
‘Esquiva’, um conto de Laura Assis
Leia com exclusividade na O Odisseu ‘Esquiva’, um conto de Laura Assis, autora mineira, que está no livro Enquanto elas crescem no escuro (Urutau, 2025).
Imagem de capa: Sally Mann, na série de fotografias ‘Immediate Family’ (Reprodução).
As paredes frias do apartamento contrastam com a luminosidade que te alcança logo que você coloca os pés fora do prédio. É sempre assim quando sai de casa. Mas essa não é uma manhã comum. É o último dia letivo e você não está rumando, como de costume, em direção a cinco horas e meia de aula, e sim para a aguardada festa de confraternização de fim de ano da escola.
Logo cedo, você buscou em silêncio, nos cômodos ainda escuros, moedinhas esquecidas pelos móveis e notas emboladas no fundo de bolsos. Sabe que não adiantaria pedir a ninguém. Com aquela quantia, o mais fácil seria comprar um guaraná e fingir que esqueceu o que a professora escreveu no quadro: “meninas levam salgado e meninos levam refrigerante”; mas só de imaginar os olhares de desprezo — principalmente das colegas que vão chegar com pratos de papelão embrulhados em papel pardo, estufados pelos salgados feitos ou encomendados pelas mães — você já começou a sentir vergonha e decidiu espremer cada centavo dos trocados surrupiados para comprar uma dúzia de mini pasteizinhos engordurados em uma lanchonete do caminho.
Você chega e logo deixa sua contribuição num cantinho discreto da enorme mesa improvisada no centro da sala, formada por várias carteiras coladas umas às outras, e coberta de pratos de salgados, garrafas suadas de refrigerante e pilhas de copos descartáveis que vão se rachar ao primeiro apertão. A professora Lena tenta organizar a bagunça: a orientação é apenas arrumar a mesa e ficar dentro da sala, esperando pelos diretores, que vão passar de turma em turma para deixar uma mensagem de final de ano. Em algum momento depois disso, vocês irão até o pátio para assistir a uma apresentação de capoeira e então vão estar de férias até o ano seguinte.
Mas a escola tem, naquele turno, nove turmas de mais de trinta alunos, e a essa altura cada uma delas está fechada em uma sala abafada com cheiro de cola branca, crianças suadas e fritura, assim como a sua, a penúltima do corredor, coroada pela placa na qual se lê: 6o ano D. Os diretores demoram para aparecer e quando enfim chegam, a professora, cansada e facilmente superada em vontade e em números, já desistiu de impedir que os alunos, famintos e apinhados em torno das mesas, atacassem as comidas e bebidas.
Em cinco minutos, a tal mensagem é transmitida, mas você não presta atenção, ocupada tentando pegar pelo menos um salgado de cada, de preferência aqueles levados pelas meninas mais metidas, cujas mães têm tempo e dinheiro para encomendar coxinha com recheio de catupiry. Os diretores tinham acabado de sair quando você decide contornar a mesa para pegar mais um copo de Coca-Cola, e é nesse momento que sente que algo mudou.
Você é uma menina com uma inteligência normal. Não é genial, não se destaca, mas também não tem grandes dificuldades com a matéria. Entende o suficiente sobre a lógica das palavras, se vira na aleatoriedade dos números, mas o seu segredo é que você tem algo que te ensinou a se afastar de quase tudo que possa se tornar um problema. É uma luzinha vermelha escondida lá no fundo da sua consciência, uma campainha que toca numa frequência estranha e que você pode até demorar um pouco a escutar, mas escuta, e que faz com que quase sempre se livre do pior.
Muitos anos depois, você vai entender que isso também é um tipo de inteligência, que muita gente prefere chamar de intuição. Mas o depois ainda não aconteceu. Nesse momento você é apenas uma menina de doze anos, com um instinto que te fez suspender todos os seus movimentos por perceber que algo está acontecendo ou vai acontecer. Todo mundo olha para alguém e esse alguém não é você. É o Cauã. Ele anda na sua direção com os dois braços escondidos atrás das costas. Alguns meninos se entreolham e seguram o riso.
Todo mundo começa a falar mais baixo. Você olha em volta e vê que a professora saiu da sala e a porta, antes aberta, foi fechada.
Cauã para a dois passos de você e diz:
— Mandaram te entregar, Adriana.
Contrariando toda a lógica do lugar e da situação, o silêncio baixa, absoluto, e domina aquela sala que, poucos segundos antes, era tão barulhenta. Os ruídos são os de fora. Você não se mexe.
— Toma. É presente!
Apesar da suspensão ou talvez por causa dela, você ouve alguém perguntar, não muito alto, em algum ponto fora do seu campo de visão:
— É amigo oculto?
