Luiz Gama filho de Luiza Mahin
Novos documentos descobertos por pesquisadoras da Universidade Federal da Bahia atestam o que já havia sido dito em carta autobiográfica: o advogado abolicionista Luiz Gama é filho de Luiza Mahin.
Este conteúdo foi realizado com apoio do Portal Diáspora, da Trampolim Assessoria de Comunicação e da FMacial Comunicação.
A descoberta científica do ano foi publicada pelas pesquisadoras Wlamyra Albuquerque e Lisa Earl Castillo, ambas vinculadas à Universidade Federal da Bahia. Trata-se de documentos que comprovam o que o advogado Luiz Gama já falava em sua carta autobiográfica do século XIX: ele é filho de Luiza Mahin, mulher negra escravizada, de nação Nagô.
Até a descoberta desses documentos, muito se especulava sobre a autenticidade do que estava descrito na carta. Ainda assim, Luiza Mahin entrou para o imaginário popular e transformou-se em uma referência para o movimento feminista negro, muito por conta daquilo que Gama conta na carta: Mahin foi uma mulher que rejeitou o batismo, ou seja, a imposição da igreja católica, e teria lutado em revoltas de escravizados que, nas palavras de Gama, não teriam tido sucesso. Nas narrativas construídas pelos movimentos negros, Mahin teria sido então uma das escravizadas a particidar da Revolta dos Malês, revolta associada a escravizados de origem mulçumana em 1835.
Os novos documentos, no entanto, não conseguem atestar a presença de Mahin entre os Malês e a professora Lisa Earl Castillo diz duvidar que a mãe de Luiz Gama teria participado da revolta e tem um ótimo argumento para isso. “Não sei se Gama diria que a Revolta dos Malês não teve sucesso”, diz ela. Afinal, vale lembrar, o acontecimento em Salvador resultou em mortes e criou o clima necessário para novos eventos abolicionistas.
Para a professora Wlamyra Albuquerque, o imaginário em torno de Mahin na Revolta dos Malês diz mais respeito a uma lacuna na história do Brasil: a ausência de mulheres negras nos registros de acontecimentos históricos. Não que elas não estivessem lá, mas apenas não eram citadas. Em entrevista, Albuquerque diz: “Eu acho que isso diz respeito a vários vazios que existem ainda na memória nacional acerca do papel das mulheres negras na constituição da história do país”.
‘Existem vários Luiz Gama’, diz professor Sílvio Roberto dos Santos Oliveira, autor da Gamacopeia

Um dos grandes pesquisadores da vida e obra de Luiz Gama é o professor Silvio Oliveira, da Universidade do Estado da Bahia. Este ano, Oliveira publicou pela excelente Editora Ogums Toques Negros o livro Gamacopeia: (des)fabulações poéticas de Luiz Gama. Trata-se de uma nova leitura da sua tese de doutorado apresentado à Universidade Estadual de Campinas, um consistente trabalho de crítica em torno da poética do abolicionista negro.

Em conversa, o professor Silvio conta que existem muitas leituras em torno de Luiz Gama e que a poesia dele foi uma produção menosprezada na história, dando-se preferência à figura de Gama enquanto advogado. “Ele sempre foi considerado um ‘poeta menor’ na historiografia da literatura brasileira”, diz o professor. Em contrapartida, no livro, ele aponta como essa poesia reverbera em inúmeros outros versos no Brasil, como no cancioneiro popular e em outros versos de autores negros, como Miriam Alves.
Mas algo que o professor Silvio traz à evidência é a multiplicidade de leituras que existem em torno de Luiz Gama, bem como boatos e histórias que se contam na cidade de Salvador desde o século XIX. Para ele, muitas dessas diversas versões vêm também daquilo que ele chama de “estratégias conscientes de fabulação” de Luiz Gama.
“As pessoas confundem ficção com mentira. Eu posso dizer que existe muita ficção na carta de Luiz Gama, mas nenhuma mentira. Ele omite o nome do pai ou dá uma informação que alimenta o imaginário propositadamente, de forma muito criativa. E os seus silêncios, as suas supostas falhas de memória, acabam alimentando o imaginário popular”
Dr. Silvio Roberto dos Santos Oliveira
Professor de literatura (UNEB) e autor de Gamacopeia: (des)fabulações poéticas de Luiz Gama

O que dizem os documentos?

