Coluna Ágora

Palavras Perfumadas

Publicada originalmente em 20 de julho de 2025.

Foto: Unsplash.

Sou uma pessoa encantada pela palavra. Dicionários eram diversão garantida na infância (e, ainda agora, passadas algumas décadas). No encantamento curioso por essa mistura de sons e letras, sempre acreditei que as palavras têm cheiro. Hoje, sei que algumas delas cheiram mal. “Chantagem” e “golpe”, por exemplo, cheiram muito mal. 

Prima irmã da sacanagem (aquela sacanagem ruim: a que passa longe da vida privada e dos lençóis enamorados para ferrar com um povo inteiro), a chantagem é a irmã manipuladora da ameaça; parente da extorsão e da usurpação. Substantivo feminino, engendrada pela patifaria, a chantagem nasce do casamento entre o medo e a covardia.

Substantivo masculino, o golpe (se não for um inocente “golpe de sorte”) é da família do ardil, da artimanha, do artifício. Veste-se com as roupas da alicantina. Usa o uniforme mal cheiroso da trapaça e as botas deformadas da velhacaria. Incisivo e violento, quando não logra seus intentos com os estratagemas da tramoia, abandona logo os embustes para valer-se da força bruta. Como impostor, o golpe até pode ter vida longa, porém, jamais feliz. E nascerá sempre fadado ao lodo lamacento no qual, por certo, afundará, cedo ou tarde, vítima de seu próprio peso.

Se palavras como “chantagem” e “golpe” atingem nosso olfato com notas podres; fedentina repulsiva que emerge de esgotos, há aquelas que, no caminho contrário, nos inundam com refrescantes aromas cítricos, perfume de lavandas, cheiro de campos cobertos de lírios e malmequeres. Soberania e liberdade são palavras assim. Redondas e repletas da leveza de um poema. Palavras cheirosas, que nos fazem querer flutuar. Soberania até rima com poesia. Anda de mãos dadas com a autonomia e abraçada com a liberdade.  É palavra que, quando usada com o tempero da lei, tem um cheiro muito bom. Tem a mesma fragrância do bálsamo que perfuma a independência e a dignidade. 

Soberania, quando caminha ao lado da justiça, em solo democrático, é palavra moldada em boa essência. Uma essência que nos lembra, em suas doces notas aromáticas, a importância da liberdade, talvez essa, um das palavras mais perfumadas do dicionário.