
O que há na terra que alimenta a literatura de Dolores Reyes?
Com obra classificada como “degradante” e “imoral” pelo governo Milei, a autora argentina participará da Flip em 2025
Publicado originalmente em: 31 de julho de 2025
Foto de capa: Télan/ Reprodução
Dolores é formada no Profesorado de Enseñanza Primaria — curso superior argentino voltado à formação de professores para os anos iniciais do ensino fundamental — e também em Grego e Culturas Clássicas pela Universidade de Buenos Aires. Trabalhou por décadas no ensino público em Caseros e Pablo Podestá, periferia da província de Buenos Aires . Seu primeiro livro, Cometerra (Moinhos, 2020), foi escrito durante uma oficina ministrada por Selva Almada — autora de Garotas Mortas (2018), Não é Rio (2021) e O Vento que Arrasa (2024), publicados no Brasil pela Todavia. Depois, Dolores publicou a continuação, Miséria (Moinhos, 2024). Após um ano e meio escrevendo apenas contos, foi a partir da escuta do conto de um colega de oficina que surgiu a imagem inicial do seu romance:
“ […] em um determinado momento um colega leu um texto superpoético que terminava com ‘terra de cemitério’. E eu, de olhos fechados, vi uma menina sentada sobre a terra de um cemitério, com o cabelo molhado de chuva, com uns sete ou oito anos, muito magrinha, levando a mão até debaixo do corpo e comendo terra. Era uma imagem muito estranha, mas que me inquietava. O que fiz foi começar a escrever essa imagem para ver se funcionava — e funcionou, todo mundo gostou muito” (Em Entrevista para Esmeralda R. Vaquero da Pikara Magazine).
A escritora recorre ao realismo mágico como recurso narrativo para suprir a carência do abandono estatal nas periferias e cidades menores, cenário de sua obra, abandono que recai mais intensamente sobre as mulheres. A impressão é que sem o sobrenatural a história não poderia seguir, pois não há movimentações das instituições para solucionar o problema desses grupos. Outra característica é a escolha, diria política, de reduzir a importância da imagem em sua escrita, e trazer mais protagonismo aos demais sentidos, o visual referente ao corpo é algo que quase não aparece no livro, sobre isso, ela comentou na mesma entrevista:
“sinto que existe uma espécie de ditadura do olhar na vida das mulheres — isso, inclusive, trabalhei simbolicamente em Miséria […] Há algo na imagem daquilo que supostamente uma mulher deve ser que sempre me pareceu uma forma de escravidão […] Eu queria desmontar essa narrativa exclusiva do olhar e queria atravessar a experiência de uma adolescente com os cinco sentidos […]”.
É a partir desse cenário que ela se une, neste sábado, 2 de agosto, a mesa 15 – “Ser Mulher na América Latina” – da Festa Literária de Paraty (Flip), a partir das 12 horas, no Auditório da Matriz, em companhia da escritora mexicana Dahlia de la Cerda (Cadelas de aluguel, DBA, 2025), com mediação de Gabriela Mayer – apresentadora do podcast Café da Manhã, da Folha de S.Paulo, e criadora do Põe na Estante.
As primeiras imagens de sua história são, no mínimo, curiosas: uma garota que acabou de sair da infância faz um gesto comum a algumas crianças – comer terra. No caso dela, não é uma terra qualquer: é a terra do cemitério que engole sua mãe. Nesse instante, parece tão vulnerável quanto ao nascer. Mas o gesto, que pode parecer um impulso inexplicável à primeira vista, revela sua urgência consciente: “não há muito o que eu possa fazer, apenas engolir a terra desse lugar”. A mesma terra que nega luz ao corpo morto faz Cometerra ver os golpes do pai que envolvem esse corpo como a terra. E logo saberemos que a função do gesto não é tornar a memória mais sólida, mas trazer imagens do corpo que se relacionou com aquela terra.
