
Primeiro capítulo de “Cercas Vivas”, romance de estreia de Rai Gradowski
Leia com exclusividade na revista O Odisseu, o primeiro capítulo do romance “Cercas Vivas” da paranaense Rai Gradowski: um romance lésbico envolto em nostalgia.
Foto: Eve Ramos.
Uma mala azul desbotada, duas mochilas com os zíperes explodindo os dentes, uma caixa de papelão remendada na lateral e outra de acrílico com tampa (boa para organizar bagunça, segundo minha mãe, fingindo interesse na minha partida): meus vinte e cinco anos empacotados no chão da sala.
No piso de caquinhos vermelhos, frios demais para Curitiba, minha infância inteira refletida no sol da manhã que transpassa as portas-janela.
Dali eu quase sinto o perfume do bolo de cenoura escapando pelo balcão da cozinha americana e percorrendo a sala e o corredor e os dois quartos. Mas minha memória olfativa logo evapora e volto a sentir o cheiro forte de guardado.
Entro no quarto dela e não me deparo com o copo d’água coberto pelo paninho de renda na mesa de cabeceira, nem com o vaso de flores que pareciam nunca murchar sobre o aparador na frente da cama. Forço na memória a última vez que vi essas imagens, mas nada. Se eu não tivesse passado tantos finais de semana tentando matar o tédio com qualquer ficada idiota, poderia ter vindo visitá-la mais vezes.
Saio e bato a porta, que estala num eco. Não será esse meu quarto.
Sem nada pendurado, as paredes bege da sala deprimem. Está aí uma cor sem emoção, bege. Uma tinta mais viva, e o negócio é chamar Camila, mão de obra barata= que topa fácil trocar horas de serviço por cerveja.
Também quero pintar o quarto amarelo, que vai ser o meu. Já imagino que acordaremos com garrafas quentes pela metade espalhadas pela casa sem ter passado a última demão — a cabeça pedindo uma Neosaldina, pelo cheiro de tinta e gosto de álcool.
Desde pequena, esse quarto já é meio meu. Inclusive o amarelo fui eu quem escolhi, mais porque a tinta se chamava Canário Belga do que por preferência entre as outras opções que a vó me deu. Mas como não me seduzo mais pelos nomes das tintas, esse Canário Belga tem que voar.
Entre essas paredes, incontáveis noites. De quando meus pais pegavam as malas e decidiam tirar férias de mim, ou quando tinham algum jantar ou evento ou cinema.
Também quando eu queria passar o final de semana com a Martina. Tipo sempre. Será que ela ainda está por aqui? Como única neta, só o meu corpo deitou naquela cama. E, bem, o de Martina.
De volta à sala, escolho um dos sofás idênticos entre si, dispostos perpendicularmente, e me jogo com vontade, fazendo questão de não tirar os tênis. Como é bom ninguém pra gralhar no ouvido.
Sofás de couro. Couro caramelo que gruda no meu corpo meio suado — aparentam bem uns zil séculos de existência. Mandar arrumar ou só esconder com manta e almofadas? Hum. Manta e almofadas, certeza.
Cômodos enormes e decorações e armários e estantes, tudo do tempo do êpa. Caí na modinha vintage sem me esforçar.
O bafo insuportável do começo de março carrega o ar e pesa mais ainda o cheiro de guardado. Nem o piso gelado dá conta de resfriar o ambiente, e a arrumação vai ficando pra depois.
Pego meu bloco de desenho (recém comprado pra inaugurar a nova fase) e o penal e escancaro as portas-janela pro quintal que vai até lá embaixo. Passo a mão sobre a mesa ao lado da churrasqueira numa limpeza ineficaz que só serve para deixar uma poeira fina na minha palma. Com o bloco de desenho aberto na primeira página vazia, puxo uma cadeira e sento. O esganiçado das ruas movimentadas trocado pelo assobio dos pássaros e do vento. Nem preciso abafar meus ouvidos com o volume estourado nos fones pra poder desenhar sem as buzinadas que me faziam errar os traços.
Quero muito decalcar esse momento no papel, mas o branco grita na minha cara a dúvida. Rodo o lápis entre os dedos num vai e volta, ele dança na minha mão esquerda enquanto me perco observando o quintal.
A grama implora por um aparo. Só de pensar na mosquitada ali já me coça a canela. É sempre na altura das meias que eles atacam. Amanhã sem falta chamo um jardineiro. O amontoado de árvores uns oito metros mais pra baixo, cenário das brincadeiras de aventuras de exploração na floresta, agora parece uma floresta mesmo. Mais pra esquerda, a horta com sei lá que coisas plantadas vai retornando pro estado silvestre.
