Ensaio

Rachel de Queiroz: Uma feminista (?)

Especial de 115 anos de Rachel de Queiroz: Feminista ou não, Rachel buscou retratar os problemas do Sertão e o Brasil através do olhar feminino, algo até então incipiente na literatura pátria do período de 30 e mesmo das décadas seguintes.

Foto: Acervo do Instituto Moreira Salles.


Heloísa Teixeira (à época Buarque de Hollanda1) chega a uma fórmula incomum ao dizer que Rachel era “uma feminista a seu modo”. Suas personagens não negam essa suspeita, pois sendo em sua grande maioria heroínas destemidas, desafiam a imagem de sua própria criadora, igualmente rebelde e corajosa. Rachel foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras e também foi a primeira do seu sexo a ser laureada com um Prêmio Camões. Muito antes, já havia sido pioneira no Movimento Modernista. No entanto, mais do que um simples nome conhecido em nosso meio literário e acadêmico, Rachel de Queiroz foi uma das poucas em seu tempo “a complexificar a personagem feminina através de seus romances e crônicas, contrapondo-se ao estereótipo criado pela obra de autores brasileiros desde o Romantismo do século XIX e perpetuado pelos companheiros de letras […] no século seguinte”2.

Afrânio Coutinho, atento às questões de gênero na escrita sertaneja de Rachel, chega a retorquir muitos críticos, quando afirma: “a temática principal da autora, dentro do pano de fundo dos problemas geográficos e sociais nordestinos, é a posição da mulher na sociedade moderna, com os seus preconceitos morais e sociais”3. Isso porque, a maioria dos comentadores associavam os romances de Rachel tão somente ao regionalismo, esquecendo-se a forma ímpar como a autora enfrentava o problema da seca relacionado aos dilemas femininos da época. Como toda obra regional que se universaliza, “as mulheres de Rachel são sensíveis aos problemas sociais do país, não apenas da região Nordeste […] e com tudo isso elas se confrontam e por tudo isso são confrontadas a si-próprias e à sua condição privilegiada”.4

Em um pequeno desenrolar desse novelo, é possível perceber fortes traços da primeira e segunda ondas em Conceição, quando “ousava” pegar em livros, desses que tratam “da questão feminina, da situação da mulher na sociedade, dos direitos maternais, do problema…”5 e se dedicar aos estudos, aos rascunhos de seu próprio manual de pedagogia e até alguns sonetos e poemas. Há ainda elementos da quarta onda, pela “indecência” de não querer casar e também não ter filhos ou família, viver livre, como toda mulher deve ser: 

— E minha filha, para que uma moça precisa saber disso? Você quererá ser doutora, dar para escrever livros?
Novamente o riso da moça soou:
— Qual o quê, Mãe Nácia! Leio para aprender, para me documentar…
— E só para isso, você vive queimando os olhos, emagrecendo… Lendo essas tolices…
— Mãe Nácia, quando a gente renuncia a certas obrigações, casa, filhos, família, tem que arranjar outras coisas com que se preocupe… Senão a vida fica vazia demais…
— E para que você torceu sua natureza? Por que não se casa?
Conceição olhou a avó de revés, maliciosa:
— Nunca achei quem valesse a pena…
6

A mesma liberdade almejava Maria Augusta (Guta) em As Três Marias (1939). Após sair do colégio de freiras e passar um breve período na casa dos pais, resolveu prestar um concurso para datilógrafa na Capital, o que lhe daria autonomia financeira e a possibilidade de ser dona do próprio destino. Em um trecho da narrativa, Guta revela sua insatisfação com o ambiente repressor, tanto doméstico quanto acadêmico, a que sempre esteve presa por ser mulher:

Em casa a monotonia era tão opressora, tão constante, que chegava a doer como um calo de sangue. […] O fim apologético daquilo tudo era preparar em mim a futura mãe de família, a boa esposa chocadeira e criadeira. Eu, no entanto, sentia apenas que queriam aproveitar minha presença em casa, tirar serviços de mim, e os mais desinteressantes e inglórios. E ninguém me entendia, admiravam-se que, depois de tantos anos de reclusão e disciplina, eu só quisesse, só aspirasse à liberdade e aos prazeres proibidos. Como se a prisão acostumasse o prisioneiro, e ele, depois de solto, não desejasse mais nada senão voltar à farda de preso e à ronda noturna no pátio!7

