
Peixinho Dourado
Brilhante e baratinho
Arte: Peixe, de Rosana Paulino (Reprodução).
Eu trouxe aqui meu peixe. Viemos, eu e ele, arrastados pelos longos cabelos de Janaína. Antes, no entanto, passamos por dogmas nunca dantes navegados.
Meu peixe, tadinho, sofreu uns arranhões: boca de siri, rabo de arraia, tridentes de Netuno, transatlânticos, trópicos de capricórnio e câncer, troça, trolha, traição, trucos, trecos, trincos na parede, na cara. Tropeçou, trepidou, trucidou uma Atlântida inteira, tremeu na base. Trintou recente, não faz muito tempo. Trepar? Não transa muito.
Aos cardumes o meu peixe até adere, mas não se habitua. É de poucas e boas. Disseram, dia desses, que pra sobreviver em mar revolto tem de virar tubarão. E mudar de espécie, vejo só! Até parece. Tsunami embaixo d’água é mamão, o bicho pega mesmo é em tempestade, mas ele é safo.
Meu peixe não bebe, não fuma, não cheira. Quase não tem vício, com exceção de sempre voltar pras cenas dos crimes que comete. É maior de idade e vacinado, tem CNPJ, a Carpas & Escamas LTDA. Emite nota e tudo. Come de garfo, hashi, se precisar come até sashimi. Ama moqueca de peixão (e de paixão). Trabalha em todas as profundidades: oito, dez, doze mil metros. Já frilou na Fossa das Marianas, diversas fozes, sortidas baías, em todos os sete mares.

“Meu peixe não bebe, não fuma, não cheira. Quase não tem vício, com exceção de sempre voltar pras cenas dos crimes que comete”
Ele tem esse olhar meio sonso, mas é que antes vivia num saquinho com água. Agora mora aqui embrulhado nesse jornal. É um ambiente mais espaçoso, ele lê as notícias, compreende as mazelas e as delícias do mundo, tá por dentro das demandas de mercado. Consegue mediar conflitos geopolíticos, tem cacife para presidir comissões parlamentares mistas de inquérito, conhece pelo menos cinco textos do autor homenageado da Flip este ano. Ouve os Novos Baianos, os Neo Baianos, os Pós-Baianos. Conhece Elis, Tom, Gal, Gil e Priscila Senna, a musa.
Peixe não fala, não pisca, não dorme, não tem alma. Ele fica aqui, quietinho. Não ocupa muito espaço. É compacto, fininho. E o melhor: tá sempre de banho tomado.
Eu tô aqui pra vender meu peixe. Quem quer comprar?
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Renan Sukevicius é jornalista e escritor, nasceu em São Paulo, em 1993. Na comunicação, assina trabalhos no rádio, na televisão e no online. Atualmente, apresenta o jornal Entre Nós, ao lado de Adriana Araújo, em transmissão simultânea na rádio BandNews FM, na BandNews TV e no YouTube. Publicou artigos de opinião durante seis anos no blog Todas as Letras, sobre diversidade, na Folha de S.Paulo. Antes, fez parte da primeira equipe da editoria de podcasts do jornal, atuando na edição de som, produção e reportagem do podcast Café da Manhã, parceria da Folha com o Spotify. Durante um ano foi coordenador de projetos da produtora de podcasts Rádio Novelo. Também passou pela rádio CBN, onde atuou como produtor. Direitos humanos, morte e luto, e população LGBT+ são os temas que mais aparecem em seus trabalhos. Por algumas das reportagens em áudio, no rádio e em streaming, recebeu alguns dos principais prêmios de jornalismo do país, como Vladimir Herzog, Petrobras, APCA e Folha. Lançou seu primeiro livro, de contos, “Quase Verão”, em 2023, pela Diadorim e trabalha atualmente em um romance. É formado em jornalismo pela Universidade Metodista de São Paulo e em técnico audiovisual pela ETEC Jornalista Roberto Marinho.