Você sabe, claro, que não teve amigo oculto. Era o tipo de dinâmica que tinha causado muita confusão em anos anteriores, então aquilo nem faz sentido. Mas são apenas milésimos de segundos para entender, decidir, reagir, responder. Cauã não diz mais nada, só estica as mãos. Você vê um embrulho cinza amassado, uma forma retangular, grande o bastante para ele segurar com as duas mãos. Parece que reutilizaram o papel de alguma embalagem de salgadinhos.
‘Muitos anos depois, você vai entender que isso também é um tipo de inteligência, que muita gente prefere chamar de intuição.’
Por um momento, só por curiosidade, você quase estica a mão para pegar o tal pacote e acabar logo com aquilo, mas algo faz com que o impulso morra nos seus neurônios antes de se concretizar e você continua parada. Olha em volta e vê que as expressões perderam as contrações que antes ensaiavam sorrisos debochados e agora estão paralisadas, numa expectativa selvagem de bicho que espera a presa. De repente, você sabe.
— Não quero, não. Pode ficar pra vocês.
Na hora exata em que usa o plural na resposta, você tem certeza de que fez a escolha certa. Começa a pensar no que faria com aquela decisão, qual seria o próximo passo, agora que tinha entendido. A expressão do Cauã muda da expectativa para a raiva e você até já imagina, também pela força com a qual ele agora aperta o pacote, o que ele vai fazer. No último segundo antes do desastre, a porta se abre e a professora surge anunciando:
— Pessoal, agora sem confusão, organizados e com calma, vamos pro pátio ver a apresentação de capoeira!
E é assim que vocês se esquecem de tudo e saem correndo e se embolando da forma mais confusa possível, enquanto se acotovelam e tentam passar, quase todos ao mesmo tempo, pela única porta de saída.
Você não sabe, mas mais tarde, quando Carla e Cida, as moças da faxina, entrarem na sala, vão encontrar, além dos restos de salgadinho, copos descartáveis usados, cheios e vazios, pratos de papelão e embalagens, um embrulho cinza retangular esquecido num canto. Carla vai desembrulhar o pacote e se deparar com um pote de margarina fechado. Vai dar uma espiada no conteúdo, mas logo vai se arrepender e fazer uma careta, enquanto o arremessa dentro de um saco preto de lixo resmungando Pelo amor de Deus, essas crianças, cruz credo… Cida então vai começar a varrer o chão e as duas vão conversar sobre o Natal enquanto terminam de limpar a sala. Depois, elas irão trancar as portas, carregar os sacos pretos pelos corredores e atirá-los no container plástico azul que fica na calçada em frente à escola todas as manhãs de segunda, quarta e sexta. E ali eles ficarão até o caminhão do lixo passar.
Mas enquanto isso não acontece, a sala continua imunda e vazia, e você, de pé no pátio da escola, bate palmas e assiste a apresentação de capoeira, vidrada nos movimentos dos lutadores, que, para delírio das dezenas de crianças que se espremem em torno da roda, executam acrobacias no chão e no ar, um após o outro, finalizando as sequências com saltos mortais.
O mestre chama um menino e uma menina não muito mais velhos que você, que ostentam cordas verdes em torno de suas cinturas. Você não sabe o que isso quer dizer, mas logo percebe que os passos, ritmo e golpes são muito mais complexos do que qualquer um ali esperaria de alguém da idade deles. Eles se aproximam e se distanciam um do outro, gingando em câmera lenta, disparando chutes que não acertam em cheio por um triz.
O menino tem o cabelo bem curto e descolorido, o que contrasta com as tranças muito pretas da menina, presas em um enorme coque no alto da cabeça. A manhã já está no final e o sol agora tomou o pátio inteiro. Os capoeiristas suam sob o sol de dezembro. As palmas do público ficam ainda mais fortes, você acompanha, suas mãos ardem. A lutadora toma distância e vai andando a passos muito largos até o extremo oposto do círculo. Ela então se vira, para por um momento, inspira profundamente e vem correndo em sua direção, até que de repente joga as duas mãos no chão de cimento e impulsiona o corpo para o alto. Enquanto ela gira no ar, suas tranças se soltam do coque e se espalham como raios, e é aí que você começa a entender que o mundo é mesmo muito maior.

Leia Também: ‘O deus das infinitas surpresas’, conto de otavio leonidio

Laura Assis (Juiz de Fora, 1985) é escritora, tradutora, editora e professora, com doutorado em Literatura pela PUC-Rio. Publicou os livros de poesia Depois de rasgar os mapas (Aquela Editora, 2014) e Parkour (Edições Macondo, 2022). Traduziu Bendita seja a filha criada por uma voz em sua cabeça (Cia. das Letras, 2022), estreia da poeta somali-britânica Warsan Shire. Professora de Literatura no CAp e no mestrado da UFJF.
