
Flip sem autores nordestinos e com predominância das grandes editoras expõe uma curadoria pouco atenta à cena literária brasileira
Pela segunda vez, FLIP dispensa autores nordestinos de forma massiva. Ano passado foram apenas dois convidados no programa principal, este ano, apenas um.
Publicado originalmente em 24 de junho de 2025. Foto: Eu amo Paraty (Reprodução).
Começo este texto lembrando o texto que escrevi ano passado denunciando a ausência de autores nordestinos e nortistas na FLIP. Na época, tínhamos apenas um autor nortista e dois nordestinos. Este ano, a coisa melhorou (se é que se pode chamar isso de melhora) quanto aos autores nortistas: são três, a paraense Monique Malcher, a amazonense Verenilde Pereira e a ministra de estado Marina Silva, do Acre que, eu apostaria, entrou nos minutos finais para aproveitar o destaque dado pelos recentes ataques covardes que recebeu no último mês.
Quanto aos nordestinos, pirou: apenas o cearense Pedro Guerra é autor convidado no programa principal. A excelente Aline Midlej está no programa principal, mas como mediadora e, considerando que os mediadores não aparecem como convidados na programação principal, irei considerar apenas Guerra.
Até 2023, a autoria nordestina transitou relativamente bem no palco da maior festa literária do Brasil, com altos e baixos. Em 2023, último ano da curadoria de Milena Britto, professora nordestina, e Fernanda Bastos, foram 7 autores nordestinos, entre eles Itamar Vieira Jr., Socorro Acioli e Denise Carrascosa.
Seria muita inocência de nossa parte presumir uma FLIP com convidados iguais de todas as regiões e essa, inclusive, não é a reivindicação, ainda mais pensando que é uma festa que está em Paraty. A questão é que houve, entre os anos de 2019 e 2023, o interesse em tornar a festa mais plural, o que parece não acontecer com a curadoria de Ana Lima Cecílio, que assume o programa principal pela segunda vez.
Flip sob curadoria de Ana Lima Cecílio parece reduzir literatura brasileira à literatura paulistana
Reivindicar pluralidade na cena literária não é pedir muito, tampouco um grande exercício quando pensamos o quanto autores para além do clube do bolinha paulista estão sendo lidos no Brasil. De fato, ano passado, os três principais prêmios da literatura brasileira foram entregues para autores nordestinos: o Prêmio Jabuti para Itamar Vieira Jr, o Prêmio São Paulo para Luciany Aparecida e o Prêmio Oceanos para Micheliny Verunsckh, todos autores que já participaram da FLIP anteriormente.
Tudo bem também que os prêmios não precisam ser os critérios oficiais para a escolha de qualidade, mas quais seriam? Autores nordestinos vendem livros, são aclamados pela crítica, têm leitores inclusive no sudeste, circulam internacionalmente e são, sem exagero, a ponta de lança da inovação estética deste país (desde 1930, pelo menos). O que mais precisamos para fazer parte?
A ausência desses autores na FLIP demonstra certo desconhecimento, para não falar em má-vontade, de saber o que tem acontecido para além da cena literária em São Paulo. Dos 21 autores brasileiros convidados para a FLIP, 13 são sudestinos e 6 são de São Paulo. A predominância também é de autores publicados pela Companhia das Letras. São praticamente inexistentes autores que publicam por editoras fora do eixo Rio/São Paulo.
Mas são só essas pessoas que publicam no Brasil? São só esses livros que estão sendo comentados? Apenas esses autores lançaram livros este ano? Não mesmo! Os excelentes Josoaldo Lima Rêgo, Rodrigo Lobo Damasceno, Evanilton Gonçalves, Ian Fraser e Jarid Arraes lançaram (ou estão para lançar) livros em 2025 (isso só para citar os que publicam em editoras grandes). Fora das editoras grandes, existe um universo de literatura sendo produzida, sendo lida, sendo comentada, mas as festas literárias convidam sempre os mesmos convidados.
Acabamos de sair de uma maratona Feira do Livro + Bienal do Rio e sempre parece que estamos lendo a mesma programação. As mesas, inclusive, sugerem conversas muito parecidas, com as mesmas pessoas juntas para as mesmas conversas, com a diferença que os últimos dois eventos supracitados ao menos tentaram trazer um evento mais diverso. A FLIP deste ano, não. Há pouca diversidade, muito lobby.
Ano passado, inclusive, quando escrevi sobre a FLIP, cheguei a dizer que o “olhar de livreira” que Ana Lima Cecílio proporcionou acabou sendo mais um olhar de mercado. Repito as mesmas palavras este ano.
O problema de uma FLIP sem autores nordestinos é a perpetuação de um cânone que não representa o país
A programação, que este ano homenageia Paulo Leminski, tem pontos muito interessantes, assim como no ano passado. É uma programação boa, com bons autores, mas autores que já ouvimos quase exaustivamente. Pensando que a FLIP é também uma dessas instituições responsáveis por perpetuar a canonização de autores, ao longo prazo, a consequência de uma curadoria tão pouco atenta ao que acontece na cena literária brasileira, é a continuação de uma canonização que valoriza apenas o que é igual.
Ano passado também conversei com Calila das Mercês, que curou a FLICA, na Bahia, sobre esse processo de curadoria. Na ocasião, ela me contou em entrevista (sobre a ausência de autores nordestinos na FLIP): Como autora, e aí você me dá oportunidade de falar mais, e também como pesquisadora, acho que é sempre importante eventos que tragam perspectivas discursivas plurais. Não somente pelo viés de representatividade e representação, porque acredito que fazemos muito mais que isso. Não acho que devemos só aparecer na conveniência, ou para não ficar feio. Mas pela excelência dos trabalhos que entregamos. Incontável o tanto de gente boa nossa fazendo trabalho e literatura de ponta.
À frente da FLICA, Calila entregou uma programação que fazia sentido, que pensava aquilo que estava no centro e nas margens da produção literária. Fico pensando quantas pessoas estão pesquisando, estão produzindo e estão pensando a literatura brasileira a partir de outros centros que não seja considerar os seus amigos, conhecidos e colegas de USP e PUC para a programação.
Confesso que, ao ver a programação final, fiquei pouco interessado, justamente pela repetição e também pela incoerência (como uma mesa só para o Gregório Duvivier que não tem nem mediador), mas fiquei curioso para ver o que vai rolar, embora já tenha uma forte impressão de que, no fim, a programação paralela, dos autores e editores que estão fazendo de tudo para ir à Paraty, será muito melhor. Recomendo que fiquem atentos.