“E quando a polícia parou de procurá-la entre o mato e as casinhas, perto do córrego, eu a procurei na beira do pátio, na terra onde ela pisava suas lindas botas para nos ver brincar.” – p.19, Cometerra, Dolores Reyes
Grande parte das pessoas que Cometerra ajuda a localizar – vivas ou mortas – ao longo da história são mulheres. E, apesar da urgência do assunto, a inclusão da obra nas escolas de Buenos Aires foi duramente criticada pela vice-presidente da Argentina, Victoria Villarruel, que parece mais preocupada com uma curtíssima cena de sexo consensual em um livro destinado ao ensino médio:
“Os bonaerenses não merecem a degradação e imoralidade que Axel Kicillof lhes impõe. Existem limites que nunca devem ser ultrapassados. Parem de sexualizar nossas crianças, tirem das salas de aula aqueles que promovem essas agendas nefastas e respeitem a inocência das crianças! Com as crianças, NÃO!!” – declarou no X (Antigo Twitter)
Naturalmente, a posição foi apoiada pelo presidente, Milei, que acredita que “igualdade perante a lei já existe no Ocidente. Todo o resto é busca por privilégios”, conforme declarou no Fórum Econômico Mundial, em Davos, esse ano, fala recuperada em texto de Sarah Coutinho, publicado no Jornal Nexo sobre feminicídio na Argentina. Tudo isso enquanto nos seis primeiros meses de 2025 já há 127 vítimas da violência de gênero, segundo dados da organização não governamental La Casa Del Encuentro. Ao tentar censurar Cometerra, o governo Milei diz querer proteger as crianças, no entanto, 116 crianças ficaram órfãs de mãe, nesse mesmo período.
A retirada dos livros das bibliotecas das escolas não ocorreu, apesar da pressão do governo nacional e sua base, mas a autora foi alvo de insultos, acusações e ameaças a partir das falas da vice-presidente, e reforçadas por youtubers, fóruns online e redes sociais, chegando a receber entre 400 e 600 mensagens por dia. Além disso, o diretor de Cultura e Educação da província de Buenos Aires, Alberto Sileoni foi denunciado “por sexualizar menores de idade”, segundo fala de uma das denunciantes, Bárbara Morelli, presidente da Fundação Natalio Morelli, que acrescentou, inacreditavelmente: “As crianças devem ler livros para se educar. Se quiserem ler ficção, que o façam em casa.”.
Em resposta ao posicionamento do governo, segundo o jornal El País, mais de 120 escritores se reuniram na leitura coletiva de Cometerra no Teatro Picadero, considerado um símbolo de resistência cultural à ditadura. Dentre os presentes, além da autora, estiveram outras afetadas pelo ataque, como Gabriela Cabezón Cámara – autora de As Aventuras da China Iron (Moinhos, 2021) – e Sol Fantin – autora de Si no fueras tan niña (Edições Paidós, 2022), ainda sem tradução por aqui.
Para além da qualidade literária, o cenário global de violência explica o porquê das mais de dez traduções e do modo como as pessoas se conectam ao romance: segundo dados da ONU Mulheres e do UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), 85.000 mulheres e meninas foram assassinadas em 2023. Em 60% dos casos por um parceiro íntimo ou outro membro da família. São 140 mulheres e meninas mortas todos os dias, ou seja, uma a cada 10 minutos.
Algumas dessas mulheres jamais vemos, não são capas de jornal. Com algumas compartilhamos rotas pelas cidades. Às vezes são mulheres que amamos; outras, nós mesmas em algum futuro. Dolores dedica Cometerra a duas dessas mulheres que cruzaram a paisagem de seus dias: Araceli Ramos e Melina Romero.
Em entrevista à Diana Massis da BBC ela conta:
“A Araceli Ramos morava em Pablo Podestá e foi até Caseros – onde eu vivo – porque respondeu a um anúncio de trabalho na internet. Ela fez o caminho inverso ao que eu faço todos os dias, disse à mãe que tinha conseguido um emprego, e acabou assassinada por um homem que já estava esperando por ela, porque era uma armadilha. […] O crime da Melina Romero foi brutal: vários homens violentaram uma menina jovem, muito magrinha, um corpo muito frágil. […]”
“Cometerra, você não sabe, mas você pode ser uma rainha aqui. Aqui desaparece gente o tempo todo. Aqui, seu dom vale ouro.” – Miséria, Dolores Reyes, p. 12
Nascida em 1978, durante a ditadura argentina, entre assassinatos, prisões e roubos de bebês, a autora parece habitar esse lugar para onde personagens migram no segundo volume. “A minha vida inteira eu vi gente buscando”, ela diz na mesma entrevista a Diana, relembra casos de pessoas que buscaram suas filhas por toda a vida e relata o modo como vê esse desespero sólido quando, após a publicação, passa a receber pedidos de socorro na esperança de que ela seja alguém com o dom que coloca em suas linhas. Não é. É apenas uma ficcionista — e voltam para casa vazios de respostas outra vez, como aqueles que Cometerra deixou de atender; como nós que lemos e vivemos.
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