‘Há uma pirâmide da literatura mundial, e a literatura africana é subgrupo daquilo que constitui um todo’, diz escritor moçambicano Adelino Timóteo
No Brasil para o lançamento do livro ‘Nós, os do Macurungo’ (Editora Rua do Sabão), o escritor moçambicano Adelino Timóteo fala sobre a necessidade de constante descolonização de Moçambique e dos resquícios coloniais no Brasil.
Publicado originalmente em 30 de julho de 2025.
Adelino Timóteo, autor de Moçambique, que publica o seu terceiro livro aqui no Brasil, está numa verdadeira turnê pelo estado da Bahia. Já passou pela Festa Literária de Irecê, no interior do estado, no campus dos Malês da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), em São Francisco do Conde, e ainda terá encontros na Universidade do Estado da Bahia, UNEB, e na Universidade Estadual de Feira de Santana, a UEFS.
O livro em questão é o Nós, os do Mucurungo, que sai pela Editora Rua de Sabão e que é um livro de memórias da infância do autor. Ao fazer isso, Timóteo se insere em uma tradição de escritos de autores africanos que escreveram memórias de tempos de totalitarismo na África por conta das guerras de independência ou de descolonização. Posso citar “Sonhos em tempos de guerra”, do queniano Ngũgĩ wa Thiong’o e também “Bom dia, camaradas”, do angolano Ondjaki.
Estar dentro dessa tradição, entretanto, não quer dizer que trazer de volta essas memórias incômodas seja um assunto fácil. Pelo contrário, os escritores, como Timóteo, rompem com um silêncio ao decidir falar das guerras que vieram após a independência.
“É um período sobre o qual ninguém quis abordar durante esses anos. É um tema tabu, que foi a descolonização. E depois a guerra civil e a situação do autoritarismo em Moçambique. Este tema tem sido tabu, porque é uma sujeição quase coletiva, e há um paradigma de desmemoria. Então, eu chamei todos os aspectos, todos os elementos da época e derramei no papel de forma que isto fique bem claro e seja algo que possa ser transmitido aos Moçambicanos — em primeiro lugar — depois ao mundo, basicamente isso.”, me contou Adelino numa breve entrevista que fizemos em uma reunião virtual. Na ocasião, me contou que por conta do tempo em que se passa o livro, não se trata de memórias individuais, mas de memórias coletivas e que escreve porque Moçambique ainda vive no que ele chama de “um novo paradigma de colonização”.
“Nós estamos numa situação de descolonização, mas que contém elementos de um novo paradigma de colonização. Porque agora são os pretos que exploraram os pretos. São os pretos que colonizam os pretos. E seguindo aquela mesma perfídia, aquela mesma humilhação do colonizador branco. Mas quem tem olhos percebe efetivamente o que está acontecendo. Porque há miséria por todos os lados. Há um aumento crescente da desigualdade entre os ricos e pobres e, nas ruas, o mercado informal por todo lado e situações que não estávamos habituados a ver faz 20 anos ou 30, não é? Que hoje passou a ser a paisagem de Moçambique.”, contou Adelino Timóteo.
‘No Brasil, os que eram os grandes senhores continuam os mesmos e os que eram serventes continuam no mesmo papel’, diz o escritor Adelino Timóteo

Em determinado momento da conversa, disse: “vamos falar sobre alguns aspectos mais literários?” e ele prontamente me responde com um sorriso: “mas literatura também é política”. Está correto. Tanto que, ao tocar nos pontos de encontro em Moçambique e Bahia, ele logo traz a questão da desigualdade racial no Brasil. Contou que se surpreendeu com o fato de ser apenas servido por pessoas negras no Brasil enquanto estava tomando café e em todos os restaurantes que entrou. “É um outro rastro da colonização. De uma forma sútil, mas que não diferencia daquilo que aconteceu no passado. Os grandes senhores, estes continuam grandes senhores e aqueles que sempre foram serventes ou escravos, numa perspectiva mais moderna, continuam no seu papel.”, disse.
