
Nego Bispo, segundo Douglas Barros, não internalizou as normas do processo civilizatório
Um intelectual urbano que vai ao supermercado e encontra o produto na prateleira dificilmente entende Nego Bispo e suas categorias.
Por Fabiane Albuquerque.
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Ora, ora, ora! Lendo o texto de Douglas Barros, autor do livro “O que é Identitarismo”, publicado pela editora Boitempo, salta aos olhos o arcabouço teórico que utilizado para construir sua crítica ao pensamento de Nêgo Bispo, também escritor, quilombola, um intelectual orgânico. Eis aqui, senhoras e senhores, uma lista ilustrativa das palavras pululentes no texto:
Racionalidade, Ocidente, Romano, Revolução Francesa, Romantismo, Estético, Nacionalismo, Pequeno-burguês, burguesia, classe média branca ilustrada, Ascendência, ancestralidade alemã, coletividade homogênea, Razão, crimes da razão, Análise concreta, Zeitgeist, espírito do tempo, Verdade objetiva, privatização da verdade, Epistemologia, Idealismo, inversão idealista, Ideologia, Weltanschauung, cosmovisão, Subjetividade, objetividade, Modernidade, benesses da modernidade, Gemeinschaft, comunidade, Hipóstase, identidade imaginária, Identitarismo, Cosmovisão eurocristã, Teleologia, teleológica, Metafísica, Cosmofobia, Originalidade, pecado original, Deísmo cristão, monoteísmo, Politeísmo, Mixórdia de elementos mágicos, Objetividade…
Seguirei o conselho de Patrick Chamoiseau, no livro “Escrever em país dominado”, ao dizer: “Tomei o hábito de anotar suas palavras”. Ao usar este vocabulário, que não é neutro, ele reforça categorias eurocêntricas, tidas como universais, reproduzindo uma hierarquia simbólica, ainda colonial. Patrick Chamoiseau mostra como a língua imposta pelas metrópoles pode ser uma prisão, uma prisão mental, que reproduz mundos alógenos, que apagam realidades locais ou impede de vê-las com outros olhos. Bem, não temos outra língua, mas temos muitas outras categorias criadas por intelectuais africanos, indígenas, feministas latinoamericanas etc. Tentarei aproximar-me destes últimos.
De fato, há um abismo entre Douglas Barros e Nego Bispo, apenas analisando as referências do primeiro e do segundo, que forjou seu saber no Quilombo Saco-Curtume, estado do Piauí. Se o que Douglas Barros chama de racionalidade, modernidade, epistemologia, Romantismo, objetividade (todas ideias ancoradas num sentido dado pela Europa), é certo que Nego Bispo está mesmo fora disso, num estágio menos avançado do saber, incapaz de pensar como ele, que ascendeu à luz, graças aos grandes nomes e ao método do Velho Continente.
Norbert Elias, sociólogo alemão, ao estudar o processo civilizador, esqueceu de dizer que estava falando da Europa. E, os professores que o ensinam também. Se aplicarmos a análise no Brasil, seria uma tragédia. Mas, no seu estudo, este foi o grande responsável pela internalização de normas de conduta e maneiras de pensar. Por exemplo, ligado à etiqueta, temos a passagem da alimentação com as mãos para o uso dos talheres, das cuspidas no chão para a contenção do gesto. Em muitos quilombos brasileiros e regiões do Brasil, esse processo não chegou, não é, Douglas? Afinal, muita gente ainda usa as mãos para manusear a comida. E, se não chegou este simples gesto civilizatório, o que diria da maneira de pensar o mundo?
“A cosmovisão de Nego Bispo, longe de ser abstrata, apoia-se com os dois pés na agricultura, na caça e na pesca dos quilombos para sobreviver à força devoradora do Capital (e dos intelectuais da cidade), que o preferia nos Sindicatos, de carteira assinada, cantando o Hino da Internacional.”
– Fabiane Albuquerque
Nego Bispo, ao usar a categoria “colonialismo”, utilizou algo que marca ainda hoje a realidade de povos quilombolas e indígenas. São excluídos, não somente da ideia de racionalidade, possuidores de uma cultura “atrasada”, mas também dentro do próprio país, em relação ao Sul e Sudeste, que insiste em vê-los numa condição a ser superada, para o batismo na modernidade. Nego Bispo, fora da academia, da linguagem rebuscada europeia, ousou criar uma categoria em cima daquela que lhe é dada, ou melhor imposta, “contra-colonial”. E, ao contrário do que o autor do texto da Boitempo afirma, dentro dela há uma base material que não precisa ser dita com palavras como “luta de classes” e “capital”. Douglas Barros diz:
“Essa operação não deixará de produzir profundos impactos em sua maneira de se apropriar de ‘conceitos’, reorientando paulatinamente sua ‘crítica’ para uma espécie de determinismo cultural. Afinal, não se separa o colonialismo de sua base material de produção impunemente.” (Douglas Barros).
