Especial 90 anos de Raduan Nassar

‘Quanto custa um lugar à mesa do pai?’ – Uma leitura de ‘Lavoura Arcaica’, de Raduan Nassar

Em “Lavoura Arcaica”, uma releitura da Parábola do Filho Pródigo, presente na Bíblia, não há, necessariamente, uma subversão da figura do Pai que é a representação do próprio Deus. Na verdade, o que existe é um profundo estudo dessa figura paterna, radicalizando-a até o limite possível.

Foto: Eduardo Knapp (Folhapress – 2021).


“Deus ama o pecador, mas não o pecado”. “Venha como você está, mas não fique como você está”. Crescendo no cristianismo, ouvi sempre essas frases e percebi logo que o amor de Deus Pai não poderia me salvar da condenação. Mesmo me amando, Deus estaria disposto a me jogar num lago de fogo para sofrimento eterno se eu o desobedecesse. Cresci, portanto, com a imagem nítida em minha mente do sofrimento de Deus vendo o perdido. Por outro lado, isso coloca um limite neste amor dito incondicional. Ou seja, o amor divino não podia tudo. Esbarrava numa única questão: a minha desobediência. A desobediência seria o que me levaria ao inferno e, nesse caso, ser amado por Deus não me ajudaria em nada. Seu amor sem limites não se compadeceria por mim a partir do momento em que eu conscientemente o desobedecesse. 

Não por acaso a representação humana do amor divino é o amor do pai. A rigidez masculina, o compromisso com princípios inegociáveis e o amor a si mesmo viriam sempre à frente do amor aos filhos. O Deus cristão-judaico só ama uma coisa mais do que ama às suas criaturas: a si mesmo. Uma vez, ouvi de um pastor: “Deus obedece à própria Palavra” e nunca me esqueci. 

Esse amor é o oposto do amor maternal: o amor que cuida, que zela e que é incondicional. Nos programas policiais sensacionalistas de Salvador, quando sem ética alguma são exibidos os marginais presos em flagrante por tráfico de drogas ou por roubo, é muito raro ver os pais desses presos, mas as mães estão sempre lá. Uma mãe não abandona o filho em questão alguma. 

Lembro de Maria no Calvário do Cristo, seu filho. O Pai o abandonou, a mãe, não. Lembro das entrevistas após o recente massacre na Penha. Uma mãe disse: “eu não apoiava o que o meu filho fazia, mas não iria abandoná-lo”. 

“O filho pródigo”, por Rembrandt Harmensz van Rijn (Reprodução – via WikiArts).

A paternidade

Em “Lavoura Arcaica”, uma releitura da Parábola do Filho Pródigo, presente na Bíblia, não há, necessariamente, uma subversão da figura do Pai que é a representação do próprio Deus. Na verdade, o que existe é um profundo estudo dessa figura paterna, radicalizando-a até o limite possível. André, o personagem que encarna o filho pródigo, sai de casa não em busca dos prazeres do mundo, mas fugindo do punho de ferro do pai. 

e  o  pai  à  cabeceira  fez  a  pausa  de costume,  curta, densa,  para  que  medíssemos em  silêncio  a  majestade  rústica  de  sua  postura:  o  peito  de  madeira  debaixo  do algodão  grosso  e  limpo,  o  pescoço  sólido  sustentando  uma  cabeça  grave,  e  as mãos  de  dorso  largo  prendendo  firmes  a  quina  da  mesa  como  se  prendessem  a barra de um púlpito;  e aproximando depois o bico de luz que deitava um lastro cobre  mais  intenso  em  sua  testa,  e  abrindo  com  os  dedos  maciços  a  velha brochura,   onde   ele,   numa   caligrafia   grande,   angulosa,   dura   trazia   textos compilados,  o  pai  ao  ler  não  perdia  nunca  a  solenidade:  ‘Era  uma  vez  um faminto’.

(Raduan Nassar em Lavoura Arcaica).

Se na parábola bíblica, temos o jovem que pede a sua herança para viver os prazeres da carne, na parábola de Raduan Nassar, um filho sai de casa não de inteira voluntariedade e também sem tesouro algum. A herança que carrega é o estigma do desamor, do medo e do sofrimento. O jovem epilético está ciente, previamente, que a comida dos porcos o aguarda, mas ainda assim prefere estar longe. Prefere a comida dos porcos à mesa do Pai. O custo de estar com o Pai é mais alto. 

