
Ler literatura trans é um risco: Ravel Machado indica 6 livros de literatura trans
A convite da revista O Odisseu, e em celebração ao mês da visibilidade trans, Ravel Machado, editor da (elle/elu) edições y traduções, tradutor e pesquisador em literatura trans, indica livros de literatura trans.
Na foto: Gal Freire por Cayo Vieira.
Ravel Machado:
Ler literatura trans é um risco. Um risco de criar proximidade entre pessoas cujo vínculo se fez impossível por uma série de educações que barraram e barram a nossa convivência – entre pessoas cisgêneras e transgêneras – de maneira digna. Corrigir a distância entre as nossas sensibilidades, criar poros possíveis, tudo isso pode a literatura trans. E ela é saborosa e múltipla. Aqui, na imensa dificuldade de delimitar um caminho de aproximação, proponho algumas leituras:
6 livros de literatura trans

“Corpo Estranho”, de Milo Noronha Utsch (Editora Patuá, romance)
Quem já tem um olhar para a literatura trans, sabe que temos mais produções em poesia do que em romance. Só por isso, o livro de Milo já é interessante. Mas, para além disso, aqui você encontra um romance com sotaque mineiro, onde a lentidão bonita e conhecida desse povo contrasta com a atividade profissional do narrador, que trabalha para a indústria farmacêutica e está em Rio Preto, sua cidade natal, para buscar a ternura-vermelha, fruto ansiolítico. A forma como Milo amarra a história de uma região interiorana mineira com a própria história do narrador, em uma transição que não se diz, se demonstra no próprio cruzo de retorno do protagonista à sua velha cidade agora em novo corpo e função, é de uma artimanha sábia e delicada. No livro, os modos de conhecimento populares e tradicionais e os modos científicos estão em pronta relação: da garrafeira ao envase certificado, mostra-se, com pés lascados e mistérios, os sórdidos caminhos.
“Chuva dourada sobre mim”, de Naty Menstrual (Editora Diadorim, Contos, tradução de Amara Moira)
Eu diria que esse livro é um livro versão brasileira Amara Moira, relembrando a bela tradição brasileira de traduções-versões que podemos observar na tradução televisiva de Chaves, por exemplo. A embaixadora do pajubá exerce seu posto, pajubanizando e brasiliando a obra da estimada autora travesti argentina. Mistura de culturas, essa tradução é polêmica, mas a verdade é que o cruzo entre as duas tem um final divertido, de um tipo de diversão horrorosa que apenas aquelas que vivem na pele a vida travesti sabem narrar. Cada conto nasce uma personagem que vive situações que são hilárias para qualquer pessoa que viva publicamente uma vida mais linear, a questão aqui é que desmascara-se a vida privada daqueles e daquelas que, no off, sempre estiveram com a gente, para o bem, para o mal e, por essa inventividade de guerrilha bem humorada travesti, para muita literatura.


“No Truque”, de Johan Mijail ((elle/elu), romance, tradução de Formigão)
Johan Mijail é uma escritora de territórios e trânsitos. Se em Santo Domingo is Burning a autora direciona textos à relação que está remontando com sua cidade natal depois de ter passado oito anos fora, em No Truque é possível dizer que a narradora narra a cidade como uma forma de narrar a si mesma, numa alter-hetero-biografia. A imbricação entre gênero, raça, território, sexualidade, história e teoria nos convida a percorrer a ilha dominicana em suas esquinas e suas distâncias percorridas ao pé do texto. O que temos, então, é um romance com sotaque afro-latino e decolonial, feito por uma grande pensadora contemporânea. Para quem busca descentralizar a imagem de América Latina daquela baseada na Argentina e no Chile, é uma grande e maravilhosa chance.
“Barbie-Brasil-Tesão”, de Gal Freire (Poesia, Editora Macondo)
Traços hífens contagiam essas três palavras que escorrem o livro de Gal Freire. Livro analógico que não deixa de saber que a contemporaneidade, entre algoritmos, glocks e quetaminas, faz a vida das bonecas coisa tão sua. Se de início a chave é a mulher, gesto que aproxima de “o útero é um tamanho de um punho”, de angélica freitas, na duração essa carne familiar vai enchendo os poros plásticos dessa barbie transex, que conjura durar como o plástico indefectível, no país que mais mata bonecas. Gal é bailarina das quedas, profissão real e física, e assim também se sente na sua poesia a forma de cair os versos. Algo gótico, tropical, denso, algo onírico de realidades, como se no Brasil, mostra tua cara, pudéssemos contemplar entre o reflexo das vitrines a face travesti.
bendita seja a mulher que nasce ontem/com as pílulas que só tomou hoje/nas bordas de tudo que é bom/fazendo história em cima de/seus próprios cadáveres/como se o mundo não fosse uma/proposta quase irrecusável de morte/mas uma oportunidade de oferecer/beleza à vida