As novas descobertas podem ser lidas na íntegra através de um artigo publicado na revista associada ao Centro de Estudos Afro-Asiáticos da Universidade Federal da Bahia, o CEAO, assinado pelas pesquisadoras Albuquerque e Castillo. Nele, as professoras apresentam provas de que Luiza Mahin é mãe de Luiz Gama. Tudo isso, conta a professora Lisa, surgiu a partir do momento em que ela, investigando os registros de um tabelião para outra pesquisa, encontrou uma escritura de hipoteca, de uma dívida. A garantia da dívida era uma casa na Rua do Bângala, rua que o abolicionista afirma ter nascido, e o sobrenome da pessoa que hipotecava a casa era Pinto da Gama. Ainda na escritura da casa, Lisa leu que a pessoa recebeu a casa como herança de uma tia, algo que Luiz Gama também conta na carta: seu pai havia herdado a casa de uma tia.
A partir daí, a pesquisadora decidiu buscar por informações dessa tia e foi então que tudo se iluminou. Encontrou então o testamento da tia, no qual ela atestava os seus bens, imóveis na Rua do Bângala, mas também conta que tinha duas mulheres escravas, ambas de nação nagô: uma se chamava Ana, a outra Luiza. E mais: Luiza tem um filho de seis anos chamado Luiz Gonzaga Pinto da Gama.
Divergência entre a carta de Luiz Gama e o que atestam os documentos
Se por um lado, a carta confirma muitas informações a respeito de Luiz Gama, por outro, ela fez com que muitos pesquisadores andassem em círculos. A principal divergência entre o que mostram os documentos e o que Gama diz é a referência ao seu batismo. Como amplamente se sabe, Luiz Gama conta que ele foi batizado na Ilha de Itaparica, o que fez com que muitos historiadores decidissem buscar as informações na ilha. Mas as pesquisadoras Wlamyra e Lisa encontraram o registro de batismo – simplesmente um dos documentos da história brasileira mais desejados – e ele não estava na Ilha de Itaparica, mas sim na freguesia de Sant’Anna, como também apontava a tia em seu testamento.
A relação com o batismo na Ilha de Itaparica foi um dos motivos que levou a escritora, e recém imortal da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Gonçalves a ir para a ilha no começo do século XXI em busca de vestígios deste Luiz Gama e também de sua mãe, Luiza Mahin. O resultado, sabemos, é o já clássico Um Defeito de Cor, apresentado como o livro mais importante do século XXI até agora pela Folha de São Paulo. O encontro dos documentos que atestam Gama como filho de Mahin acontece justamente no ano em que Ana Maria se torna a primeira mulher negra a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.
(Continua após a foto)

“Um dos grandes méritos do livro é o fato de ter dado vida a esses personagens”, contou a professora Wlamyra Albuquerque “O fato de Ana Maria Gonçalves ter feito esse livro fantástico e nós encontrado esses documentos agora é de uma surpresa incrível porque é a oportunidade de falar sobre a relação entre literatura e história”.
‘Quero dizer aos jovens pesquisadores que não desistam’, diz a Dra. Lisa Earl Castillo

Todos esses estudos e buscas por documentações de pessoas negras históricas acontecem num momento em que a própria comunidade acadêmica negra elabora questões sobre o documento e a memória coletiva. É difícil não lembrar da pesquisadora Saidiya Hartman e de seu livro Perder a mãe, onde ela desenvolve conceitos como Fabulação Crítica e O silêncio do arquivo. Eu estava para fazer uma pergunta sobre essas questões quando a própria professora Lisa mencionou Hartman.
“Mas Saidiya Hartman não é historiadora”, lembra Lisa. “Embora esse trabalho de procurar informações seja lento, é possível sim encontrar documentos”. Lisa reconhece que existem muitos obstáculos em torno dessas documentações quando se trata de pessoas negras e que, de fato, existem lacunas. Mas ela lembra que o trabalho de investigação histórica é lento e de fato muito laborioso. “Só quero dizer aos jovens pesquisadores que não desistam”, diz ela de forma muito inspiradora.
Como ela conta, existem vestígios e é possível localizá-los desde que se tenha muita paciência. Os arquivos de Gama, por exemplo, praticamente se mostraram à pesquisa que tem como principal mérito o fato de reconhecer ali, num dado tão “pouco”, a possibilidade de encontrar algo grande. Ao encontrar um registro de hipoteca, foi em busca de um testamento.
‘Não queremos desmontar as narrativas que existem em torno de Luiza Mahin’, diz professora e pesquisadora Wlamyra Albuquerque
Wlamyra Albuquerque, por outro lado, lembra que a documentação não substitui e nem quer substituir as diversas versões que existem sobre Luiza Mahin, Luiz Gama ou qualquer outra figura negra histórica. “A gente tá interessado em dizer que há documentos que localizam o que de fato aconteceu com esses personagens. E que a pesquisa histórica é capaz de fornecer essa informação”.
Para a professora vinculada ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da UFBA, existe algo de muito valor no modo como os movimentos negros se apropriaram das figuras de Luiza Mahin e de Luiz Gama e reitera que isso só foi possível graças à entrada de estudantes negros na universidade. “O modo como personagens como Luiz Gama ganharam destaque também se relaciona com a política de cotas”, diz Albuquerque.
Ao fim da entrevista, ela conta que neste momento está menos interessada em pesquisar figuras históricas. “Quero pesquisar sobre pessoas ditas comuns”, diz ela “porque são essas as pessoas que fazem a história”.

Com esses novos documentos, podemos dizer que tanto Wlamyra quanto Lisa entraram para a história da pesquisa documental no Brasil uma década antes do bicentenário da Revolta dos Malês. Como a professora Lisa disse, é possível localizar documentos, muito embora, como a professora Wlamyra disse, a fabulação crítica seja um instrumento também vital para a constituição da memória.
Assista o vídeo com as entrevistas com os Professores Silvio, Lisa e Wlamyra no canal do YouTube da Revista O Odisseu!


