Reportagem

Para Werneck, cronistas hoje estão sem chão e sem teto

Se no início a crônica ocupava o rés do chão, uma referência à parte inferior do jornal, para Werneck hoje ela está sem chão e também sem teto, por causa da migração das publicações para o ambiente virtual.

Imagem: capa de Viagem no país da crônica (Tinta-da-China, 2025); Foto de Lilo Clareto/ Divulgação

“São minoria os cronistas que não cuidam, cedo ou tarde, de peneirar em livro aquilo que escreveram para o varejo da imprensa”, diz Humberto Werneck, na crônica “Coisa de artista”. No texto, ele cita como exemplos Otto Lara Resende, “cronista tardio”, Clarice Lispector, “que não apenas se foi cedo demais, na véspera de seus 57 anos, como tinha com a crônica uma relação sofrida” e Antônio Maria, “desaparecido aos 43 anos sem livro publicado”.

“Outros, como Paulo Mendes Campos e Rachel de Queiroz, cuidaram eles mesmos de filtrar em livro as suas crônicas”, assim como o próprio Werneck, que lançou Viagem no país da crônica pela editora Tinta-da-China, reunião de seus textos publicados no Portal da Crônica Brasileira, do qual foi editor entre 2018 e 2021.

 “Lá estão praticamente todos os oitenta textos que escrevi ao longo de três anos e pouco para o Portal da Crônica Brasileira, do Instituto Moreira Salles, com o objetivo de seduzir o leitor e ciceroneá-lo numa viagem às crônicas – milhares – desse fabuloso acervo”,  comenta ele, em entrevista à O Odisseu. O acervo é mesmo fabuloso, com mais de três mil crônicas. Além dos autores já citados, há textos de Fernando Sabino, João do Rio, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, entre outros. E é baseado neste acervo que Humberto Werneck escreveu as crônicas que compõem o livro.

Souvenirs literários

São crônicas sobre crônicas e, claro, cronistas, uma tremenda homanagem àqueles que contribuíram para o gênero no Brasil. Em “Viajar, em mais de um sentido”, por exemplo, o autor extrai a persona viajante dos escritores da era de ouro da crônica e os define como viajantes que trazem memórias literárias. “Assim como qualquer um de nós, que os lemos aqui na planície, os grandes cronistas, na volta das férias, costumam trazer lembranças de viagem. A diferença é que, além de souvenirs convencionais, entre elas pode haver recordações em forma de literatura”, abre o texto.

O assunto prossegue em “Sob o céu de Paris”. “Do nosso time de cronistas, houve três que não se contentaram em apenas visitar Paris. Trataram de passar ali um tempo mais largo e mais pausado, sem o implacável cronômetro de um turista. Rubem Braga, Paulo Mendes Campos e José Carlos Oliveira, por ordem de chegada ao mundo (e a Paris), viveram temporadas esplêndidas às margens do Sena, e de lá abasteceram jornais do Rio de Janeiro. De volta ao Brasil, a experiência de cada um seguiu rendendo prosa, carregada de memórias.”

E-books não têm cheiro

Avesso a livros digitais, Humberto Werneck condensou no papel o que escreveu no site. A versão em e-book de Viagem no país da crônica, porém, tem a ligeira vantagem de conter os links para as crônicas mencionadas ao longo dos textos, que podem ser acessados imediatamente. “Nada contra o e-book, mas ainda não cheguei lá – o que, aliás, preciso fazer, quando menos para aliviar, quando viajo, o peso de minha literal bagagem literária… Com o risco de passar por passadista, coisa que não sou, tenho com o livro de papel uma relação, digamos, sensual, impossível no caso do e-book. Sou um pouco como o poeta Hélio Pellegrino, que costumava apanhar um livro, abri-lo, dar uma cafungada entre duas páginas e sentenciar: ‘Este é dos bons!’”.

Do rés do chão a…

Se no início a crônica ocupava o rés do chão, uma referência à parte inferior do jornal que costumava ser ocupada pelo patinho feio da literatura e ao fato do cronista dialogar com o leitor como um “igual” falando do cotidiano, para Werneck hoje ela está sem chão e também sem teto, por causa da migração das publicações para o ambiente virtual. “O que me parece estar faltando é um poleiro visível, atraente e convidativo para ela – algo que nas revistas e jornais sempre existiu. A substituição do papel pelas telas & telinhas, como se sabe, decretou o emagrecimento ou morte de jornais e revistas, e uma das consequências disso foi um generalizado bota-fora, um despejo da crônica”, diz.

Apesar disso, o cronista vê a internet como um refúgio. “Sem teto, o cronista está buscando pouso (quase digo ‘asilo’) na internet. Tomara que o leitor encontre no digital o prazer que o papel lhe proporcionava.”

Um pacto ainda possível

Se no Brasil a crônica “aclimatou-se” perfeitamente, vinda da França, é bem possível que ela siga sobrevivendo longe das páginas de jornais e revistas na internet por meio de grandes autores como Werneck, que conseguem fazer um pacto imediato com o leitor, em meio à distração das telas. “A crônica brasileira genuína tem a capacidade de fisgar o leitor e lhe dar a impressão de estar falando só para ele. Vejo o bom cronista como alguém sentado a meu lado num meio-fio. (…) Nos seus melhores momentos, a crônica estabelece com o leitor uma cumplicidade, e este, talvez, seja o seu ingrediente especial”, conclui.

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