Reportagem

No Dia do Escritor, Noemi Jaffe defende a contribuição destes profissionais na formação de um imaginário coletivo e sua potência transformadora

Desafios à profissão incluem falta de formação específica, embate com a inteligência artificial e a polêmica sobre a separação entre autor e obra. 

Publicado originalmente em 25 de julho de 2025.

Foto de Noemi Jaffe: Renato Parada.

Quando pensamos em literatura, ou ainda, de maneira mais abrangente, em cultura escrita, há uma série de figuras e elementos que compõem o imaginário desta modalidade da comunicação humana. Dentro do próprio texto, narrador, personagens, tempo e espaço são alguns deles, exterior ao texto temos os leitores, que consomem e geram significados sobre eles. Há também os profissionais que trabalham para que o texto chegue aos leitores em sua melhor forma, como editores, revisores e diagramadores. Mas, sem a figura dos escritores, aqueles que, ao exercerem seu ofício, produzem novos textos, todo esse universo sequer existiria. Embora a escrita seja um elemento essencial da história da humanidade, sua profissionalização remonta a séculos, e há na invenção e popularização da imprensa no século XVIII uma virada para que a figura do escritor atingisse novos patamares como parte de uma nova cultura de produção, disseminação e consumo da informação escrita. 

Apesar de antiga, a atividade da escrita profissional carece de meios para uma formação adequada, sendo que muitos escritores desenvolvem-se de forma autodidata ao longo de suas carreiras, por vezes participando de oficinas de escrita, ou optando por formações acadêmicas como Letras e Jornalismo que, embora ofereçam um vasto arcabouço teórico e prático de produção textual, não voltam-se de maneira específica à carreira na composição de ficção ou poesia, por exemplo. Enquanto no exterior uma formação sólida em escrita criativa já é uma realidade, no Brasil, ainda carecemos de espaços formadores, sendo uma opção a graduação tecnológica ofertada pela PUCRS. Outro exemplo de espaço formador que temos no país é o centro cultural Escrevedeira. Fundado por Noemi Jaffe, João Bandeira e Luciana Gerbovic, o centro oferta diversos cursos, oficinas e clubes de leitura voltados à literatura, com escritores e outros profissionais ligados à área. Trata-se de um dos principais centros de formação de escritores do país e assim, um importante aliado na valorização da literatura e do profissional da escrita criativa. 

“O escritor contribui para a formação de um imaginário coletivo e, muitas vezes, exerce o papel de catalisador e transformador de algumas circunstâncias”, diz Noemi Jaffe

Mas, afinal, o que define um escritor hoje, em meio às diversas mudanças na produção literária? Para Noemi Jaffe, escritora, crítica, professora e uma das idealizadoras da Escrevedeira, algumas concepções básicas se mantém, afinal, “Um/a escritor/a é aquele/a que se dedica a escrever livros de ficção ou não-ficção, entre contos, romances, novelas, etc.” Contudo, Jaffe vai além ao destacar o lugar de relevância do escritor contemporaneamente, sobretudo no Brasil, um país “onde se lê tão pouco”, como pontua. “O escritor contribui para a formação de um imaginário coletivo e, muitas vezes, exerce o papel de catalisador e transformador de algumas circunstâncias. Na maioria das vezes, individuais e, em alguns casos raros, também sociais”, ela complementa, destacando a potência dos escritores em âmbito pessoal e coletivo.

