
Festivais Plurais
É no encontro de diferentes vozes que a palavra vira rio, que a narrativa ganha correnteza, que a literatura se fortalece.
Foto: Divulgação (FLITABIRA).
Em outubro, fui convidada para participar de uma mesa no Festival Literário de Itabira, cujo tema era: “Oralidade e escrevivência: tecendo saberes e memórias socioculturais.”
Foi um momento inédito: dividiam a mesa comigo o escritor paraense Airton Souza, a amapaense Cláudia Flor D’Maria e, na mediação, a baiana Lívia Sant’Anna Vaz. Digo inédito porque não é comum ver, numa cidade sudestina, uma mesa composta exclusivamente por pessoas do Norte e Nordeste. Difícil conter a emoção diante de uma plateia que, em grande parte, pouco conhece a realidade amazônica.
Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo, diz: “a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim.” Essa frase traz uma imagem poderosa: enquanto houver quem conte, o mundo não acaba. Contar é modo de resistir. De manter acesa a chama da vida. Portanto, oralidade é mais que meio de transmissão.
É gesto de continuidade, e, sobretudo, gesto de escuta. O povo amazônico sempre foi, antes de qualquer coisa, povo da oralidade. Sempre estivemos dispostos a abrir corpo e tempo para o outro, permitindo que a história alheia entre em nós, se encarne, se misture.
Meu livro de contos, Sol abrasador prepara solo fértil, nasceu exatamente desse gesto. É um livro tecido de histórias que ouvi. Histórias pequenas, muitas vezes silenciadas, que quase ninguém se interessa em registrar. Histórias de gente que vive à margem das narrativas oficiais, mas que carrega dentro de si vasto território de sabedoria e memória.
Gosto de pensar o corpo como território: o corpo que escuta é solo fértil, pronto para receber as sementes da fala. A oralidade é viva; pulsa no espaço entre quem fala e quem ouve; e é nesse entre que a narrativa se torna possível.
Por outro lado, essa mesa também tratava de “escrevivência”, conceito de Conceição Evaristo, que nos lembra da necessidade de escrever vidas que se desdobram para além do indivíduo, incorporando memória e experiência coletiva. Escrever que brota da vida, não da abstração.
A escrevivência não se separa da oralidade: ela continua o gesto da fala. Passa adiante. Em comunidades onde a palavra falada é o arquivo da memória, escrever é também traduzir. Escrevo como quem ouve. Antes da palavra, há sempre escuta; e a escuta é encontro. Toda vez que contamos, transformamos o que nos foi contado. E assim a vida se segue narrando.

É fundamental que festivais oriundos do chamado “centro literário” abram espaço para outras literaturas. Antônio Bispo dos Santos lembra: “um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio. Ao contrário, ele passa a ser ele mesmo e outros rios. Ele se fortalece. Quando a gente confluencia, a gente não deixa de ser a gente. A gente rende.”
Tudo isso para dizer: é no encontro de diferentes vozes que a palavra vira rio, que a narrativa ganha correnteza, que a literatura se fortalece.
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