
‘Olhar também é um ato político’: Itamar Vieira Jr. e Olivier Marboeuf discutem sobre território e literatura na FLUP 2025
Em mesa mediada por Mame-Fatou Niang, na FLUP 2025, Itamar Vieira Jr. e Olivier Marboeuf concluem que escrita e memória não são apenas formas de registro, mas instrumentos de resistência e de afirmação de identidades outras.
Fotos de Hildemar Terceiro (@hilditt0) – Divulgação FLUP/ Cobertura de Samara Lima (O Odisseu).
Em “O direito a olhar”, Nicholas Mirzoeff argumenta que a visualidade, isto é, os modos de ver institucionais e hegemônicos, está historicamente ligada ao poder, legitimando relações de autoridade por meio da classificação, separação e estetização. Essa visão dominante muitas vezes naturaliza quem pode ser visto, por quem e de que modo. Na mesa “Olhar também é ato político”, o escritor brasileiro Itamar Vieira Júnior e o artista, curador e produtor cinematográfico de Guadalupe Olivier Marboeuf discutem algo similar ao evidenciaram o modo como a literatura e a cultura negra desafiam essas estruturas: ao escrever e ocupar espaços simbólicos, a começar pelo próprio Viaduto de Madureira, território de cultura popular, eles evidenciam como o olhar, seja o do escritor, do leitor ou da própria comunidade, atua como instrumento de reconhecimento, preservação e reconstrução de experiências e culturas historicamente apagadas.
“A memória é o nosso grande monumento”, diz Itamar Vieira Jr. na FLUP 2025 ao lado do guadalupense Olivier Marboeuf
A presença de Itamar Vieira Junior, escritor engajado com temas de ancestralidade afro-brasileira e territórios marginalizados, nos traz a dimensão literária da conversa. Em sua fala, a literatura nos é apresentada como um espaço de memória corporal, onde o corpo do autor se torna veículo de experiências, sensações e histórias que atravessam o tempo: “A memória é o nosso grande monumento”. Ele enfatiza que escrever não é apenas registrar fatos históricos, mas evocar subjetividades frequentemente marginalizadas, com todas suas ambivalências, complexidades e vulnerabilidades, transformando-as em narrativas: “uma história não é feita apenas de fatos, os personagens são feitos de carne, de emoções”. Mas, para ele, a memória não é algo estático. Ela é, acima de tudo, uma experiência viva, que se refaz a cada leitura, permitindo que o leitor também participe da criação de novas reminiscências.


“A literatura serve para voltar mais uma vez para a mesma coisa de outra maneira”, diz Olivier Marboeuf na FLUP 2025
Já Marboeuf fala sobre visibilidade negra como algo estratégico. Ele propõe que a presença dos corpos negros no mundo, muitas vezes marcada pela violência e pela imposição de uma visibilidade forçada, se dá de maneira seletiva e estratégica, articulando momentos de visibilidade e invisibilidade como forma de preservar autonomia e poder: “visibilidade não é transparência”. Um comentário que parece ressoar o “direito à opacidade” de Édouard Glissant, se refere à ideia de que os indivíduos e os grupos culturais têm o direito de existir sem precisar ser totalmente compreendidos e/ou assimilados pelos padrões de entendimento alheios, especialmente os impostos por culturas dominantes.
Olivier também conecta a fuga à descolonização, mostrando que escapar de um sistema opressor não é ato de covardia, mas uma forma de (re)organizar relações de força e criar modos de existência alternativos. Ao discutir a visibilidade negra, ele também destaca a importância da filiação, algo bastante caro neste mundo individualista em que estamos inseridos, e da memória coletiva, lembrando que estar presente significa reconhecer a continuidade das lutas e vozes anteriores, tornando a literatura e o pensamento instrumentos de reinterpretação da história.
A mesa evidencia que escrita e memória não são apenas formas de registro, mas instrumentos de resistência e de afirmação de identidades outras. A reflexão sobre cultura, opacidade, fuga e reparação revela que o olhar atento e o gesto literário são profundamente políticos, permitindo não apenas compreender o passado, mas também reinventar modos de presença e engajamento no presente.

Samara Lima é doutoranda em literatura e cultura pela Universidade Federal da Bahia, instituição pela qual também é mestre e licenciada em letras (inglês). Integra o projeto de extensão Bordas da Imagem, vinculado à Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, coordenado pelo Prof. Dr. Eduardo Queiroga, e o grupo VISU – Laboratório de Práticas e Poéticas Visuais, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenado pelo Prof. Dr. Daniel Meirinho. Como pesquisadora, seus interesses são: narrativas contemporâneas, inespecificidade, expansão dos campos artísticos do presente e a relação entre literatura e imagem fotográfica.
