Ensaio

‘Por que ler Nelson Rodrigues hoje?’ Por Rodrigo Alves do Nascimento

Não acredito que o valor da obra de um escritor seja um dado inquestionável, o que significa que é natural que ele seja reavaliado em cada momento histórico. Existe um contexto em torno da obra, do mesmo modo que a obra cria seus próprios contextos. E sempre me interessou pensar a relação tensa e contraditória entre essas duas dimensões. Seria leviano ignorar que Nelson Rodrigues foi nome fundamental para a renovação das formas dramatúrgicas brasileiras, do mesmo modo que seria leviano ignorar que ao longo da vida ele manifestou posições abertamente misóginas e mesmo de apoio ao regime ditatorial.

Mas mesmo esses dados não são absolutos, pois anos depois ele fez aberta autocrítica e militou de modo contundente pela anistia dos presos políticos; e mesmo já sendo famoso polemista conservador, fez parceria com o Teatro Experimental do Negro (TEN) e escreveu para o grupo uma das primeiras peças do repertório nacional que se propunha a uma visão não estereotipada do negro em cena (Anjo Negro, de 1946). Portanto, estamos diante de uma figura contraditória. E me interessa justamente a relação tensa dessa dimensão autoral com uma obra que também não é facilmente enquadrável.

Seria leviano ignorar que Nelson Rodrigues foi nome fundamental para a renovação das formas dramatúrgicas brasileiras, do mesmo modo que seria leviano ignorar que ao longo da vida ele manifestou posições abertamente misóginas e mesmo de apoio ao regime ditatorial’

– Rodrigo Alves do Nascimento
Professor de Teoria Literária e Teoria do Drama (UFBA)

Nelson Rodrigues. Foto de Letícia Moreira (Folhapress)

É uma obra que ainda me parece de alta voltagem justamente por ter aquilo que Flora Sussekind denominou “fundo falso”: por trás do moralismo do patriarca, o homem responsável pela “corrupção” familiar; por trás do discurso ordenado das personagens, os fatos desarticulados; por trás imagem plácida do álbum de família, as relações tóxicas, violentas e incestuosas… Ou seja, uma obra que nos convida constantemente a duvidar dos discursos moralistas e de uma suposta superioridade moral de pais de família, burgueses, políticos profissionais e religiosos…

É como se sua dramaturgia insistisse em permanentemente desestabilizar ideias que mantêm privilégios e formas que que nos prendem a enquadramentos fechados. Isso me parece muito produtivo para os nossos tempos. Daí minha discordância com uma suposta interdição ou “cancelamento” do trabalho teatral de Nelson: a forma deslizante e a crítica corrosiva de sua obra são tão contundentes que operam a contrapelo do que o próprio autor proclamava ideologicamente. É fascinante pensar que, de certo modo, é uma dramaturgia grande o suficiente para que suas próprias posições pessoais possam ser tensionadas pelo que ela desvela.

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Rodrigo Alves do Nascimento é professor de Teoria da Literatura e Teoria do Drama na Universidade Federal da Bahia. É autor de Tchékhov e os Palcos Brasileiros (Perspectiva, 2018), editor e membro da Associação Internacional de Críticos de Teatro – AICT.