Pesquisa

O autor é negro, mas o catálogo é branco: alguns dados dizem mais que palavras

Pesquisa revela que 15 editoras brasileiras são responsáveis pela publicação de 154 autores negros, que representam apenas cerca de 6% do total de seus catálogos. 

Publicado originalmente em 7 de julho de 2025.

Arte de capa de Guilherme Almeida.

Uma ida às livrarias, uma olhada nos lançamentos de diferentes editoras, na lista de premiações, nos clubes de leitura, nos livros compartilhados nas redes sociais e você rapidamente pode observar que a publicação brasileira tem se tornado mais diversa. Mais mulheres, autores negros, LGBTIAPN+, indígenas, entre outras minorias políticas figuram nessa grande vitrine literária. As exigências por maior diversidade de autoria, de protagonismo literário e representatividade impulsionaram o mercado editorial brasileiro — após anos de polêmicas, embranquecimento e racismo — a olhar atentamente para esses escritores que ocuparam as margens. 

Essa abertura do mercado se dá justamente pela maior visibilidade que os movimentos sociais e as agendas de combate às desigualdades receberam. Assim como, o sucesso das políticas públicas de acesso ao ensino superior, de incentivo à leitura e diversificação curricular nas escolas. Um conjunto de transformações sociais, possíveis a partir das disputas travadas pelos movimentos negros e feministas, que ao longo de décadas empurraram o mercado editorial brasileiro para um novo horizonte literário e editorial.

Os dados dizem mais que as palavras

Essa conversa ganha corpo e números em minha dissertação de mestrado intitulada “Autor negro, catálogo branco: a presença de autores negros no mercado literário brasileiro”. Através dela decidi investigar o número de autores negros publicados por 15 editoras, entre os anos de 2011 e 2021. A ideia de mapear esse percentual era realmente compreender os desafios e barreiras impostos para a publicação desses autores, por editoras que não se dedicam exclusivamente a agenda racial, ou seja, editoras comerciais de diferentes tamanhos e projetos editoriais. Compreender então, quais mudanças tornaram o mercado mais aberto a essa discussão e quão profundas eram as transformações no catálogo destas editoras.

As editoras Aleph, Arqueiro, Bazar do Tempo, Boitempo, Darkside, Dublinense, Elefante, Globo Livros, Intrínseca, Jandaíra, Morro Branco, Nós, Rocco, Todavia e Veneta, foram selecionadas para compor o levantamento da pesquisa. Juntas publicaram 154 autores negros, entre os anos de 2011 e 2021. Considerando seus diferentes tamanhos, recursos, equipes e enfoques editoriais, elas tinham em torno de 2.650 autores em seus catálogos neste período, no entanto, a publicação de autoria negra representava 5,8% do total de obras publicadas pelas empresas.

Apesar do baixo percentual geral, quando comparamos o número das publicações ano após ano, conseguimos ver o crescimento de autores negros publicados. Em 2014, as editoras haviam publicado 7 autores negros, já em 2021, o número significativamente mudou para 69. O marco significativo acontece em 2019, quando a publicação dobra em relação ao ano de 2018, e após isso, segue crescendo, com exceção de 2020, o ano da pandemia. É diante deste contexto que recebemos obras inéditas no Brasil, como as publicações de bell hooks, Angela Davis, Patricia Hill Collins e Octavia Butler.

Estas grandes referências compõem parte de um cenário adotado pelo mercado como uma prática comum, a presença majoritária de mulheres negras, com uma origem e nacionalidade bem específicas, o Brasil e os Estados Unidos. Destes 154 autores, 94 são mulheres, demonstrando o impacto direto da agenda feminista negra e as reivindicações sociais para leitura de mulheres negras no país. Quando analisado a partir da nacionalidade, 40% das escritoras publicadas são de origem estadunidense; 39% brasileiras, enquanto as demais autoras são divididas entre diferentes nacionalidades, como países africanos e caribenhos, ocupando os  21% restantes. 

Através da pesquisa “Entre silêncios e estereótipos”, da professora Regina Dalcastagnè, observamos que o perfil da autoria brasileira é majoritariamente masculino e branco, em especial nos romances literários publicados por grandes editoras, como Companhia das Letras, Grupo Editorial Record e Rocco. Ainda que recentemente acompanhamos um novo olhar para a publicação brasileira, esse perfil não muda em sua essência.

O catálogo ainda é branco

O aumento da publicação de autoria negra não consegue transformar profundamente esse cenário e abre discussão para outras perspectivas, como a tradução em detrimento do investimento nas obras de autores negros brasileiros, e ainda, a preferência por produções diaspóricas dos Estados Unidos, em relação a toda produção negra da América Latina e Caribe, por exemplo. Nos empolgamos e comemoramos a diversidade, os prêmios, as listas de mais vendidos e a valorização da literatura nacional produzida autores negros. No entanto, esse movimento mais inclusivo deve ser observado sob uma perspectiva crítica a respeito da permanência e da durabilidade dessa prática. 

O pesquisador Mário Medeiros, ressalta em seu texto “Uma biblioteca contra a indiferença”, que a diversidade se tornou um negócio lucrativo, e que ainda, a partir da publicação de autores e intelectuais negros novos debates e reflexões ganharam espaço. Um potencial transformador de quem finalmente pode ser lido, acessado e divulgado amplamente. Estas produções não são recentes, iniciativas como Quilombhoje e suas publicações dos Cadernos Negros, são exemplos claros da persistência e da luta pela publicação de autores negros no país. Assim como editoras negras, como Mazza, Malê, Ciclo Contínuo Editorial, Ogums, Dandara, entre tantas outras, que reconhecem a urgência do tema e se dedicam a essa agenda. 

Diante de um mercado mais tradicional, a autoria negra demorou a ser respeitada e valorizada. Uma produção literária que está para além da noção biográfica, que produz reflexões críticas e dá voz a narrativas silenciadas, em suas mais variadas perspectivas estéticas e políticas. Se vivemos esse momento, ressaltamos o trabalho de quem veio antes e evidenciamos que a diversidade não pode ser somente uma mera agenda. Os catálogos, as práticas, os projetos editoriais e os profissionais que atuam nessa área precisam mudar. Enquanto leitores, pesquisadores e interessados na luta antirracista, compreendemos que esse não pode ser um momento passageiro, este precisa ser um momento de ruptura total com o racismo brasileiro. Os dados evidenciam um importante começo, mas ele deve ser exatamente isso, o início de tudo. 
Leia Pesquisa Completa: http://repositorio.unb.br/handle/10482/48366

A pesquisadora

Gabriela Costa é doutoranda em Sociologia pelo Programa de Pós-graduação do Departamento de Sociologia da Unicamp e mestra em Sociologia pelo Programa de Pós-graduação em Sociologia (PPGSOL), da Universidade de Brasília – UnB. Bacharel em Sociologia (2021) e Licenciada em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília – UnB (2020), com Graduação Sanduíche na Universidad Nacional de Colombia, sede Bogotá (2019). Criadora de conteúdo literário na iniciativa @leia_preta e co-criadora do podcast Cânone Invertido. Especialista em literatura de autores negros e cultura negra. Atualmente investiga sobre a publicação de autoras negras brasileiras e estadunidenses no mercado editorial do Brasil.

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