Coluna Escrevernar

Minha arma é a palavra

Publicado originalmente em 16 de junho de 2025.

Desde muito jovem, sempre me interessei pela história da diáspora judaica na Amazônia. Quando decidi escrever meu primeiro romance, Terra Úmida, o que pulsava em mim era justamente a travessia que marcou minha ancestralidade; uma travessia que não foi apenas dos judeus, mas de tantos outros povos que viram na Amazônia uma nova Terra Prometida.

Meu bisavô, David, nasceu em Tânger, no Marrocos, em 1889. Aos 13 anos, idade em que se atinge a maioridade religiosa no judaísmo, partiu com os pais e irmãos rumo ao Brasil. Deixaram para trás uma terra marcada pela intolerância religiosa, pelas guerras civis e pelo medo constante. Atravessaram o Estreito de Gibraltar, passaram pela Espanha e seguiram até o Amazonas, uma terra que, na época, oferecia abertura dos portos, liberdade de culto e perspectivas de prosperidade. O bairro onde minha família se estabeleceu era um microcosmo da convivência possível: judeus, árabes, nordestinos, portugueses e tantos outros imigrantes viviam lado a lado, unidos pela esperança e pelo extrativismo da borracha e outras riquezas que a Amazônia oferecia. Era, em muitos sentidos, um território de paz, de reconstrução, de fé no futuro comum.

É por isso que, enquanto escrevo estas linhas, assisto com um misto de dor e incredulidade ao que acontece em Gaza. O que me fere não é apenas a violência desmedida, mas sua origem: uma fé, que deveria unir, consolar, elevar, sendo transformada em instrumento de destruição. E o mais doloroso: essa violência é praticada por um povo que conhece intimamente o peso do extermínio e da perseguição.

Enquanto escrevo, não posso deixar de lembrar Paulo Freire. Ele pregou que a libertação do oprimido exige a negação radical da lógica do opressor. O oprimido não pode buscar apenas trocar de lugar com aquele que o subjugava, porque isso não transforma o mundo, apenas o faz girar em torno da mesma engrenagem cruel. Se a resposta à opressão for a reprodução da opressão, não há aprendizado, não há libertação verdadeira, apenas repetição do ciclo de dor.

Como judia, isso me envergonha. Porque não fomos perseguidos para agora perseguir. Não fomos marcados pela dor para agora marcar outros com a mesma violência. O Holocausto, essa ferida aberta (para sempre), não pode ser usado como salvo-conduto para justificar mais mortes, mais desalojamentos, mais crianças soterradas sob escombros. O que se vê em Gaza é uma catástrofe humanitária. E ela não pode mais ser ignorada. Não é mais tempo de silêncio, de ambiguidade, de discursos cautelosos. É tempo de união. União entre povos, religiões, comunidades acadêmicas, lideranças políticas e vozes civis. É preciso erguer um clamor coletivo, não apenas contra o horror atual, mas em defesa de um futuro possível onde a paz seja mais que uma abstração diplomática. Onde a justiça não seja privilégio de poucos. Onde a alteridade não dependa da origem étnica ou da identidade religiosa de quem sofre.

Não se trata de tomar um lado, mas de recusar o lado da barbárie.

Eu luto com a única arma que tenho: a palavra. E acredito na força da palavra como denúncia, como resistência, como ponte. Palavra como luto, mas sobretudo como gesto de amor ao outro. É impossível me calar enquanto assisto à destruição de um território que poderia e deveria ser de todos. Porque somos todos, afinal, parte de uma mesma espécie humana. E, se não formos capazes de nos reconhecer no sofrimento do outro, estaremos fadados a repetir eternamente as piores páginas da nossa história.

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