
O Agente Secreto: memória, esquecimento e o imaginário recifense no novo filme de Kleber Mendonça Filho
Em seu novo filme, o diretor percorre o imaginário recifense ao explorar a memória e o esquecimento no Brasil de 1977, ainda sob a sombra da ditadura militar.
Capa: Divulgação/Laura Castor
Em O Agente Secreto (2025), Kleber Mendonça Filho percorre o imaginário recifense ao explorar a memória e o esquecimento no Brasil de 1977, ainda sob a sombra da ditadura militar. A trama acompanha Marcelo (Wagner Moura), um suposto técnico de som que retorna à sua cidade natal, Recife, para se esconder de um passado violento, e logo se vê envolvido por uma atmosfera de medo e vigilância.
Kleber retoma aqui, agora num registro ficcional, o tema da memória que já havia desenvolvido em Retratos Fantasmas (2023), documentário no qual abordou tanto lembranças pessoais relacionadas a obras anteriores, como O Som ao Redor (2012) e Aquarius (2016), quanto as transformações urbanas que levaram ao fechamento dos cinemas de rua da cidade, tão caros ao diretor. Seu Alexandre, projecionista real de um desses cinemas que ganhou destaque em Retratos Fantasmas, reaparece em O Agente Secreto, agora interpretado por Carlos Francisco, como o sogro do protagonista, criando um elo ainda mais forte entre as duas obras.
Nos dois filmes, a cidade se faz personagem. Enquanto em Retratos Fantasmas vemos a transformação de suas ruas ao longo dos anos, em O Agente Secreto nos deparamos com seu imaginário, o Recife dos ataques de tubarão que tanto assustam os turistas. É através de Fernando, filho de Marcelo, que somos conduzidos ao tema. Fernando tem pesadelos com tubarões, mas quer muito assistir ao clássico Tubarão (1975), então em exibição nos cinemas da época, e que ecoa diretamente na realidade local, marcada por décadas de ataques. Na narrativa, uma perna misteriosa é encontrada na barriga de um desses animais, resto de um corpo lançado clandestinamente ao mar durante o período de repressão e que retorna para assombrar a cidade, resistindo ao esquecimento imposto pelo regime vigente. Retorna no melhor estilo de um filme de monstro, na imagem da “Perna Cabeluda”, icônica lenda urbana da cidade.
A memória e o esquecimento aparecem na trama em vários níveis. O tema surge no protagonista trabalhando em um arquivo público, enquanto busca o documento de identidade da mãe, uma mulher de nome comum, mas, antes de tudo, uma mulher, e, como diz um dos personagens, “é mais fácil encontrar quando é homem”. Em uma cultura patriarcal como a nossa, é mais fácil resistir ao tempo sendo homem. O tema também atravessa o filho do protagonista, que esqueceu o rosto da mãe e acaba por esquecer também o pai; está ainda na elipse temporal que, repentinamente, nos joga no presente, onde duas pesquisadoras escutam fitas e recuperam as informações que vínhamos acompanhando no filme.
Em um nível político a memória também se faz presente quando Kleber recupera aspectos da ditadura que muitas vezes permanecem esquecidos nas representações, como seu impacto nas instituições universitárias (o que dialoga diretamente com acontecimentos recentes da história brasileira) e o papel de empresas e multinacionais durante o período de repressão.
Além dos temas tratados e do constante diálogo que estabelecem com o nosso presente, da estética setentista tão genuinamente trabalhada e do talentoso elenco, O Agente Secreto é fortalecido pela estrutura do roteiro de Kleber que avança obedecendo a um ritmo no qual acontecimentos insólitos irrompem sem aviso na narrativa e nos obrigam a reorganizar a percepção que vínhamos construindo acerca do filme, antes de retornarmos a um breve estado de estabilidade em que acreditamos conhecer as regras daquele mundo. Essa sensação se mantém até que um novo elemento insólito surja e nos obrigue, novamente, a reorganizar tudo o que acreditávamos compreender.
Como resultado, O Agente Secreto se afirma como um filme “pirracento”, retomando o termo apresentado no início do longa. Ele revisita o passado não de modo passivo, mas perturbando-o, demonstrando que, em um sentido quase psicanalítico, aquilo que tentamos esquecer resiste e retorna.