Esse sentimento de exílio, prisão, sofrimento, cadeia etc. são marcas da vivência feminina em uma sociedade que constantemente lhes tolhe o ato inaugural de suas próprias vidas. Isso justifica a busca obstinada dessas mulheres por emancipação financeira e emocional, já que só assim poderiam gozar os próprios desejos e vontades, tornando-se, enfim, personagem principal de suas histórias e não apenas coadjuvantes de um enredo forçado. No romance João Miguel (1932), Zé Milagreiro chega mesmo à conclusão de que não existe no mundo “qualidade de gente de sorte mais desgraçada” do que a mulher. Se casa, vem logo a família e as obrigações maternas. Se se lança ao mundo, fica logo mal falada. Agora, se fica moça porque não achou casamento e tem medo de se perder, lhe resta o rosário e mil quarentenas de rezas, “sem ter tido nunca um gosto na vida”.8

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Muito embora o exemplo não seja tão atual quanto o fora em décadas passadas, a dependência da figura masculina na construção da identidade da mulher e dos espaços em que ela pode transitar, não deixa de ser evidente em nossos tempos. É o que sucede a Maria Elói, Filó e Santa. As duas primeiras são deixadas na cadeia, uma por tentar assassinar a amante do marido e outra após ferir um homem, durante uma bebedeira em um bar. Nem Santa, escapa ao infortúnio, após deixar João Miguel quando este começa a desconfiar de sua fidelidade, torna-se dependente do Cabo Salu. Ao final da trama, Santa é abandonada por Cabo Salu e termina em decadência absoluta, agravada pela morte de seu filho recém-nascido. 

Outra personagem que desperta nosso interesse é Noemi de Caminho de Pedras (1937). A ambivalência à maneira de Teodoro e Vadinho, também parece percorrer a dualidade entre seu marido, João Jaques, e sua relação com Roberto, um jornalista ligado ao bloco operário. Ao tempo que ia se integrando ao movimento comunista, deslumbrada com todas aquelas ideias, Noemi se via cada vez mais próxima de seu amante, com quem pôde efetivamente desfrutar os prazeres da liberdade:

Vinha com a cabeça cheia de histórias novas, de mulheres heroicas, livres, valentes. Sem noção, naquele momento, das contingências da sua vida, da disciplina doméstica, da cama comum, da promiscuidade e dos compromissos com alguém. Era apenas uma alma livre, ouvindo a história de outras almas livres. Fugira do seu centro habitual de gravidade, perdera a noção do cotidiano, do pão nosso de cada dia. Naquele momento, nada era moral nem imoral, nada proibido nem permitido; não havia hora, não havia espaço: só a embriaguez do momento de revelação, do momento de compreensão.9

Todavia, um final trágico encerra a história. Destroçada pela separação, após Roberto confessar o caso para João Jaques, Noemi passa a sentir o peso do adultério, culpando-se amargamente pelo ocorrido e por seu marido ter lhe deixado. Mas, a dura verdade “é que um homem traído, desprezado, vai embora. Quando não mata, como muitos. Ir embora, era, afinal, o menos que ele podia fazer”10. Por ocasião de uma doença, Noemi ainda perde seu filho, Guri. Na última cena, tem-se Noemi grávida de Roberto, com este desaparecido após ter sido pego distribuindo folhetins comunistas. Subindo uma ladeira, Noemi recorda todas essas aflições, sozinha e errante mundo afora.

Até aqui, as mulheres de Rachel despontam com sua ânsia por liberdade, sem medo de viver uma vida fora dos trilhos, mas todas elas, invariavelmente, terminam por lamuriar a própria infelicidade:

Talvez seja essa a chave de leitura para um certo esquecimento da crítica literária feminina em relação a Rachel de Queiroz e seus romances. Não sendo uma feminista, Rachel criou personagens que se comportam e agem como se fossem feministas: Conceição, Santa, Noemi e Maria Augusta não se submetem às normas sociais nem se deixam dominar pelo poder masculino. As quatro personagens rompem com o modelo tradicional e patriarcal de família e escolhem um modo de vida divergente do que é comumente aceito na sociedade brasileira do início do século XX. Mas essa liberdade de escolha e poder de decisão não são suficientes para garantir a felicidade para nenhuma delas.

