Ensaio

Manifesto Amefricano contra a invasão dos Estados Unidos na Venezuela

A Améfrica Ladina é uma contra-narrativa ao colonialismo: ela desestabiliza a visão eurocentrada que reduz a região a periferia do Ocidente e afirma que somos sujeitos históricos de nossa própria modernidade.

Por Fabiane Albuquerque.

(Arte: Exu Black Power nº 2 (Homenagem a Rubens Gerchman), 1969. Foto: © Museu de Arte Negra/Ipeafro).


Assistimos, mais uma vez, ao espetáculo cruel da dominação: bombas que caem sobre a Venezuela, corpos transformados em alvo, guerra ao tráfico de drogas, convertido em justificativa. No Iraque, foram as bombas de destruição de massa, jamais comprovadas, o “motivo” que deixou um rastro de cidades arrasadas, com centenas de civis mortos e a destruição do arranjo social e da governança. 

O imperialismo estadunidense insiste em sequestrar não apenas líderes, mas também a dignidade de nossos povos. É a repetição da história colonial, agora com novos uniformes e velhas ambições. Como nos lembra Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra (1961):

“Há dois séculos, uma ex-colônia da Europa decidiu competir com a metrópole. Ela teve tanto sucesso nessa empreitada que os Estados Unidos da América se tornaram um país monstruoso, no qual as taras, a náusea e a crueldade da Europa atingiram dimensões assustadoras.” (Frantz Fanon).

Essa leitura nos ajuda a compreender que o imperialismo estadunidense não é acidente, mas continuidade da lógica colonial europeia, agora travestida de modernidade e progresso. O que se apresenta como defesa da democracia ou como missão civilizatória nada mais é do que a atualização da mesma violência que Aimé Césaire denunciou. 

Poeta, dramaturgo, político e ensaísta Aimé Césaire (Foto: Britannica).

O grande intelectual da negritude, um dos mais combatentes do século XX, denunciou a barbárie travestida de civilização, lembrando que o colonialismo é sempre crime contra a humanidade. Em seu Discurso sobre o colonialismo, ele afirma que a Europa não pode se apresentar como portadora de civilização, pois o colonialismo é, em essência, um crime contra a humanidade, responsável por transformar povos em objetos de exploração e territórios em zonas de saque. Essa denúncia ecoa fortemente quando observamos a trajetória imperialista dos Estados Unidos na América Latina, que reproduziu e ampliou a lógica colonial sob o pretexto da defesa da democracia ou do combate ao comunismo. Basta lembrar da Guatemala em 1954, quando o presidente Jacobo Arbenz foi derrubado por uma operação financiada por Washington; da República Dominicana em 1965, invadida para sufocar um levante popular; do Chile em 1973, onde os EUA apoiaram o golpe militar que depôs Salvador Allende; da Granada em 1983, invadida sob justificativa de proteger cidadãos norte-americanos; e do Panamá em 1989, quando a operação “Causa Justa” derrubou Manuel Noriega. Cada uma dessas intervenções confirma a tese de Césaire, o colonialismo e suas metamorfoses modernas, não são projetos de civilização, mas de barbárie, que perpetuam a violência imperialista e a negação da soberania dos povos latino-americanos.

O conceito de Améfrica Ladina, formulado por Lélia Gonzalez, é chave para compreender e enfrentar a violência imperialista que hoje se abate sobre nossos povos. Ao propor a fusão entre América Latina e África, Gonzalez nos lembra que a história do continente não pode ser pensada sem a presença negra e indígena, que constituem sua base cultural, política e espiritual. Nesse sentido, a Améfrica Ladina é uma contra-narrativa ao colonialismo: ela desestabiliza a visão eurocentrada que reduz a região a periferia do Ocidente e afirma que somos sujeitos históricos de nossa própria modernidade.

Diante das invasões e intervenções dos Estados Unidos — da Guatemala em 1954 ao Panamá em 1989 —, a Améfrica Ladina se ergue como horizonte contra-colonial e contra-imperialista, pois recoloca no centro da luta os povos que sempre foram tratados como descartáveis. Para os negros do continente, esse conceito é vital: ele nos devolve a dignidade de sermos protagonistas da resistência, articulando ancestralidade e futuro, memória e criação, contra a lógica de saque e destruição que insiste em nos silenciar.

Nego Bispo, ao falar de contracolonialidade, nos lembra que resistir não é apenas reagir, mas propor outras formas de existir, baseadas na reciprocidade, na ancestralidade e na vida comunitária. É nesse sentido que a aproximação entre Améfrica Ladina e contracolonialidade se torna urgente: ambas nos oferecem ferramentas para enfrentar o horror, não apenas denunciando, mas criando alternativas.

Ao longo da história, não foi apenas o imperialismo europeu e estadunidense que saqueou nossos territórios: a burguesia branca da América Latina desempenhou papel central nesse processo, funcionando como intermediária da dominação. Sempre pronta a vender o país e nossos povos em troca de privilégios, essa elite se aliou às metrópoles, entregando riquezas naturais, reprimindo movimentos populares e perpetuando o racismo estrutural que mantém negros e indígenas na marginalidade. Essa cumplicidade interna é parte da engrenagem colonial que insiste em transformar nossas nações em dependentes, reforçando a lógica de submissão e exclusão.

Diante da violência imperialista que insiste em transformar nossos territórios em zonas de saque, é fundamental lembrar que os povos negros da América carregam uma memória de resistência que não pode ser apagada. A Améfrica Ladina é mais do que um conceito, é um chamado à solidariedade entre as populações negras e indígenas, que historicamente enfrentaram a escravidão, o racismo e a expropriação colonial. Para nós, mulheres e homens negros do continente, essa perspectiva recoloca nossas experiências no centro da luta contra o imperialismo, afirmando que não somos apenas vítimas, mas sujeitos históricos capazes de reinventar o futuro. Ao lado da contracolonialidade de Nego Bispo, a Améfrica Ladina nos oferece não apenas ferramentas de denúncia, mas também caminhos de criação — caminhos que afirmam a vida, a ancestralidade e a dignidade. É nesse encontro que reside nossa força: transformar a dor em luta, e a luta em esperança, para que os povos negros da América possam seguir erguendo mundos onde a liberdade não seja promessa, mas realidade.

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A filósofa brasileira Lélia Gonzalez. Acervo Lélia Gonzalez. Responsável por cunhar o termo Améfrica Ladina.

Fabiane Albuquerque é doutora em sociologia, escritora e feminista negra. Autora de “Os meus mortos pedem nome” (Urutau/Hecatombe, 2025).