Ensaio

Onde o cotidiano tem vez: 90 anos de Adélia Prado

Enquanto a tradição canônica, dominada por vozes masculinas, colocava a mulher como um ente etéreo, um ideal distante e inatingível, Adélia Prado a traz para a cozinha, para a cama, para a realidade crua e cheia de cheiros da vida doméstica.

Por Igor Vida.

Foto de Ruy Baron (Agência O Globo).


Longe de querer ser bairrista, mas nasci no estado de Adélia Prado e de Guimarães Rosa e só isso, por si só, já me bastaria. Adélia eu descobri ainda na faculdade, fiquei feliz ao ler um poema seu chamado Impressionista, do livro Bagagem, de 1976:

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

Àquela altura eu já conhecia o trabalho de Mark Rothko e fiquei encantado com a imagem de Orange, Red and Yellow (1961) transformada em poema. O que mais admiro na poesia de Adélia Prado é sua capacidade única de transformar o cotidiano e o doméstico em versos que transcendem o banal. Sua poesia se recusa a ser hermética ou de difícil acesso, encontrando sua força justamente na simplicidade e na clareza. Uma prova disso é que minha avó materna, que teve pouco acesso à literatura formal, conhece e se emociona com a sua poesia. Durante a pandemia, li para ela em uma chamada de vídeo pelo FaceTime, o poema Casamento. Aquele momento foi a prova viva de como a obra de Adélia consegue criar pontes afetivas entre gerações e realidades distintas.

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como ‘este foi difícil’
‘prateou no ar dando rabanadas’
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva

Ela escreve o amor no qual acredito e que me esforço para praticar; sou eu quem deseja ser acordado no meio da noite para auxiliar meu homem em qualquer tarefa, por mais simples que seja; quem quer ser chamado do trabalho à tarde para carregar um móvel pesado escada abaixo; quem aplicaria uma injeção no meu amado se necessário, como já fiz algumas vezes, mesmo sem treinamento, movido apenas pela urgência do cuidado. Almejo estar sempre disponível ao seu chamado, mesmo não tendo a certeza recíproca de que ele estará por mim. Seremos, quem sabe, cada um, indivíduos únicos, e juntos formamos uma entidade singular, um pacto de entrega e proteção mútua.

Anúncio.

Compreendo que nem toda literatura precisa necessariamente ressoar em nossas vidas, mas é inegavelmente bonito quando isso acontece e no caso de Adélia Prado, a conexão foi profunda. Meu avô, assim como no poema, também saía para pescar. Não era apenas um passatempo esportivo ou um momento de descontração entre amigos; era ato de necessidade, prática de subsistência. Se hoje a pesca ainda sustenta tantas famílias pelo Brasil, imagine há quarenta ou cinquenta anos no interior de Minas Gerais. A poeta captura em Casamento um fragmento verídico de uma dinâmica conjugal que foi a de muitos, inclusive a da minha família.

Adélia Prado constrói sua poesia sobre um alicerce de aparente simplicidade cotidiana, armada com uma ironia sutil e afiadíssima. Essa ironia é uma ferramenta crítica potente que ela dirige, sobretudo, contra a tradição poética masculina que a precedeu. Ela estabelece um diálogo desconcertante e indireto, com grandes nomes como Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Com o primeiro, briga contra a angústia existencial e o intelectualismo, propondo em seu lugar um espanto religioso diante do mundo material. Com o segundo, o engenheiro da poesia seca e calculista, ela se opõe com uma linguagem corporal, sensorial e transbordante.

Enquanto a tradição canônica, dominada por vozes masculinas, colocava a mulher como um ente etéreo, um ideal distante e inatingível, Adélia Prado a traz para a cozinha, para a cama, para a realidade crua e cheia de cheiros da vida doméstica.

Ela desloca o sagrado do pedestal e o encontra no ordinário. Seus versos mostram que a transcendência está no cotidiano, no ato de lavar a louça enquanto seu amado lhe beija o pescoço, no cheiro do manjericão socado no pilão de tempero, no corpo que deseja e envelhece. Dessa forma, ela desconstrói a imagem do poeta homem calcinado em um ideal distante e intelectualizado de poesia, afirmando um olhar profundamente feminino, corpóreo e espiritual sobre o mundo.

A formalística é o poema em questão:

O poeta cerebral tomou café sem açúcar
e foi pro gabinete concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
que ele afia na pedra,
na pedra calcinada das palavras,
imagem que elegeu porque ama a dificuldade,
o efeito respeitoso que produz
seu trato com o dicionário.
Faz três horas que já estuma as musas.
O dia arde. Seu prepúcio coça.

Não sou religioso, tampouco acredito em deus, sou devoto da literatura e Adélia é divina, nela eu acredito. Seu ato de criação é presente no fluxo do verso, como em Fragmento:

Bem-aventurado o que pressentiu
quando a manhã começou:
não vai ser diferente da noite.
Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita
e mesmo assim anunciou paciente ao meio-dia:
algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,
um vento bom entra nessa janela.


Escrevi um poeminha ainda na faculdade, um exercício de escrita, sem título. Na ocasião precisava ajudar um ex-namorado com um medicamento. Acho que cabe aqui, quase vinte anos depois, junto de Santa Adélia:

Me deram a tarefa da agulha:
aplicar no homem que amo o remédio amargo.
Minhas mãos, tão jovens na pele,
por dentro eram pombas assustadas.

Como ferir a carne que se beija?
Beijei a curva santa do seu quadril,
pedi licença à matéria, meu pecado foi o amor
grande demais para não machucar.

Fui com a agulha como quem crava um prego
na própria cruz, segurei o pranto na garganta.
E vi o líquido sagrado entrar nele,
um rio de vida correndo na veia escura.

Naquela noite, não foi só a seringa que empunhei,
mas um cetro. Eu, seu homem, sua criatura,
me tornei também seu criador por um instante,
e por sete dias santifiquei com meus lábios
a geografia milagrosa do seu corpo.

Se um dia eu for amado como Adélia ama, este será meu segundo trunfo além de ser seu conterrâneo.

** Texto publicado originalmente em 25 de agosto de 2025 no Substack.


Igor Vida é mestre em Estudos de Literatura e professor de literatura na UFSCar. Tem participação ativa em bancas de revisão e edição, de literatura ficcional e material didático e foi jurado do Prêmio São Paulo de Literatura 2024