Não se explica, de fato, as intenções da autora com o fatídico fim dessas mulheres, ainda que se possa intentar uma saída pela visão ofuscada de Rachel acerca da realidade sertaneja, onde os finais felizes são quase inexistentes. Ao revés, esse timbre violento e apolíneo, talvez oculte um aspecto pendente nas discussões sobre o feminismo, pois a mulher que vive no Sertão, sofre um machismo duplo, tanto do homem, quanto da terra. A vida da mulher sertaneja é antes tudo uma vida ingrata. Habita o purgatório e o inferno, jamais conhece o paraíso. Coragem! Coragem é o que define essas mulheres. No Sertão, a lição pela pedra é antes de tudo uma pedagogia feminina; inenfática, concreta, compacta e muda, “lá não se aprende a pedra: lá a pedra, uma pedra de nascença, entranha a alma”11. Nascidas da pedra, a pedra é que lhes acompanha até o último suspiro. E, nisto, não se admira que todas elas compartilhem de um mesmo anseio: a liberdade.

Memorial Maria Moura: a faceta do feminismo sertanista de Rachel de Queiroz

A escritora brasileira Rachel de Queiroz, no Quixadá-CE em 1998. Foto de Eder Chiodetto/Folha Imagem.

Em Memorial de Maria Moura (1992), último romance de Rachel de Queiroz, a faceta deste “feminismo sertanista” parece encontrar um ponto de realização. Maria Moura é o retrato fiel daquilo que suas antecessoras nunca houveram de concretizar:

Eu sonhava em ganhar os caminhos, atrás dos comboieiros, tangendo tropa de burro. Teve um cantador no Limoeiro que, no desafio, quando um perguntou ao outro onde é que ele morava, o cabra soltou a voz e respondeu: “Em cima das minhas alpargatas, embaixo do meu chapéu…” Fiquei sonhando com aquela liberdade. Meus sonhos de menina não eram sonhos de mocinha; Mãe se escandalizava. Pois agora eu era livre. Em cima do meu cavalo Tirano, embaixo do meu chapéu de palha…12

Maria Moura é a personificação da mulher autossuficiente, mulher que não depende de homem nenhum para alcançar os seus objetivos, mulher solta, mulher livre, mulher sem medo… Mulher! Moura tinha horror a casamento e jamais admitia qualquer tipo de subordinação. Dona de si e do seu destino, também não se preocupava com essas questões de “virgindade” e outras hipocrisias morais que até hoje moldam o arquétipo da “mulher digna”13. Quando buscava satisfazer sua libido, era sempre ao seu modo: “O fato é que, comigo, quando se tratasse de homem, tinha que ser sempre eu quem dava o sinal”14:

Um homem mandando em mim, imagine; logo eu, acostumada desde anos a mandar em qualquer homem que me chegasse perto. […] Um homem me governando, me dizendo — faça isso, faça aquilo, qual! Considerando também dele tudo que era meu, nem em sonho — ou pior, nem em pesadelo. E me usando na cama toda vez que lhe desse na veneta. Ah, isso também não.15

Acerca desta personagem emblemática, Rachel já chegou a afirmar: “É tudo o que eu queria ser e não consegui”16. A fala parece soar como um lamento em não ter alcançado os mesmos feitos de sua heroína. Talvez até uma autocrítica em face de algumas posições controversas, ou um cisma existencial pelo que “poderia ter sido”, porém preferiu “não ser”. Em todo o caso, isso não diminui as suas conquistas pessoais e, muito menos, retira o mérito do seu legado. Feminista ou não, Rachel buscou retratar os problemas do Sertão e o Brasil através do olhar feminino, algo até então incipiente na literatura pátria do período de 30 e mesmo das décadas seguintes. Com seu jeito aguerrido, enfrentou preconceitos e fez de sua escrita o próprio ato de rebeldia contra o machismo. Devido a sua personalidade arrojada e sagaz, ganhou de Ariano Suassuna o apelido de Emília, em alusão à travessa personagem de Monteiro Lobato. Se, para Emília, bastou à pílula do Dr. Caramujo para começar a falar e outras peripécias, “para Rachel, bastou um lápis, um caderno e a luz de um lampião, durante as madrugadas silenciosas no chão da casa do Pici”.17