“Rio Pequeno”, de Floresta (Poesia, Círculo de Poemas)
Quase toda vida trans prescinde da ousadia de um revisionismo micro-histórico, de uma apropriação. No caminho que floresta traça em Rio Pequeno, participamos desse rito poético e seu, de pegar-se na mão, de revisita, compreensão, de chegar ao ponto de salvar para si os próprios domingos, começar domingo a revindicar o que é seu de si, do seu território de partida, a generosidade de fazer de si um ser familiar, compreensivo, mas esse animal cordial escreve cada um dos seus dentes, já sabe salvar os livros das zonas alagáveis, já é íntimo das entidades e encruzilhadas, já sabe afiar a lâmina da língua e, com o livro, nós também já sabemos que sabe.
e minha buceta ali quieta/em seu silêncio de pelos/profundo/minha buceta ali muda/ planejando futuros.
“Mamãe, o campo”, de Lázaro Izael (Poesia, (elle/elu), lançamento previsto para fevereiro)
Fazer da poesia o campo onde as crianças espiam, os bichos, as luzes, as brincadeiras, a fresta das portas da exploração sexual rural das mulheres, não, da mulher, da mãe, e agora, mamãe? As crianças crescem, a mãe pega mundo, atravessa essa rua, essa fronteira, mas qual é a outra? Essa longa poesia é um drama que cresce como uma criança cresce, como as coisas que eram sem consciência e vão ganhando, pela língua desenhada com uma delicadeza febril no andar do poema e sem cortes. Não são fatos apenas, é o ritmo gravado no corpo em expansão que agora – se lermos – é nosso, conecta com o nosso. Com lentidão de seguir à risca a náusea do contorno de cada letra, como um poeta que, ao receber, por esse livro, o Premio Iberoamericano de Poesía Joven Alejandro Aura diz: tenho fé na linguagem. A casa nem sempre é um refúgio para quem a habita, e aqui o poeta mexicano Lazaro Izael não avisa, percorre.

Conheça a editora (elle/elu) edições y traduções
A (elle/elu) edições y traduções trabalha desde 2023 publicando e fomentando literaturas de autorias trans brasileiras e latino-americanas. Para 2026, a editora prepara a publicação de 20 livros de autoria nacional numa coleção chamada junteoscacos. Para isso ser possível, serão feitas campanhas de financiamento coletivo. Seja parte dessa história, acompanhe a editora nas redes e no site e apoie a consolidação desse projeto.

Conheça Ravel Machado
Ravel Machado é uma pessoa transmasculina e não binária, editor independente, tradutor, oficineiro e escritor. Atualmente, encabeça (elle/elu) edições y traduções, editorial transcentrado que promove a publicação e difusão de literaturas trans, travestis e não binárias brasileiras e da América Latina. A editora, criada em 2023, dedica-se à circulação de obras literárias e teóricas, apostando na ideia de vizinhança como um conceito chave para a produção de proteção às escrituras e memórias dissidentes. Realizou a formação em tradução literária pela Casa Guilherme de Almeida (SP) e integrou o Curso Livre de Formação de Escritores da Casa das Rosas. É autor do livro de poesias Faz a Curva, Paixão (Urutau, 2023) e teve seu poema A aranha não precisa de olhos publicado na Revista Cult. Atua também como divulgador e fomentador de literaturas dissidentes, tendo realizado oficinas sobre literatura LGBTQIA+ brasileira para público amplo e laboratórios de escrita destinadas a pessoas dissidentes no Brasil, na Colômbia, no Peru e no Chile.
