Sétima Coluna

O Brasil no Oscar e a Internacionalização do Cinema Nacional

Participação do Brasil no Oscar – em 2025 e 2026 – é um dado concreto e resulta não apenas da projeção internacional de determinados diretores, mas também de um processo contínuo de inserção do país em festivais de prestígio ao longo das últimas décadas.

Foto: Walter Salles no Oscar 2025 (Reprodução).


Em 2011, quando comecei a estudar roteiro audiovisual, fiz meu cadastro no Stage 32, uma rede social recém-criada pelo produtor estadunidense Richard Botto, voltada à criação de conexões entre roteiristas e outros profissionais do audiovisual em nível global. No perfil, cada usuário podia listar dez filmes que levaria para uma ilha deserta. A maioria dos participantes não era brasileira, mas algo me chamava bastante a atenção: um número surpreendentemente grande deles incluía Cidade de Deus (2002) entre esses filmes. Foi a primeira vez que observei o cinema nacional fora da bolha em que vivia, na qual predominavam comentários de que os filmes brasileiros eram ruins e de que o país deveria se limitar à produção de novelas. 

Naquele período, esse discurso era ainda mais difundido do que hoje, sobretudo quando comparado ao cenário atual, no qual Ainda Estou Aqui (2024) venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, e O Agente Secreto (2025) recebeu quatro indicações ao Oscar deste ano, além de manter as salas de cinema cheias durante meses. Mas será que o Brasil conseguirá manter esse retorno em suas produções?

Recentemente, Rodrigo Teixeira, produtor de Ainda Estou Aqui, fez uma declaração durante a Mostra de Tiradentes, festival de cinema realizado anualmente em Minas Gerais. Em sua fala, associou as recentes indicações ao acaso e à popularidade internacional dos diretores envolvidos — Walter Salles, de Ainda Estou Aqui, e Kleber Mendonça Filho, de O Agente Secreto. Destacou, ainda, acreditar ser pouco provável que o Brasil volte a receber, um reconhecimento internacional semelhante nos próximos anos, seja no Oscar, seja em outros festivais de prestígio, como Cannes.

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Rodrigo Teixeira na Mostra de Cinema de Tiradentes. Foto: Reprodução.

A fala de Rodrigo sugere que a recepção internacional dos recentes sucessos brasileiros ainda estaria fortemente vinculada às trajetórias desses diretores que, por circunstâncias favoráveis, conseguiram emplacar seus trabalhos em dois anos consecutivos. Isso não significaria, portanto, que o país esteja necessariamente ingressando em uma nova fase de sua produção cinematográfica, nem que essa visibilidade internacional se manterá de forma contínua ou crescente. 

Colocada dessa forma, a fala pode dar a impressão de que a presença brasileira nesses festivais é algo recente, o que não corresponde exatamente à realidade. O Oscar, por ser um evento bastante popular junto ao público em geral, exerce um apelo especial no Brasil quando um filme nacional está entre os indicados. Ainda assim, mesmo nesse festival, a participação brasileira não é novidade.

Antes de Ainda Estou Aqui, o país já havia sido indicado com Cidade de Deus (2005), Central do Brasil (1999), O Que É Isso, Companheiro? (1998), O Quatrilho (1996) e O Beijo da Mulher-Aranha (1985). Além disso, em categorias frequentemente consideradas secundárias, como Documentário, tivemos Democracia em Vertigem (2020), O Sal da Terra (2015) e Lixo Extraordinário (2011), sem contar indicações em outras categorias, como curta-metragem e animação. 

A novidade trazida por Ainda Estou Aqui, foi o Brasil ter vencido um Oscar. Claro que antes dele houve O Orfeu Negro (1960), mas tratava-se de uma coprodução com a França e com a Itália e quem ficou com a estatueta foram os franceses.

Além do Oscar, o Brasil já possui uma trajetória em outros importantes festivais internacionais. A Federação Internacional das Associações de Produtores de Filmes (FIAPF) estabeleceu, ao longo do século XX, uma hierarquia entre festivais, reconhecendo Cannes, Veneza, Berlim e, posteriormente, Rotterdam como alguns dos principais espaços de consagração do cinema mundial. A participação do Brasil nesses festivais remonta ao Cinema Novo, importante movimento cinematográfico brasileiro surgido nos anos 60. Ao longo das décadas seguintes tal participação foi ampliada, com importantes transformações sociais com relação a políticas públicas voltadas para o setor audiovisual. Um marco nesse sentido foi a criação da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e a implementação de programas de apoio à participação de filmes brasileiros nos festivais internacionais, priorizando a participação nos festivais europeus, considerados como mais estratégicos.

Além das mostras principais desses festivais, o Brasil passou a ocupar também outros espaços relevantes, como Un Certain Regard, em Cannes, Orizzonti, em Veneza, e Panorama, em Berlim, que funcionam como plataformas de descoberta de novos realizadores.

Contudo, este foco na Europa acaba escorregando em um outro ponto de crítica de Rodrigo, que é a falta de articulação do cinema brasileiro com outros polos de produção fora do eixo tradicional europeu-estadunidense, especialmente com a América Latina e o Oriente Médio. Para o produtor, o Brasil ainda se comporta de forma isolada dentro do próprio continente, negligenciando possibilidades de cooperação que poderiam fortalecer tanto o financiamento quanto a circulação internacional das obras. Ele defende, por exemplo, que Ainda Estou Aqui não teria vencido o Oscar de melhor filme internacional em 2025, se não fosse pelos votantes latino-americanos. 

Além desse isolamento com relação à América Latina, Rodrigo aponta o Oriente Médio como outro mercado pouco explorado, apesar do crescente investimento da região em coproduções e circulação de festivais. 

No geral, Rodrigo aponta questões importantes sobre o estado atual do audiovisual brasileiro, especialmente no que diz respeito à ainda frágil articulação com a América Latina. É inegável que há muitos aspectos a serem aprimorados, mas isso não deve obscurecer as conquistas recentes do cinema nacional. Não é possível prever se o Brasil estará presente no Oscar de 2027 ou nos próximos; no entanto, sua presença em 2026 é um dado concreto e resulta não apenas da projeção internacional de determinados diretores, mas também de um processo contínuo de inserção do país em festivais de prestígio ao longo das últimas décadas. Foi nesse circuito que cineastas como Walter Salles e Kleber Mendonça Filho consolidaram sua visibilidade internacional. Nesse sentido, os reconhecimentos atuais podem ser entendidos como frutos de um percurso construído gradualmente. Além disso, não seria realista desconsiderar o peso que a trajetória e a assinatura autoral dos diretores exercem no sucesso de obras em qualquer cinematografia, não apenas do Brasil.  O que não quer dizer que isso diminua o valor ou mérito de tais indicações. 

Por ora, vamos torcer para no mês que vem o Brasil levar outra estatueta, ou quem sabe outras…