
O que tem a nos dizer o silêncio?
Publicado originalmente em 11 de dezembro de 2024.
Há um coro em plenos pulmões lá fora, faustuoso, grandiloquente. Vejo o rosto de cada integrante reluzindo nas telas-espelhos, feito avalanche soterrando tudo o que encontra pela frente. A invisibilidade é um dos muitos penduricalhos na indumentária que eles vestem, enquanto o teu silêncio me interroga: Que tem a ver os vampiros com isso? E a dúvida recai sobre meus ombros e já não sei se é hora de desmitificá-lo, recobrar a sua humanidade ou suplantá-la de uma vez.
“O autor não vale o personagem”, soa ruidosa a frase numa época de imagens hipermidiatizadas. No fundo, todo escritor é um ficcionista de si mesmo, diria ao mestre, para lhe provocar num encontro agora impossível. O início da jornada no ofício literário, a ideia inspiradora do último livro, todos em busca de uma boa narrativa para saciar a fome do mainstream. Como se a ordem suprema fosse autoficcionar-se, consubstanciar autor e personagem.
Humano é o que somos, poderão nos repreender. Até mesmo porque, ao que tudo indica, o Realismo não superou muito bem os ideais românticos de personagens modelares, tipos perfeitos, exemplos morais a serem seguidos. Como se chama isso?, perguntei a outros colegas, após me deparar com um núcleo de personagens tão valentes, tão íntegros, tão coerentes e veneráveis que pensei se tratar de semideuses ou seres celestiais. Nenhum deles, entretanto, alcançará existência mais autêntica do que o homem-mito de Curitiba.Ante a inversão na lógica do sonho e da obra, se o escritor é bom ou não, o que importa é realizar-se! Haverá louvores de todo tipo, ainda que o teu silêncio exótico e incômodo queira nos dizer o contrário. Ainda que seja nas entrelinhas de suas histórias que, como bem nos alertou, continuará depois de você e nunca terá “mais fim que novo começo”. Eis o papel dos leitores destituídos de toda sacralidade. Iconoclastas que são, somente tais sujeitos serão capazes de dizer algo mais apropriado do que esse reles diálogo com cara de anti-homenagem. Algo que esteja à sua altura, onde quer que se encontre agora e sempre.
Leia Também: Afinal, o que é ‘escreviver’?