Conversamos um pouco sobre como o Brasil consegue ser essa grande contradição: um país de maioria negra e que tem muito da contribuição do negro na culinária, na cultura, nas artes, na economia… em tudo e ainda assim é muito desigual quanto à raça. Contou: “Não é isso que eu esperava de ver aqui no Brasil. Não é isso que eu pensava desfrutar ou estar ao meu alcance, porque também é quase a mesma paisagem que encontro na Europa. Eu também, quando vinha, eu tinha essa imagem do Brasil: um país mestiço, o país mais mestiço do mundo, como se isso sugerisse uma igualdade e uma justiça social. Mas uma vez aqui foi uma imagem muito forte, como um soco no estômago.”
‘Acho uma injustiça que as novas gerações rejeitem Jorge Amado’, diz Adelino Timóteo
“E quanto à literatura?”, puxei. Perguntei o que ele conhece de literatura brasileira contemporânea, mas ele logo disse que não tem acompanhado muito o cenário contemporâneo. “E eu sou daquela escola, aqueles leitores da escola do Jorge Amado, do Vinícius de Moraes, do Machado de Assis, da Cecília Meirelles, do Olavo Bilac.”, contou. Contei que aqui no Brasil, muito recentemente, há mais pluralidade, com escritores negros mais presentes na literatura e reivindicando um espaço anteriormente negado. Citei Itamar Vieira Jr, autor de Torto Arado e Conceição Evaristo, de Olhos D’água. Adelino contou que foi um pouco resistente a essas discussões sobre literatura de autores negros e que buscava o que seria a literatura enquanto um denominador comum, mas que também entende a necessidade de reivindicar espaços.
“Eu lembro-me que, por volta de 2011, li uma referência do senhor Ferreira Gullar que dizia que a literatura era para uma elite, não é? E a literatura não poderia ser algo que pudesse ser dominada pelos negros. Isto ofendeu-me bastante, ofendeu-me bastante. E eu percebo esse ciclo. Eu seria uma pessoa muito, muito suspeita para falar sobre isso, para falar sobre questões raciais, porque alguns poderão pensar que eu desejaria matar os brancos para ganhar uma certa visibilidade. Mas há aqui uma capa, uma camada de situação em que, de forma reincidente por todo o mundo, a literatura africana, ou seja, os escritores negros, são um subgrupo daquilo que constitui um todo. Ou seja, uma pirâmide da literatura universal.”, contou Adelino.
Ele voltou a citar a obra de Jorge Amado que, embora sendo um autor branco, foi um autor que trouxe muito da realidade um Brasil negro e que denunciou inúmeras violências. Na hora, aproveitei para trazer um debate que está muito frequente hoje em dia: o de que Jorge Amado teria sido um autor que teria estereotipado a pessoa negra. Contei que, por isso, Amado não é mais tão bem aceito pelas novas gerações de leitores.
“Eu acharia uma injustiça, afinal, a literatura dele se inscreve dentro desse território que é a Bahia, onde ele nasceu e cresceu. E eu penso que, do ponto de vista de sensibilidade, ele está muito próximo da realidade. Nos seus livros, ressalta também a brutalidade sofrida pela maioria negra da Bahia. E isso influenciou muito, muito dos escritores moçambicanos, de várias correntes, por exemplo, dos anos 60 até os anos 80, porque. Tirando todos os fatores, todos os elementos, o Jorge Amado tem um substrato africano muito, muito rigoroso, muito forte, que ilumina, de certo modo, qualquer escritor africano.”
Adelino estará na Festa Literária Internacional do Pelourinho que começa hoje, 6, e vai até o domingo, dia 10. A programação é inteiramente gratuita. O autor moçambicano lançará “Nós, os de Macurungo” no dia 09 de agosto às 11h na Casa Olodum, mas antes participará da mesa “Conversas Transatlânticas”, dia 8 de agosto, com mediação de Iuri Barreto. Deixo, para finalizar a matéria, as próprias palavras de Adelino ao findar a entrevista:
“Eu terminaria com esta entrevista com os dois versos de Drummond Andrade. ‘No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho’. E quem quiser que tire conclusões, falando do Brasil e do meu povo e dessas diferenças raciais. Muito obrigado, muito obrigado”.