Embora seja uma figura central para a cultura, os escritores são também centro de polêmicas, seja pelo teor de obras que, avaliadas sob certas lentes ideológicas e políticas, são alvo de censura, como em casos recentes no Brasil e nos Estados Unidos, seja pela densa discussão sobre a separação entre autor e obra, motivado usualmente por casos em que o autor apresenta comportamentos e ideais mal recebidas pelo público, ou até mesmo incriminatórias. A discussão rendeu um livro voltado a exemplos como estes na literatura francesa, o interessante É possível dissociar a obra do autor? (Editora Moinhos, 2022), da socióloga Gisèle Sapiro. Embora busque destrinchar o próprio conceito de autor, bastante discutido nos estudos literários por nomes como Michel Foucault e Roland Barthes, e fazer uma leitura sociológica sobre os eventos analisados, Sapiro chega a uma conclusão dúbia. “Pode-se dissociar a obra do autor? Sim e não. Sim, porque, como foi visto, a identificação da obra e do autor nunca é completa e porque a obra escapa a ele. […] Não, […] pois ela carrega o traço de sua visão de mundo, de suas disposições ético-políticas, mais ou menos sublimadas e metamorfoseadas pelo trabalho de formatação, à qual é necessário lançar luz para compreendê-la, em sua sociogênese como em seus efeitos” (p. 178-181). Jaffe traz uma opinião mais enfática ao afirmar crer que obra e autor são coisas separadas e discorda da tendência em associá-las como se houvesse uma relação de dependência entre elas. “Também acho que não se deve esperar que um autor corresponda necessariamente às expectativas dos leitores, somente porque a obra é considerada boa. Tudo isso é bastante circunstancial e relativo. Essa relação de vínculo entre autor e obra é bem típica de uma época em que um dos grandes interesses do público é mais voltado para as curiosidades biográficas do que para a obra em questão’, avalia. 

“Acredito que a IA não conseguirá executar tarefas altamente criativas e com bastante dose de improvisação e acaso, como é o caso da escrita de ficção”

Dentre as mudanças que observamos no fazer literário e na forma como lidamos com a produção escrita, está a ascensão de tecnologias como as inteligências artificiais generativas, capazes de acessar bancos de dados com grandes quantidades de texto e, de maneira quase automática, reproduzir textos que, superficialmente, parecem se aproximar de um ideal de perfeição. Um concurso literário chegou a ser cancelado pela editora organizadora devido a identificação de uso de IA em cerca de 100 obras participantes. Apesar das discussões acaloradas sobre o tema, que incluem suposições quanto à substituição da mão de obra humana em detrimento das máquinas, Jaffe não acredita que tais tecnologias serão capazes de executar tarefas com alto grau de criatividade e altas doses de improvisação e acaso, como na escrita de ficção. Ela reconhece que “trata-se de um desafio considerável para todos os escritores do mundo. Vamos ter que encontrar formas de usar essa tecnologia a nosso favor e esperar que os humanos transcendam um tipo de saber sobre o qual ainda não temos controle nem muito conhecimento. […] Mas não há como prever.”

Fato é que vivemos uma era de informação acelerada e, com mais opções através das tecnologias e da internet, ficou supostamente mais fácil escrever e publicar um livro. Somam-se a isso as pequenas editoras, editais e a possibilidade de autopublicação tanto em mídia física quanto digital. No entanto, embora haja mais pessoas escrevendo, aparentemente há também maiores dificuldades em se deixar uma marca pessoal, possibilitando um real destaque no meio literário. Assim, o que pode parecer um sonho para muitos aspirantes a escritor pode ser também motivo de algum transtorno devido a dificuldade na distribuição das obras e conversão de tamanha produção em uma real distinção no meio literário. Jaffe reflete sobre o atual cenário de publicações e critica a falta de inovação na linguagem e foco demasiado em certos temas. “A quantidade maior [de publicações] parece ter criado uma espécie de homogeneização da linguagem, cada vez mais focada nos temas que, na minha opinião, ao menos, não são o aspecto mais importante da literatura. Mas essa parece ser a atual ‘tendência’, bastante interessada na imediaticidade das discussões, ou polêmicas, geradas por um livro do que na originalidade da proposta literária.”

Apesar dessa notável homogeneização na massa de publicações, há nomes interessantes que hoje despontam no mercado editorial, muitos dos quais cobrimos no site e revista O Odisseu. Ainda assim, críticas à concentração de certos nomes em grandes casas editoriais, festas literárias e concursos são ainda pertinentes, afinal, lógicas hegemônicas se mantêm nestes meios. 

Ser escritor, mesmo hoje, apresenta mais desafios que facilidades. Investir em formação adequada, na originalidade de uma identidade autoral e nos meios materiais para ocupar os espaços de difusão parecem ser o caminho para despontar nesta carreira. Da parte dos leitores, é preciso treinar o faro crítico e estar atento à bibliodiversidade, pois há por toda parte escritores com propostas bastante distintas, com potencial para atingir diferentes públicos, muitos deles sendo publicados de maneira marginal e alternativa.

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