verdade fez um torvelinho tão forte que era susto, era nascimento. 

Canta vó, canta:
Caranguejo não é peixe (não é!)
Caranguejo peixe é (é!)
Caranguejo só é peixe
Na enchente da maré

Não eram mais crustáceos — e sim partículas de luz.

— Não. O resultado não é o mesmo barco. 

Era uma constelação com nome de bicho. Foi assim que ela inventou as estrelas.

Poeta mineira, Lais DePaula construiu sua trajetória literária com publicações de poemas e micro-contos em revistas e coletâneas em 2022 e 2023. Em 2024, lançou seu primeiro livro de poesias, O que os olhos não veem, o coração inventa, consolidando seu estilo lírico-existencialista, marcado por musicalidade, simbolismo e reflexões profundas sobre a condição humana. Atualmente, dedica-se à criação de seu primeiro livro de contos de literatura fantástica, explorando novas fronteiras da imaginação.