Lembro-me do dia que o Freddy veio morar aqui. Na casa da vó ele vai ter muito mais espaço pra pular, Bianca. Ouço a voz da minha mãe como se fosse hoje. Na primeira semana, Freddy já tinha destruído a horta inteira procurando cenouras. Quando chegou o esperado sábado para visitar meu recém-arrancado presente de páscoa, a vó me contou que ele tinha fugido. Até hoje tenho dúvidas sobre essa fuga. Por mais que minha vó não aparentasse ser do tipo que daria um sumiço no bichinho da neta, ela cuidava da horta como se fosse uma segunda irmã de meu pai.
O agudo da campainha seguida de três palmas esconde Freddy na toca. Gente no portão, e aqui sem mordomia de porteiro vinte e quatro horas como lá no prédio da minha mãe.
Uma velha espera na calçada. Setenta e poucos, ou muitos – difícil medir a idade depois dos sessenta, depende da quantidade de procedimentos estéticos, de sol sem protetor e do consumo de água e de estresse, essa coisarada toda.
— Bianca? Meu Deus, é você mesmo? Como você espichou, menina! A última vez que te vi, era um tiquinho de gente! — provável amiga de bairro da vó de quem não tenho ideia do nome, só talvez um resquício de lembrança do rosto, mas, de novo, velho é tudo meio parecido. — Bem que a Luci falava que mulher bonita você tinha ficado! Até as perninhas de gravetinhos pegaram forma.
— Ah, brigada. Desculpa, eu não lembro o nome da senhora. Dona…
— Célia! Imaginei que você não ia se lembrar de mim. Faz tanto tempo, menina. E vocês também sempre se esquecem da gente. Depois dizem que velho é que tem problema de memória.
As palavras batem como um tapinha sarcástico na cara, mas em seguida ela já aperta minhas bochechas dizendo que o Tuco da padaria viu uma movimentação aqui, e ela teve certeza de que era eu.
Tuco, desse eu me lembro bem. Dele e do bloquinho onde anotava os Cheetos e os Yummis pra vó pagar noutro dia.
— Olha, menina, eu só vim te entregar isso — diz, me esticando um caderno de brochura com uma capa lisa marrom. — Tua avó pediu para eu te dar quando fosse a hora. E chegou a hora, né?
Pego o caderno velho que faz meu corpo inteiro coçar só de encostar na pele e dispenso a tal dona Célia mais rápido do que minha avó teria aprovado.
Assim que fecho a porta de casa, do meio das folhas cai um pedaço de papel do tamanho de um cartão de visitas. Com a letra que suponho ser da minha avó:
“Nas plantas está a saída.
Faça bom uso.
Elas precisam de nós.”
No canto esquerdo superior da contracapa: Luci de Carvalho. Aquele nome falso escrito em caneta vermelha me faz pensar na recente descoberta de seu verdadeiro registro. Lucineide. E mesmo eu, a neta, sempre soube só de Luci.
As folhas estão meio grudadas, é meio ruim de virar as páginas e às vezes elas estalam um cleck de desgrude. Receitas e fórmulas de infusões e pastas e pomadas e cremes, tudo à base de plantas.
Olho pro quintal imaginando quanta coisa está plantada e espalhada por ali. Logo me lembro da chaleira, sempre com água, prestes a piar no fogão e vó Luci enchendo canecas cheirosas que distribuía sem sorrisos — mas só porque não era de sorrir mesmo, seus dois riscos de lábios formavam uma linha finíssima horizontal que raramente se curvava em qualquer sentido.
Eu recusava os chás, preferia Guaraná. E na real ainda prefiro, mas quem sabe encontro aqui algo fulminante pra ressaca.
E bom, vou pedir pro jardineiro dar uma geral. Eu não entendo nada de planta, mas se vó Luci até escreveu que elas precisam de nós, não custa dar uma atenção, ainda que terceirizada.
Volto pro desenho no quintal e no caminho largo o caderno da vó na mesa da sala. No papel branco agora minha mão traça portas e mais portas e eu só deixo a ideia fluir até preencher a folha inteira de passagens.


Rai Gradowski nasceu em 1989, em Curitiba (PR), onde vive até hoje, e é especialista em Escrita Criativa pela PUCRS. Desde 2021, assina a coluna de autoficção .docx, publicada no Curitiba Cult e no Substack. Tem contos publicados nos livros Imagens de Coragem (Editora Patuá) e Curitiba Inimaginável (Arte&Letra). “Cercas Vivas” está disponível no site da Editora Zouk: www.editorazouk.com.br
Foto: Eve Ramos.