Em síntese, pode-se dizer que, no fim das contas, Rachel foi a grande matriarca da literatura feminina brasileira, e por mais que dissesse não ser feminista, agiu como uma, e suas personagens, tal o reflexo da autora e reflexo de si mesmas, foram ainda mais. Rachel provou que quando uma mulher se rebela o mundo inteiro se cala. Quem não se calou para ouvir Rachel de Queiroz? Quem quando abriu um de seus livros não se converteu a suas ideias? Quem poderia negar a sua importância para uma reviravolta completa em nosso atônito regionalismo masculinizado? Por muito tempo, a crítica especializada destinou esforços no intuito de decifrar Rachel, mas nunca foram capazes de compreender os (des)caminhos tomados pela autora. Pois, desta feita concluímos: não é necessário entender Rachel para sentir todo o fervor e pulsões provocados pela sua obra. E para aqueles que ainda insistem em uma definição, aqui vai o nosso último remate: Rachel foi Rachel. Viveu como Rachel. Morreu como Rachel. Simplesmente, Rachel. Eternamente, Rachel!

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  1. HOLLANDA, Heloísa Buarque de. A roupa da Rachel: um estudo sem importância. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 0, n. 0, 1992, p. 96. ↩︎
  2. GUERELLUS, Natália de Santanna. Rachel de Queiroz: mulher, escritora, personagem. ANPUH –XXV Simpósio Nacional De História. Fortaleza, 2009, p. 1-2. ↩︎
  3. COUTINHO, Afrânio (Org.). A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Editorial Sul Americana S.A., 1970, p. 219. ↩︎
  4.  CHIAPPINI, Lígia. Literatura e cultura no Brasil: identidades e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2002, p. 170. ↩︎
  5. QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012, p. 69. ↩︎
  6. Ibidem. ↩︎
  7. QUEIROZ, Rachel de. As Três Marias. Rio de Janeiro: José Olympio, 2018, p. 101. ↩︎
  8. QUEIROZ, Rachel de. João Miguel. Rio de Janeiro: José Olympio, 1957, p. 202. ↩︎
  9. QUEIROZ, Rachel de. Caminho de Pedras. Rio de Janeiro: José Olympio, 1937, p 73. ↩︎
  10. Ibidem, p. 144. ↩︎
  11. MELO NETO, João Cabral de. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 139. ↩︎
  12. QUEIROZ. Rachel de. Memorial de Maria Moura. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009, p. 63. ↩︎
  13. Até 2009 vigorava no Código Penal a condicionante da “mulher honesta” para consumação dos crimes de posse sexual e atentado ao pudor mediante fraude. Tal expressão ainda pode ser encontrada em alguns manuais de Direito Penal, sobretudo, os mais antigos. Veja-se o seguinte excerto de um dos mais importantes penalistas brasileiros, ainda hoje referendado em decisões judiciais: “A vítima deve ser mulher honesta, e como tal se entende, não somente aquela cuja conduta, sob o ponto de vista da moral sexual, é irrepreensível, senão também aquela que ainda não rompeu com o minimum de decência exigido pelos bons costumes. Só deixa de ser honesta (sob o prisma jurídico-penal) a mulher francamente desregrada, aquela que inescrupulosamente, multorum libidini patet, ainda não tenha descido à condição de autêntica prostituta. Desonesta é a mulher fácil, que se entrega a uns e outros, por interesse ou mera depravação (cum vel sine pecúnia accepta)” (HUNGRIA, Nelson; LACERDA, Romão Côrtes de. Comentários ao Código Penal. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p. 150). Outro exemplo prático de princípios igualmente machistas, era o dever de conjunção carnal da mulher casada, muitas vezes utilizado como excludente de ilicitude nos casos de estupro praticado pelo marido. (Cf. NORONHA, Edgard Magalhães. Direito penal. São Paulo: Saraiva, 2002, p. 70). ↩︎
  14. QUEIROZ. Rachel de. Op. Cit., p. 230. ↩︎
  15. Ibidem. ↩︎
  16. Apud HOLLANDA, Heloísa Buarque de. O ethos de Rachel…, p. 64. ↩︎
  17. ACIOLI, Socorro. Rachel de Queiroz. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2016, p. 10. ↩︎