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
(José Régio, no poema Cântico Negro). 

Isso diz respeito às microviolências que a família também provoca. Não por acaso, o fascismo e outras formas de opressão vinculadas ao conservadorismo extremo se relacionam com a ideia de família. Às vésperas da ditadura militar, por exemplo, um fato interessantíssimo ocorre: A Marcha da Família com Deus pela Liberdade que anunciava anunciava em faixas: “O Brasil não será a nova Cuba”. A família acaba sendo, como vem afirmando Milly Lacombe (e extremamente perseguida por dizer isso), a menor célula do fascismo ou a antessala da opressão política. Não por acaso, também, existe um apelo forte na igreja evangélica e católica pela sagrada família. A obediência cega ao homem, a quem devem obedecer os filhos e também a mulher, é a estrutura que sustenta a superestrutura do mundo patriarcal. 

Esse microcosmo (que contempla todo o cosmo) é bem representado no texto de Nassar. “Lavoura Arcaica” apresenta esta família tradicional, cuja figura patriarcal representa mais do que o pilar da casa, é a Lei. O Pai é Deus. André, por outro lado, não é o anjo caído, o rebelde que quer ser Deus. Não, ele ama a Casa e a Família. Ele é apenas dissidente, um corpo que não pertence à ordem, que foge à regra não porque quer, mas porque assim o é. 

foi  um  milagre,  querida irmã,  e  eu  não  vou  permitir  que  este  arranjo  do  destino  se  desencante,  pois  eu quero  ser  feliz,  eu,  o  filho  torto,  a  ovelha  negra que  ninguém  confessa,  o vagabundo irremediável da família, mas que ama nossa casa, e ama esta terra, e ama também o trabalho, ao contrário do que se pensa…

(Trecho de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar)

O Corpo que foge à norma

Ao contrário do Filho Pródigo, não há gozo em André por abandonar a Casa. Há saudade. Porque ele ama até mesmo a norma do Pai, só não consegue obedecê-la. E o Pai será sempre fiel à sua própria Palavra, cativo à ela. Não será, de forma alguma, contornável. O amor que o pai sente pelo filho não será o suficiente para salvá-lo. Algo é maior que o amor: a fidelidade à Palavra.

Ao escrever sobre o Pai, Raduan Nassar não escreve apenas sobre a família, mas sobre norma e contravenção. Trata-se do pertencimento ao statuo quo e também do desvio à norma. O que pode um corpo transviado? Quantos corpos, como o de André, cuja essência em si não cabe no formato pré-estabelecido, também desejariam estar ainda em casa? Há espaço para o corpo epilético, incestuoso e rebelde na mesa? Na família?

Assim como esses corpos precisam se adequar ao formato, num ato de castração total para submissão ao Amor, também os corpos ditos enfermos são celebrados nesse processo de negação a si mesmo. Pegue sua cruz, adeque-se, restrinja-se, submeta-se. Tire os seus piercings, esconda o seu corpo, não ame quem você ama e não ame nem mesmo a si próprio. Esse é o custo para estar na mesa. 

André tem febre. Sua essência é o próprio desvio. Seu adoecimento e dor será lido como consequência do seu pecado e não como consequência da opressão familiar. Por incrível que pareça, o caminho mais fácil não é o caminho do pecado. Não há porta larga em escolher ser quem é. Não. O caminho mais fácil é se adequar e fingir que faz parte da norma. É fácil porque estamos acostumados a isso. Mas André não escolhe o que é fácil.

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
(José Régio em Cântico Negro). Em André, Raduan Nassar apresenta todo aquele que foge à norma. De certa forma, é a personalização da ideia de ovelha negra, sendo ele a perfeita representação da vida de quem não tem outra opção senão negar o espaço à mesa. Isso demonstra que Lavoura Arcaica não é simplesmente uma obra que fala da família, mas da superestrutura do patriarcado.

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Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar
Companhia das Letras, 1975.
200 pp.