Repare: ele usa apenas categorias eurocêntricas, enquanto o resto do mundo tem tantas outras, para dizer que as categorias de Nego Bispo podem se orientar para um “determinismo cultural”. Quer algo mais determinista do que citar apenas processos históricos da Europa, como a Revolução Francesa, o Romantismo, e ignorar completamente aqueles do seu próprio continente e país? Na vida, Nego Bispo jamais separou suas ideias da base material. Tanto é verdade que ele se recusou a sair de sua terra e ir para o Sudeste. Quando viajava, se recusava a hospedar-se em hotéis, preferindo casas de pessoas simples como ele. Pregava a união das favelas com os quilombos, o respeito ao que o povo subalterno, considerado inferior criou neste país. Isso é consciência de classe, sem precisar dizer. Mas o autor, abarrotado do conhecimento eurocêntrico, não conseguiu perceber.
A sua cosmovisão, longe de ser abstrata, apoia-se com os dois pés na agricultura, na caça e na pesca dos quilombos para sobreviver à força devoradora do Capital (e dos intelectuais da cidade), que o preferia nos Sindicatos, de carteira assinada, cantando o Hino da Internacional. O que ele chama de orgânico é a vida dos povos fora dos centros do poder econômico, que acompanham a cadeia produtiva, sabem o valor e o trabalho de plantar, colher e vender. Um intelectual urbano que vai ao supermercado e encontra o produto na prateleira dificilmente entende Nego Bispo e suas categorias. A não ser que faça um exercício sincero de deslocamento, não necessariamente físico.
Douglas Barros aponta em Nego Bispo uma tendência a “ignorar os processos históricos concretos e suas contradições”, quando é ele quem o faz, usando apenas a Europa como referência. Ele afirma ser equivocada a crítica do intelectual orgânico ao cristianismo como determinante no processo de escravização:
“Mais do que isso, inscreve-se nessa conclusão uma luta de afirmação religiosa: o cristianismo teria determinado que deveriam ser escravizados os povos de religiões politeístas, como se a religião fosse condição sine qua non para a escravização. Essa noção não resiste minimamente à prova histórica, já que o critério da escravização moderna era ser africano ou indígena, e não monoteísta ou politeísta. Sabemos de milhares de africanos muçulmanos que foram continuamente escravizados.”
Nego Bispo não estava de todo errado ao apontar o Cristianismo como força simbólica, no mesmo nível das forças materiais, pois estas últimas precisavam de um imperativo moral sólido. Douglas separa os processos. David M. Goldenberg, no livro “The Curse of Ham: Race and Slavery in Early Judaism, Christianity, and Islam”, diz que foi a famosa narrativa bíblica da “maldição de Cam” (Gênesis 9:18-25), reinterpretada ao longo da história, foi central para a escravidão e a inferiorização dos povos negros. Ele mostra que, embora o texto original não associe Cam ou seus descendentes à cor da pele, tradições judaicas, cristãs e islâmicas posteriores passaram a vincular a maldição à ideia de negritude, criando uma base religiosa e cultural para legitimar o racismo e a escravidão. Max Weber também apontou o protestantismo como força motriz do Capitalismo, sem o qual ele não teria se desenvolvido. A religião foi, sim, condição sine qua non para a escravização. É história. Todos os colonizadores chegaram com a cruz, abençoando o que chamaram de “missão”. Aimé Césaire também afirma que a colonização não foi apenas um processo material, mas um sistema simbólico de desumanização do outro. Um e outro, juntos.
Por fim, ele diz que “não se sabe bem se se trata de religiões de matriz africana e de experiências com o sagrado nas comunidades originárias ou simplesmente de uma nova religião na qual Nego Bispo figura como mentor. O que se sabe, porém, é que a vivência, a identidade fechada e o saber correlacionado ao território e à empiria são pressupostos fundamentais de uma contra-colonização em abstrato.”
Ao apontar essas características em Nego Bispo: identidade fechada, saber correlacionado ao território e à empiria em abstrato, ele provavelmente, não reconhece sua própria identidade fechada numa escolha epistemológica eurocêntrica, ligada a um território: aquele acadêmico que só valoriza o que o norte do mundo produziu como saber, que não é quilombo, nem terra indígena.
No texto que escrevi para a revista “A Terra é Redonda”, intitulado “O Intelectual Despertencido”, Douglas Barros é o intelectual que pretende-se desterritorializado. O que ele não se dá conta é do quão situado está, condicionado na forma de pensar. Nego Bispo? Ah, este, como ele mesmo disse: voltou para a terra, de onde teve seus pés sempre fincados, na materialidade da vida. Uma ode às categorias de Nego Bispo e seu legado às gerações futuras.
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Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia (UNICAMP), escritora e feminista negra. Autora de “Os meus mortos pedem nome” (Urutau/Hecatombe, 2025).
